{"id":7184,"date":"2010-09-24T16:59:39","date_gmt":"2010-09-24T16:59:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7184"},"modified":"2010-09-24T16:59:39","modified_gmt":"2010-09-24T16:59:39","slug":"um-cafe-que-produz-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/09\/america-latina\/um-cafe-que-produz-sonhos\/","title":{"rendered":"Um caf\u00e9 que produz sonhos"},"content":{"rendered":"<p>Putina Punco, Peru, 24\/09\/2010 &ndash; \u00c9 s\u00e1bado e as mulheres chegam apressadas, com sacas nas costas, ao centro de armazenamento de caf\u00e9s especiais deste munic\u00edpio do sudeste do Peru. V\u00eam sozinhas ou acompanhadas de maridos e filhos e todas encontram no gr\u00e3o algo mais al\u00e9m da sobreviv\u00eancia. <!--more--> Victoria Viamonte, de 43 anos, carrega sua saca por tr\u00eas horas de caminhada desde sua propriedade. Sua vizinha Inocencia Chipana, de 63 anos, a acompanha com outra de 22,6 quilos de caf\u00e9. Para algumas o carrinho de m\u00e3o e a mula tornam mais leve a carga, mas a vontade \u00e9 o motor destas mulheres.<\/p>\n<p>Seus s\u00edtios est\u00e3o dispersos pelo que chamam de beira da Selva de Puno, a regi\u00e3o do extremo sudeste que come\u00e7a a ser conhecida pelo caf\u00e9 de Sandia, uma de suas prov\u00edncias.<\/p>\n<p>Putina Punco est\u00e1 a 12 horas por rodovia ao norte de Puno, a capital do departamento. Nesta \u00e1rea mulheres e homens qu\u00e9chuas e aymaras produzem, em harmonia com a natureza, o gr\u00e3o org\u00e2nico que este ano recebeu o t\u00edtulo de melhor caf\u00e9 do mundo.<\/p>\n<p>Em abril, a Associa\u00e7\u00e3o Norte-Americana de Caf\u00e9s Especiais (SCAA) premiou o produto de um cafeicultor de Putina Punco como um dos nove melhores caf\u00e9s do mundo e, deles, os degustadores e baristas presentes \u00e0 feira decidiram que o peruano levasse o Pr\u00eamio do P\u00fablico.<\/p>\n<p>Dias depois, em um concurso de degusta\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Europeia de Caf\u00e9s Especiais, os especialistas certificaram que o gr\u00e3o Tunki de Sandia \u00e9 um dos melhores em n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>S\u00e1bado \u00e9 dia de feira. Os pequenos cafeicultores descem as ladeiras dos montes para comprar viveres e entregar o que colheram. Ent\u00e3o, o centro de armazenamento da Central de Cooperativas Agr\u00e1rias Cafeeiras dos Vales de Sandia (Cecovasa) se converte em um enxame de homens e mulheres apressados e suarentos.<\/p>\n<p>\u201cMulher e homem trabalham por igual no campo\u201d, disse ao TerraViva Teresa Jove, de 45 anos, secret\u00e1ria da Comiss\u00e3o de Desenvolvimento da Mulher da Cecovasa. \u201cNos apoiamos mutuamente para levar adiante a fam\u00edlia\u201d, completou seu marido, Pastor Larico, de 51 anos, antes de contarem o quanto est\u00e3o orgulhosos de seus tr\u00eas filhos estudarem na universidade.<\/p>\n<p>A Cecovasa \u00e9 a segunda central cafeeira do pa\u00eds e vende 97% de seus gr\u00e3os para os Estados Unidos e pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>A origem de seu sucesso est\u00e1 em 1998, quando a central passou a produzir caf\u00e9 org\u00e2nico na sombra, apoiada pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental norte-americana Conserva\u00e7\u00e3o Internacional para promover o desenvolvimento sustent\u00e1vel no santu\u00e1rio de biodiversidade de Bahuaja Sonene, ao norte do Lago Titicaca, compartilhado com a Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>A melhora da qualidade do caf\u00e9 se combinou com medidas para garantir a sustentabilidade e o com\u00e9rcio justo, e, para impulsionar certifica\u00e7\u00f5es internacionais, a Cecovasa decidiu promover a igualdade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Como resultado, 30% de seus cinco mil cooperados s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>No entanto, o machismo resiste. \u201cH\u00e1 agricultores que n\u00e3o se acostumam com uma mulher que diz o que pensa e em voz alta\u201d, sintetizou a religiosa cat\u00f3lica Roc\u00edo Vinueza, que colabora com as cafeicultoras.<\/p>\n<p>Maria Ramos, de 56 anos, \u00e9 uma das agricultoras que, como seus gr\u00e3os, saiu da casca. Presidiu o Comit\u00ea de Desenvolvimento da Mulher da Cecovasa e agora \u00e9 sua vice-presidente. Seus p\u00e9s de caf\u00e9 est\u00e3o a 1.650 metros de altitude, como os premiados pela SCAA.<\/p>\n<p>A essa altitude, a colheita se estende de maio a setembro, porque a matura\u00e7\u00e3o do caf\u00e9 \u00e9 mais lenta devido \u00e0 umidade. Mas Maria est\u00e1 acostumada ao trabalho duro desde os sete anos, quando seu pai a ensinou a viver nos cafezais na \u00e9poca em que a fam\u00edlia migrou das inclementes regi\u00f5es alto-andinas de Puno.<\/p>\n<p>Dedicou mais de tr\u00eas d\u00e9cadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 sem fertilizantes, ganhou dois pr\u00eamios na regi\u00e3o e em dezembro foi uma das vencedoras de um concurso internacional da n\u00e3o governamental Rainforest Alliance (Alian\u00e7a para Florestas) \u2013 que certifica o caf\u00e9 produzido de forma sustent\u00e1vel \u2013, competindo com produtores de Brasil, Uganda, Indon\u00e9sia e Qu\u00eania, entre outros.<\/p>\n<p>Na parte alta dos vales de Tambopata e Inambari de Sandia, os cafezais resistem ao avan\u00e7o dos cultivos de coca, mat\u00e9ria-prima da coca\u00edna. Em Tampobata, onde est\u00e1 Maria, os produtores de coca a cada dia cercam mais os cafezais e em Inambari j\u00e1 ganharam o jogo.<\/p>\n<p>\u201cDizem que cultivar a folha de coca \u00e9 mais f\u00e1cil e se ganha mais, mas sou fiel ao caf\u00e9\u201d, afirmou Maria ao TerraViva certa noite em sua humilde casa, onde criou sozinha quatro filhos, ap\u00f3s separar-se, h\u00e1 20 anos, de um marido que a maltratava.<\/p>\n<p>Maria queixa-se de que os US$ 85 por quintal (46 quilos) que a Central paga como antecipa\u00e7\u00e3o n\u00e3o bastam. No total, os cafeicultores recebem uma m\u00e9dia de US$ 107 por quintal, exceto para os caf\u00e9s premiados, que podem chegar aos US$ 1 mil.<\/p>\n<p>O s\u00edtio de Maria tem dois hectares, dos quais obt\u00e9m 40 quintais ao ano. Todos s\u00e3o pequenos cafeicultores, e, assim, colhem no m\u00e1ximo 80 quintais anualmente.<\/p>\n<p>Ser cafeicultora n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Maria acorda \u00e0s quatro da madrugada para preparar o caf\u00e9 e o almo\u00e7o que levar\u00e1 para o cafezal, para ela e alguns pe\u00f5es que contrata. \u201cPiccha\u201d (mastiga) folhas de coca para que lhe deem \u201cenergia e n\u00e3o a deixem fraca\u201d e come\u00e7a a cortar o mato, colher, retirar a polpa e lavar o caf\u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o deita antes das dez da noite, e assim s\u00e3o todos os dias de sua vida, menos quando chove ou \u00e9 lua cheia, devido \u00e0 cren\u00e7a de que se trabalhar a planta\u00e7\u00e3o seca.<\/p>\n<p>Maria, como outros cafeicultores, seguiu o conselho de plantar \u00e1rvores de madeira em sua terra para reflorestar os terrenos danificados e manter seus caf\u00e9s na sombra. O adubo prov\u00e9m dos restos de vegetais da cozinha, do p\u00f3 de caf\u00e9 e do excremento do cuy (roedor andino) e n\u00e3o s\u00e3o usados produtos qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>No s\u00edtio tudo \u00e9 reciclado, tudo tem uma ordem, tudo \u00e9 verde ou vermelho vinho quando os gr\u00e3os amadurecem. \u201cPrecisamos cuidar do meio ambiente pela vida de todos\u201d, disse Maria, convencida disso.<\/p>\n<p>Tal como est\u00e1 convencida de que as mulheres devem lutar juntas para ganhar mais espa\u00e7o nas cooperativas e, assim, obter sua autonomia econ\u00f4mica, embora \u201ccada passo seja uma batalha\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuando participa, a mulher aumenta seu valor, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 medo\u201d, afirmou, ap\u00f3s recordar como se sentiu no final de 2009, quando foi receber um pr\u00eamio e todos falavam em castelhano. Ela decidiu falar em qu\u00e9chua porque \u201cassim me sentia mais segura, e todos me aplaudiram\u201d, disse, entre risos, rodeada por suas sacas de caf\u00e9, tr\u00eas de seus filhos e alguns netos.<\/p>\n<p>* Este artigo foi publicado originalmente pelo peri\u00f3dico independente TerraViva da IPS com apoio do Unifem e do Dutch MDG3 Fund.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Putina Punco, Peru, 24\/09\/2010 &ndash; \u00c9 s\u00e1bado e as mulheres chegam apressadas, com sacas nas costas, ao centro de armazenamento de caf\u00e9s especiais deste munic\u00edpio do sudeste do Peru. V\u00eam sozinhas ou acompanhadas de maridos e filhos e todas encontram no gr\u00e3o algo mais al\u00e9m da sobreviv\u00eancia. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/09\/america-latina\/um-cafe-que-produz-sonhos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":141,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[24],"class_list":["post-7184","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7184","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/141"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7184"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7184\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}