{"id":7160,"date":"2010-09-14T14:34:20","date_gmt":"2010-09-14T14:34:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7160"},"modified":"2010-09-14T14:34:20","modified_gmt":"2010-09-14T14:34:20","slug":"palma-busca-expiar-pecados-originais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/09\/america-latina\/palma-busca-expiar-pecados-originais\/","title":{"rendered":"Palma busca expiar pecados originais"},"content":{"rendered":"<p>Tail\u00e2ndia, Par\u00e1, 14\/09\/2010 &ndash; \u201cMelhor o dend\u00ea do que o gado\u201d, diz a camponesa Violeta dos Reis, que cozinha e serve refei\u00e7\u00f5es no bar que mant\u00e9m com seu marido no povoado de Araua\u00ed.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7160\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/80820.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7160\" class=\"size-medium wp-image-7160\" title=\"Um jovem transporta em um burro sua colheita de frutos e racimos de palma. - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/80820.jpg\" alt=\"Um jovem transporta em um burro sua colheita de frutos e racimos de palma. - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7160\" class=\"wp-caption-text\">Um jovem transporta em um burro sua colheita de frutos e racimos de palma. - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  Nos arredores, abre-se um novo mundo para pequenos agricultores pobres do Brasil. O motivo \u00e9 econ\u00f4mico. O dend\u00ea \u2013 nome brasileiro da palma africana \u2013 \u201cd\u00e1 mais futuro\u201d, afirma Violeta. Por isso seu marido, Florisvaldo, comprou, por R$ 14 mil, dez hectares plantados com palma em um projeto de agricultura familiar integrado \u00e0 empresa Agropalma.<\/p>\n<p>O argumento tamb\u00e9m poderia ser ambiental. Ao longo da rodovia PA 150, entre as cidades de Moju e Tail\u00e2ndia, as planta\u00e7\u00f5es de palma constituem uma mon\u00f3tona paisagem em dezenas de quil\u00f4metros do nordeste do Par\u00e1. A monocultura causa impacto em quem espera ver a exuber\u00e2ncia e a diversidade da selva neste peda\u00e7o da Amaz\u00f4nia oriental. Antes e depois das planta\u00e7\u00f5es de palma, o panorama tampouco \u00e9 \u201camaz\u00f4nico\u201d.<\/p>\n<p>Extensas pastagens e terras degradadas comprovam que a palma est\u00e1 se expandindo em uma \u00e1rea que j\u00e1 sofria amplo desmatamento. A extra\u00e7\u00e3o de madeira e a pecu\u00e1ria, al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o vegetal, destru\u00edram muitas florestas por estes lados. \u00c9 a regi\u00e3o escolhida pela Agropalma, a maior produtora de \u00f3leo de palma da Am\u00e9rica Latina, para plantar, desde 1982, uma das tr\u00eas esp\u00e9cies de palma, a africana (Elaeis guineensis), em 39 mil hectares.<\/p>\n<p>Na primeira d\u00e9cada, a monocultura avan\u00e7ou sobre florestas nativas, reconhece seu diretor comercial, Marcello Brito. Depois, a empresa adotou princ\u00edpios de responsabilidade social e ambiental. Al\u00e9m de manter 64 mil hectares de reserva florestal, destina 10,5% de sua \u00e1rea plantada ao cultivo org\u00e2nico certificado e mant\u00e9m v\u00e1rias iniciativas a favor da biodiversidade e contra o desmatamento.<\/p>\n<p>A Agropalma \u00e9 membro ativo da Mesa Redonda do \u00d3leo de Palma Sustent\u00e1vel (RSPO, sigla em ingl\u00eas), um f\u00f3rum fundado em 2004 por empresas produtoras, comerciantes e consumidoras de \u00f3leo, organiza\u00e7\u00f5es ecologistas e investimentos, para promover e certificar a sustentabilidade ambiental e social do produto. Como vice-presidente da RSPO, Marcello foi o anfitri\u00e3o da sua II Confer\u00eancia Latino-Americana em Bel\u00e9m, capital do Estado do Par\u00e1, realizada de 24 a 27 de agosto, quando foi defendida a expans\u00e3o sustent\u00e1vel deste vegetal na regi\u00e3o, evitando os \u201cerros\u201d cometidos na Indon\u00e9sia e na Mal\u00e1sia.<\/p>\n<p>Esses dois pa\u00edses asi\u00e1ticos concentram 85% da produ\u00e7\u00e3o mundial de \u00f3leo de palma, que acaba de se converter no mais consumido, superando o da soja, e com m\u00faltiplos usos na alimenta\u00e7\u00e3o, cosmetologia e energia. Mas ali esse crescimento foi obtido \u00e0 custa de um vasto desmatamento e da invas\u00e3o e remo\u00e7\u00e3o dos dep\u00f3sitos naturais de carv\u00e3o f\u00f3ssil, que liberaram grandes emiss\u00f5es de gases-estufa. A RSPO tem a dif\u00edcil miss\u00e3o de expiar esse pecado, com uma limitada ades\u00e3o asi\u00e1tica.<\/p>\n<p>A primeira confer\u00eancia latino-americana da RSPO, em 2008, na Col\u00f4mbia, pa\u00eds que \u00e9 o maior produtor regional, provocou uma declara\u00e7\u00e3o assinada por 259 organiza\u00e7\u00f5es sociais e ambientais de todo o mundo, condenando a monocultura da palma como amea\u00e7a \u00e0s florestas e ao clima, a \u201cmilh\u00f5es de ind\u00edgenas\u201d e camponeses e \u00e0 seguran\u00e7a alimentar. A RSPO \u00e9 um instrumento \u201cdo neg\u00f3cio\u201d e n\u00e3o est\u00e1 destinada a \u201cconter seus impactos ambientais e sociais\u201d, critica essa declara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, na Amaz\u00f4nia brasileira, a palma tem fun\u00e7\u00f5es bioqu\u00edmicas similares \u00e0s florestas naturais, al\u00e9m de reduzir a eros\u00e3o e o g\u00e1s carb\u00f4nico, afirmam cientistas brasileiros. \u00c9 um \u201ccultivo complexo\u201d mas ben\u00e9fico para o meio ambiente e \u201cmais barato do que restaurar as florestas nas terras j\u00e1 degradadas\u201d, disse Marcos Ximenes, ex-reitor da Universidade Federal do Par\u00e1 e diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia. \u201cMuito melhor do que o boi\u201d, disse, concordando com Violeta dos Reis.<\/p>\n<p>Neste pa\u00eds, seguindo os crit\u00e9rios da RSPO, a ambi\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o do dend\u00ea da m\u00e3o da pequena agricultura conta com apoio oficial, especialmente em cr\u00e9ditos brandos do Programa de Produ\u00e7\u00e3o Sustent\u00e1vel de Palma de \u00d3leo no Brasil, anunciado em maio pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. A meta \u00e9 duplicar a \u00e1rea plantada e incorporar 12 mil agricultores familiares \u00e0 atividade nos pr\u00f3ximos quatro anos.<\/p>\n<p>Entretanto, fala-se em um milh\u00e3o de hectares, mais de dez vezes a superf\u00edcie atual, por\u00e9m, quase nada em compara\u00e7\u00e3o aos 31,8 milh\u00f5es de hectares considerados aptos para este cultivo por um recente estudo nacional. Em todo o mundo, estima-se que a palma ocupe hoje em dia 12 milh\u00f5es de hectares. O Brasil produz pouco mais de 200 mil toneladas anuais de \u00f3leo de palma, 0,5% do total mundial, e importa uma quantidade similar para atender o consumo interno.<\/p>\n<p>A Petrobras implementou dois projetos para produzir biodiesel de \u00f3leo, um deles em Portugal. O plano prev\u00ea 2.250 fam\u00edlias cultivando palma, al\u00e9m de m\u00e9dios e grandes agricultores, todos assentados no Par\u00e1, que j\u00e1 concentra 90% da produ\u00e7\u00e3o brasileira desse \u00f3leo. A Vale, uma das maiores exportadoras mundiais de min\u00e9rio de ferro, tamb\u00e9m anunciou que implantar\u00e1 seis polos de palma no Par\u00e1, para obter biodiesel destinado ao consumo de seus meios de transporte, que incluem v\u00e1rias ferrovias e portos.<\/p>\n<p>Os planos de incluir agricultores familiares baseiam-se na experi\u00eancia da Agropalma. Entre 2002 e 2006, a empresa incorporou 185 fam\u00edlias como produtoras associadas, em lotes de seis a dez hectares cedidos por \u00f3rg\u00e3os governamentais. Os beneficiados s\u00e3o pequenos produtores locais que devem manter suas planta\u00e7\u00f5es tradicionais, como milho e mandioca, j\u00e1 que a colheita de palma ocupa apenas entre quatro e seis dias de trabalho por m\u00eas. O casal Reis entrou no projeto h\u00e1 tr\u00eas anos, adquirindo o contrato de um s\u00f3cio original para a venda de sua colheita \u00e0 Agropalma durante 25 anos, tempo de vida da palmeira. Al\u00e9m disso, cultivam outras terras e exploram o com\u00e9rcio em Araua\u00ed.<\/p>\n<p>Este esquema muda a vida dos camponeses, proporcionando uma renda mensal, mas eles precisam ter vis\u00e3o de longo prazo. A palma exige muitos cuidados e n\u00e3o produz nada nos tr\u00eas primeiros anos, durante os quais s\u00f3 cresce a d\u00edvida do produtor associado, somando gastos com sementes, fertilizantes e equipamentos, que dever\u00e1 pagar mensalmente quando come\u00e7arem as colheitas. H\u00e1 quem n\u00e3o consegue se adaptar a este sistema e quebra.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o planejam o tempo destinado \u00e0 palma e a outros cultivos, deixam crescer o mato e desanimam\u201d, resumiu Francisco Dami\u00e3o, supervisor de campo na agricultura familiar. De fato, h\u00e1 planta\u00e7\u00f5es quase abandonadas em algumas \u00e1reas. Mas a maioria dos camponeses associados elevou sua renda, mesmo pagando suas d\u00edvidas. Benedita Nascimento, a quem a Agropalma tem como exemplo de sucesso, garante que sua renda mensal passa de R$ 2 mil, soma \u201cinimagin\u00e1vel\u201d para uma fam\u00edlia camponesa local. Violeta disse que a palma rende R$ 1,5 mil l\u00edquidos.<\/p>\n<p>Em suas pr\u00f3prias planta\u00e7\u00f5es e unidades industriais, cinco de extra\u00e7\u00e3o do \u00f3leo bruto e uma de refino, a empresa tem 4.748 empregados. Aqui tamb\u00e9m houve pecados: cerca de 3.500 trabalhadores eram subcontratados, como forma de evitar os direitos trabalhistas, at\u00e9 que o Minist\u00e9rio P\u00fablico interveio em 2007 e conseguiu um acordo para a contrata\u00e7\u00e3o direta, disse \u00e0 IPS o sindicalista Manoel Evangelista da Silva, diretor de assalariados do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Tail\u00e2ndia, o munic\u00edpio onde fica a sede da Agropalma.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, trata-se de uma \u201cexcelente companhia que trouxe benef\u00edcios diretos e indiretos\u201d para as comunidades locais, aumentando a renda e, ultimamente, a aten\u00e7\u00e3o com seus trabalhadores, disse o sindicalista. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tail\u00e2ndia, Par\u00e1, 14\/09\/2010 &ndash; \u201cMelhor o dend\u00ea do que o gado\u201d, diz a camponesa Violeta dos Reis, que cozinha e serve refei\u00e7\u00f5es no bar que mant\u00e9m com seu marido no povoado de Araua\u00ed. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/09\/america-latina\/palma-busca-expiar-pecados-originais\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5,10,4],"tags":[21],"class_list":["post-7160","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-energia","category-mundo","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7160"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7160\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}