{"id":7190,"date":"2010-09-24T18:03:47","date_gmt":"2010-09-24T18:03:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7190"},"modified":"2010-09-24T18:03:47","modified_gmt":"2010-09-24T18:03:47","slug":"trabalhadoras-que-quebram-seus-proprios-tetos-de-vidro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/09\/america-latina\/trabalhadoras-que-quebram-seus-proprios-tetos-de-vidro\/","title":{"rendered":"Trabalhadoras que quebram seus pr\u00f3prios tetos de vidro"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 24\/09\/2010 &ndash; \u201cN\u00e3o temos teto para nossos sonhos, queremos transformar as mulheres jovens, dizer a elas que existe uma forma de serem felizes\u201d, afirma a bordadeira brasileira Elza Santiago. Ela define sua miss\u00e3o como \u201cmesclar feminismo com trabalho\u201d. <!--more--> Elza, de 49 anos, e Marinalva Alves, de 44, vivem no Morro da Coroa, uma favela de um escarpado morro do Rio de Janeiro, no Brasil.<\/p>\n<p>Para elas, negras e pobres, \u00e9 ainda mais escarpado, porque no Brasil o preconceito racial vive, \u201cembora finjam n\u00e3o existir\u201d, disse Elza ao TerraViva, em sua oficina na favela.<\/p>\n<p>Elza \u00e9 vi\u00fava com dois filhos, e Marinalva, solteira, tem dois. Ambas sobreviviam de pequenos trabalhos de costura. \u201cTrabalh\u00e1vamos de dia para comer \u00e0 noite\u201d, contam. Muitas vezes subiam o morro a p\u00e9 at\u00e9 suas casas, porque ou pagavam a passagem do \u00f4nibus ou compravam arroz.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, a prefeitura do Rio criou um grupo de direitos humanos no Morro da Coroa. A maioria das mulheres tinha mais de 40 anos, nada de estudos nem qualifica\u00e7\u00e3o profissional, e recebiam ajuda mensal inferior a US$ 50.<\/p>\n<p>\u201cQuem d\u00e1 trabalho a uma mulher negra, sem profiss\u00e3o e com mais de 40 anos?\u201d, pergunta Elza. \u201cPor isso dizemos: vamos unir esfor\u00e7os para nos manter\u201d.<\/p>\n<p>Essa foi a origem da cooperativa Bordadeiras da Coroa. A mudan\u00e7a definitiva chegou em 2006, quando foram selecionadas por concurso pelo n\u00e3o governamental Fundo Social Elas, que promove a autonomia feminina, sob a premissa de que investir nelas \u201c\u00e9 o caminho mais r\u00e1pido para o desenvolvimento do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>O Fundo Elas financiou o equivalente a US$ 2,5 mil para compra de m\u00e1quinas de costura e mat\u00e9ria-prima, e as bordadeiras foram capacitadas em direitos humanos, comunica\u00e7\u00e3o, administra\u00e7\u00e3o, mercado e elabora\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os.<\/p>\n<p>Foi uma mudan\u00e7a \u201cradical\u201d. A marca \u201cpegou\u201d e suas cria\u00e7\u00f5es inclusive desfilaram no Fashion Rio, a semana internacional de moda do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Acess\u00f3rios, camisetas, mantas, toalhas e colchas&#8230; A demanda n\u00e3o para de crescer. A renda mensal de cada uma passou de US$ 50 para US$ 700, em m\u00e9dia. A empresa funciona dentro das normas legais e tem acesso a cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Oito bordadeiras integram a cooperativa, mas seu impacto \u00e9 multiplicador, pois empregam e formam outras, e est\u00e3o ativas em uma rede nacional que defende os direitos da popula\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o Elas financia 180 grupos em todo o territ\u00f3rio brasileiro, apoiando de forma direta cerca de 25 mil mulheres e meninas, e indiretamente mais de cem mil pessoas.<\/p>\n<p>Agora \u201cningu\u00e9m passa a perna na gente\u201d, diz Elza. N\u00e3o queremos \u201cser milion\u00e1rias, mas viver com dignidade. O dinheiro acaba\u201d, acrescenta Marinalva. \u201cO mais importante \u00e9 mudar a realidade como mulher\u201d.<\/p>\n<p>Mais de 60% das trabalhadoras de pa\u00edses em desenvolvimento se movimentam na economia informal urbana: sem sal\u00e1rio m\u00ednimo, hor\u00e1rio de trabalho nem prote\u00e7\u00e3o social, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT).<\/p>\n<p>S\u00e3o centenas de milh\u00f5es de mulheres que buscam com unhas e dentes seu sustento e de suas fam\u00edlias. Neste contexto adverso, frequentemente fazem o caminho ao caminharem.<\/p>\n<p> Aprender a negociar, inclusive sob a mesa<\/p>\n<p>O sal\u00e1rio depende de muitas vari\u00e1veis, e uma delas \u00e9 o poder de negocia\u00e7\u00e3o. Quem limpa, cozinha e cuida dos filhos e idosos tem em suas m\u00e3os parte desse poder. A chave do funcionamento familiar.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos, a organiza\u00e7\u00e3o A Coletiva de Mulheres da Ra\u00e7a Centro Legal ensina as trabalhadoras dom\u00e9sticas, a maioria sem documentos legais, a lutar por melhores sal\u00e1rios diante dos patr\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o as mulheres que determinam quanto ganham\u201d, explica ao TerraViva a coordenadora da Coletiva de Mulheres, Guillermina Castellanos. Aprendem t\u00e9cnicas de negocia\u00e7\u00e3o, sobre condi\u00e7\u00f5es de trabalho dignas e seguras, e formas para exigi-las e promov\u00ea-las.<\/p>\n<p>O programa tem uma bolsa de trabalho para atrair empregadores dispostos a acertar as condi\u00e7\u00f5es com a trabalhadora.<\/p>\n<p>\u201cComo cuido de seus filhos, meus dois empregadores podem trabalhar em tempo integral, mas tenho que lutar para conseguir alimento para minha fam\u00edlia e pagar o aluguel a cada m\u00eas\u201d, diz Reina Flamenco, integrante da Coletiva.<\/p>\n<p>\u201cPor\u00e9m, fora da organiza\u00e7\u00e3o, muitas s\u00e3o exploradas\u201d, alerta Guillermina.<\/p>\n<p>De acordo com a Coletiva, dois ter\u00e7os das empregadas dom\u00e9sticas da Calif\u00f3rnia recebem magros sal\u00e1rios ou est\u00e3o abaixo da linha de pobreza.<\/p>\n<p>Nem a Calif\u00f3rnia nem o resto do pa\u00eds t\u00eam prote\u00e7\u00e3o legal para cerca de 2,5 milh\u00f5es de trabalhadoras dom\u00e9sticas, quase todas imigrantes.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o Estado de Nova York. No dia 31 de agosto, o governador David Paterson promulgou uma lei que garante sal\u00e1rio m\u00ednimo, pagamento de hora extra, descanso semanal, f\u00e9rias e dias livres por doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 o resultado de uma luta de muitos anos das organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadoras, que teve de superar resist\u00eancias no processo legislativo.<\/p>\n<p>Quem trabalha no servi\u00e7o dom\u00e9stico se exp\u00f5e a maus-tratos e condi\u00e7\u00f5es de trabalho inseguras.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o mulheres com filhos, m\u00e3es solteiras&#8230; Muitas devem cuidar de seus maridos e filhos. Devem ter cuidado para n\u00e3o engravidar e, pior ainda, muitas sofrem abusos verbais e sexuais\u201d, disse Guillermina.<\/p>\n<p>\u00c9 que \u201cfazemos de tudo para comer\u201d, ressalta Guillermina, que foi empregada dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Esses abusos poder\u00e3o ser proibidos em todo o mundo se a OIT aprovar, em 2011, um conv\u00eanio internacional sobre trabalho dom\u00e9stico estabelecendo um contexto espec\u00edfico de garantias equipar\u00e1veis \u00e0s que protegem outros setores trabalhistas.<\/p>\n<p> \u201cE se eu pudesse mudar suas vidas?\u201d<\/p>\n<p>A cambojana Chen Reaksmey deseja ser um modelo para suas iguais. Com 15 anos, mudou-se para Phnom Penh, a capital, em busca de independ\u00eancia econ\u00f4mica e de meios para ajudar sua fam\u00edlia, que ficou na prov\u00edncia.<\/p>\n<p>O que encontrou foi um sal\u00e3o de karaok\u00ea, do perigoso neg\u00f3cio do entretenimento que costuma incluir servi\u00e7os sexuais neste pa\u00eds do sudeste asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Aos 22 anos j\u00e1 fumava metanfetamina, uma droga sint\u00e9tica muito viciante, que permitia que aguentasse os rigores noturnos. \u201cUma amiga me disse: pegue um pouco e poder\u00e1 trabalhar a noite toda. Me dava energia e me ajudava a esquecer\u201d, recorda.<\/p>\n<p>A vida come\u00e7ou a mudar quando conheceu a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Korsang, que trabalha pela redu\u00e7\u00e3o dos riscos das drogas e na preven\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da defici\u00eancia imunol\u00f3gica humana (HIV), causador da aids.<\/p>\n<p>Na medida em que diminu\u00eda seu consumo, Chen come\u00e7ou a atuar como educadora volunt\u00e1ria, e chegou a ser excelente onde fracassavam os homens, no di\u00e1logo com as mulheres viciadas.<\/p>\n<p>\u201cNo come\u00e7o me parecia uma loucura que n\u00e3o valia a pena\u201d, disse Chen ao TerraViva. \u201cMas, vendo essas mulheres, pensei: \u2018E seu eu pudesse mudar suas vidas?\u2019\u201d<\/p>\n<p>Entretanto, somente h\u00e1 tr\u00eas anos conseguiu mudar a sua, quando deixou por completo a metanfetamina ap\u00f3s engravidar do segundo filho.<\/p>\n<p>Pelo caminho, Chen conseguiu novo emprego e meio de vida. Com 31 anos, dirige o programa de mulheres da Korsang, que ela mesma iniciou em 2008 e que \u00e9 o \u00fanico dirigido \u00e0 popula\u00e7\u00e3o feminina em um pa\u00eds com pouqu\u00edssimas op\u00e7\u00f5es de tratamento e reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Olhando para tr\u00e1s, Chen conquistou um emprego decente e motivador e uma forma de ajudar as demais, tirando li\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. \u201cEu fumava e trabalhava de noite, como elas. Agora tenho uma fam\u00edlia e um trabalho bom. Quero elevar minha autoestima, ser um modelo para elas\u201d, disse. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 24\/09\/2010 &ndash; \u201cN\u00e3o temos teto para nossos sonhos, queremos transformar as mulheres jovens, dizer a elas que existe uma forma de serem felizes\u201d, afirma a bordadeira brasileira Elza Santiago. 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