{"id":7192,"date":"2010-09-24T18:05:39","date_gmt":"2010-09-24T18:05:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7192"},"modified":"2010-09-24T18:05:39","modified_gmt":"2010-09-24T18:05:39","slug":"meninas-maes-a-esquecida-violencia-infantil-do-mexico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/09\/ultimas-noticias\/meninas-maes-a-esquecida-violencia-infantil-do-mexico\/","title":{"rendered":"Meninas-m\u00e3es: a esquecida viol\u00eancia infantil do M\u00e9xico"},"content":{"rendered":"<p>Cidade do M\u00e9xico, M\u00e9xico, 24\/09\/2010 &ndash; Amalia \u00e9 uma menina ind\u00edgena maia de uma comunidade rural do sul de Quintana Roo, no Caribe mexicano. Tem 11 anos e em agosto se transformou na m\u00e3e mais jovem do pa\u00eds, ao dar \u00e0 luz uma menina de 51 cent\u00edmetros e pouco menos de tr\u00eas quilos. <!--more--> Amalia foi violada, supostamente por seu padrasto, quando tinha dez anos, e n\u00e3o teve a op\u00e7\u00e3o de interromper a gravidez, pois quando seu caso ficou conhecido j\u00e1 havia passado o prazo legal para abortar.<\/p>\n<p>Assim, ficaram evidentes as falhas do Estado para atender a viol\u00eancia contra as meninas, fen\u00f4meno soterrado pelas outras muitas viol\u00eancias nas quais o M\u00e9xico est\u00e1 preso, como os assassinatos do narcotr\u00e1fico e as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos atribu\u00eddas \u00e0 for\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Amalia \u201csofre o ac\u00famulo de exclus\u00f5es sociais: \u00e9 mulher, menina, ind\u00edgena e pobre\u201d, disse ao TerraViva Juan Mart\u00edn P\u00e9rez, diretor-executivo da Rede pelos Direitos da Inf\u00e2ncia no M\u00e9xico, organiza\u00e7\u00e3o que re\u00fane mais de 50 associa\u00e7\u00f5es pr\u00f3-inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u201cForam necess\u00e1rios mais de 20 anos para que eu reconhecesse o que aconteceu. \u00c9 algo que nunca se perdoa, aprende-se a viver com isso e pronto\u201d, disse ao TerraViva uma mulher da Cidade do M\u00e9xico, de 35 anos, que foi abusada sexualmente por seu tio quando tinha a idade que Amalia tem agora.<\/p>\n<p>Nesse pa\u00eds de 108 milh\u00f5es de habitantes vivem 18,4 milh\u00f5es de homens e 17,9 milh\u00f5es de mulheres menores de 18 anos. O tratamento violento \u00e0 inf\u00e2ncia encontra-se presente em um a cada tr\u00eas lares, embora em todo o pa\u00eds existam institui\u00e7\u00f5es encarregadas de seu bem-estar.<\/p>\n<p>O dado foi corroborado por um estudo do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef): o M\u00e9xico \u00e9 o segundo pa\u00eds com maior ocorr\u00eancia de maus-tratos de crian\u00e7as, atr\u00e1s apenas de Portugal, entre 27 pa\u00edses da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico. A mortalidade deste fen\u00f4meno \u00e9 de 30 mortes para cada milh\u00e3o de menores.<\/p>\n<p>\u201cGrande parte desta viol\u00eancia (&#8230;) f\u00edsica, sexual, psicol\u00f3gica, (de) discrimina\u00e7\u00e3o e abandono, permanece oculta e, em ocasi\u00f5es, \u00e9 aprovada socialmente\u201d, diz o Unicef.<\/p>\n<p>E se este crime \u00e9 pouco registrado, menor \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o sobre as diferen\u00e7as de maus-tratos por quest\u00e3o de g\u00eanero. \u201cH\u00e1 uma invisibilidade estat\u00edstica que impede dimensionar o problema\u201d, disse Juan.<\/p>\n<p>Alguns estudos recentes apresentam dados isolados de um quebra-cabe\u00e7a inconcluso. A \u00faltima Pesquisa Nacional de Sa\u00fade e Nutri\u00e7\u00e3o fala em seis gravidezes para cada mil meninas de 12 a 15 anos, e 101 para cada mil adolescentes de 16 a 17 anos.<\/p>\n<p>Em Quintana Roo, o secret\u00e1rio estadual de Sa\u00fade, Juan Carlos Azueta, reconheceu que, em 2009, houve 5.500 registros de adolescentes gr\u00e1vidas e 16% foram produto de viola\u00e7\u00f5es, uma porcentagem que parece responder ao padr\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>\u201cQuero minha filha, mas nunca soube trat\u00e1-la, me desespera e sou injusta com ela, muitas vezes\u201d, admitiu ao TerraViva Gloria, m\u00e3e de tr\u00eas meninas, a mais velha fruto de uma viola\u00e7\u00e3o que sofreu aos 15 anos, cometida por um homem casado.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 algo nela que me recorda como nasceu, e ningu\u00e9m me ensinou a ser m\u00e3e ou a lidar com isto dentro de mim\u201d, disse esta m\u00e3e maltratada de Atizap\u00e1n, na periferia metropolitana.<\/p>\n<p>O sistema de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental \u201cA Inf\u00e2ncia Conta\u201d, de 2009, dedicado \u00e0s meninas, afirma que \u201cgrupos espec\u00edficos de mulheres s\u00e3o marginalizados do sistema educacional\u201d, como as adolescentes que s\u00e3o m\u00e3es, as meninas e adolescentes com alguma incapacidade e as ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>De acordo com o Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Geografia, 180.500 m\u00e3es adolescentes entre 12 e 18 anos n\u00e3o conclu\u00edram a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. As meninas t\u00eam maiores porcentagens de presen\u00e7a escolar a partir dos cinco anos de idade, mas esta diminui depois dos 16, em parte devido \u00e0 gravidez precoce.<\/p>\n<p>\u201cAos 15 anos, fugi de casa com o pai dos meus filhos, mas foi pior para mim\u201d, contou ao TerraViva Citatli, hoje com 45 anos e av\u00f3, em um bairro popular do leste metropolitano. Aos 17 j\u00e1 tinha dois filhos \u201ce o mais novo nasceu prematuro por causa de um soco\u201d, lamentou. \u201cSempre vivi na viol\u00eancia. Da minha m\u00e3e, dos meus irm\u00e3os, do meu primeiro marido, agora dos meus filhos\u201d, acrescentou. A \u00fanica esperan\u00e7a \u00e9 que \u201cmeus cinco netos n\u00e3o sejam iguais\u201d, disse.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, os atos violentos contra meninas, adolescentes e mulheres se baseiam em uma constru\u00e7\u00e3o social que sup\u00f5e que os homens s\u00e3o superiores, afirmaram as fontes ouvidas pelo TerraViva.<\/p>\n<p>\u201cTemos avan\u00e7os restritos, uma lei federal (contra a viol\u00eancia de g\u00eanero) e leis em todos os Estados, mas n\u00e3o vemos mudan\u00e7as fundamentais, prevalece uma cultura na qual o masculino est\u00e1 acima do feminino\u201d, afirmou Axela Romero, diretora de Sa\u00fade Integrada para a Mulher.<\/p>\n<p>Giovanni, uma menina de nove anos que vive no violento bairro de Penitenciaria, na capital, sabe disso. Tem nome de homem porque sua m\u00e3e, quando estava para dar \u00e0 luz, perdeu o primog\u00eanito por causa de \u201cum susto\u201d, quando o pai se meteu em uma briga. E ela herdou o nome escolhido para o filho perdido. \u201cOdeio a viol\u00eancia e tamb\u00e9m que os homens bebam\u201d, disse a garota ao TerraViva.<\/p>\n<p>Os feminic\u00eddios puseram nas primeiras p\u00e1ginas dos jornais mundiais a fronteiri\u00e7a Ciudad Juarez, onde mais de 800 mulheres foram torturadas e assassinadas nos \u00faltimos 16 anos, segundo dados oficiais incompletos. Enquanto isso, em alguns Estados, as leis punem mais duramente a mulher que aborta do que quem a violou.<\/p>\n<p>De acordo com pesquisas oficiais, mais de 60% dos adolescentes homens pensam que \u00e9 responsabilidade da mulher cuidar para n\u00e3o engravidar, e ao menos um quinto dos estudantes presenciaram em suas escolas, ou em outro lugar, um menino, ou mais, molestando uma menina, tocando-a sem consentimento.<\/p>\n<p>Mas essa, como outras agress\u00f5es, fica no esquecimento. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidade do M\u00e9xico, M\u00e9xico, 24\/09\/2010 &ndash; Amalia \u00e9 uma menina ind\u00edgena maia de uma comunidade rural do sul de Quintana Roo, no Caribe mexicano. Tem 11 anos e em agosto se transformou na m\u00e3e mais jovem do pa\u00eds, ao dar \u00e0 luz uma menina de 51 cent\u00edmetros e pouco menos de tr\u00eas quilos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/09\/ultimas-noticias\/meninas-maes-a-esquecida-violencia-infantil-do-mexico\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[14,24],"class_list":["post-7192","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-america-do-norte","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/51"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7192"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7192\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}