{"id":7199,"date":"2010-09-27T18:25:14","date_gmt":"2010-09-27T18:25:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7199"},"modified":"2010-09-27T18:25:14","modified_gmt":"2010-09-27T18:25:14","slug":"o-imprevisivel-preco-do-pao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/09\/direitos-humanos\/o-imprevisivel-preco-do-pao\/","title":{"rendered":"O imprevis\u00edvel pre\u00e7o do p\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>27 de setembro, 27\/09\/2010 &ndash; Dois anos depois da carestia de 2007-2008, os pre\u00e7os internacionais dos alimentos voltam a subir. Com uma colheita escassa na Europa oriental, o trigo disparou mais de 50% no rec\u00e9m-terminado ver\u00e3o boreal. \u00c9 uma lembran\u00e7a de que os mercados de alimentos continuam inst\u00e1veis e sujeitos a uma variedade de fatores, como as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, as decis\u00f5es sobre reservas alimentares, exporta\u00e7\u00f5es de governos ou empresas, flutua\u00e7\u00f5es dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo (que determinam quantos cultivos se usa como combust\u00edvel) e a especula\u00e7\u00e3o financeira. <!--more--> Os dist\u00farbios por escassez de alimentos, que em 2008 causaram v\u00e1rias mortes em pa\u00edses em desenvolvimento, agora parecem ressurgir. Treze pessoas foram assassinadas, no come\u00e7o deste m\u00eas, em Mo\u00e7ambique, em protestos contra o aumento no pre\u00e7o do p\u00e3o. Cabe perguntar se hoje o mundo est\u00e1 melhor preparado para enfrentar outra alta dos alimentos e impedir seus impactos na popula\u00e7\u00e3o pobre.<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 sim e n\u00e3o, diz uma avalia\u00e7\u00e3o do Oakland Institute e da UK Hunger Alliance sobre as rea\u00e7\u00f5es \u00e0 crise de 2007-2008. Aprendemos muito com o que aconteceu h\u00e1 tr\u00eas anos. Na identifica\u00e7\u00e3o dos fatores que influem nos mercados mundiais de alimentos, agora admite-se que a volatilidade chegou para ficar. Tamb\u00e9m sabemos muito sobre a efetividade das diferentes respostas.<\/p>\n<p>As pesquisas mostram que a crise alimentar mundial de 2008 foi menos \u201cmundial\u201d do que se acreditava. V\u00e1rios pa\u00edses conseguiram impedir que a infla\u00e7\u00e3o contagiasse seus mercados internos. Por exemplo, o pre\u00e7o do arroz, na realidade, baixou na Indon\u00e9sia em 2008, enquanto subia em pa\u00edses vizinhos. As interven\u00e7\u00f5es para impedir este cont\u00e1gio inclu\u00edram pol\u00edticas para facilitar o com\u00e9rcio e restri\u00e7\u00f5es ou regula\u00e7\u00f5es comerciais: proibi\u00e7\u00e3o de exporta\u00e7\u00f5es, uso de reservas p\u00fablicas, controle de pre\u00e7os e medidas contra a especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com \u00eaxito d\u00edspar, v\u00e1rios governos tentaram proteger seus setores pobres com redes de seguran\u00e7a social. Brasil, Bangladesh, \u00cdndia ou Indon\u00e9sia conseguiram sinergias entre a prote\u00e7\u00e3o dos setores pobres e o apoio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o local de alimentos, geralmente vinculada ao manejo de reservas p\u00fablicas. As transfer\u00eancias diretas de ajuda monet\u00e1ria, consideradas uma alternativa efetiva \u00e0 ajuda alimentar importada, s\u00e3o usadas cada vez mais.<\/p>\n<p>Entretanto, os elevados pre\u00e7os dos alimentos debilitaram a capacidade de compra dessas transfer\u00eancias e, em definitivo, sua efetividade. Da\u00ed que alguns programas nacionais n\u00e3o puderam ser adaptados \u00e0 carestia, que causou uma dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o do poder aquisitivo dos benefici\u00e1rios. Este foi o caso da rede de seguran\u00e7a social da Eti\u00f3pia, a maior da \u00c1frica, onde o valor das transfer\u00eancias em dinheiro aumentou apenas 33%, longe de acompanhar a alta de 300% no pre\u00e7o da cesta b\u00e1sica de alimentos. Por esta defasagem, foi necess\u00e1ria uma enorme opera\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria paralela.<\/p>\n<p>Em geral, n\u00e3o foi poss\u00edvel evitar o dr\u00e1stico aumento da desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, que afetava 850 milh\u00f5es de pessoas em 2007, e um bilh\u00e3o em 2008. Este \u00e9 um s\u00e9rio atraso no primeiro dos Objetivos de Desenvolvimento do Mil\u00eanio, de reduzir pela metade a propor\u00e7\u00e3o de pessoas que sofrem fome, com rela\u00e7\u00e3o aos \u00edndices de 1990, e at\u00e9 2015.<\/p>\n<p>Por acaso, o mundo est\u00e1 melhor preparado? N\u00e3o, pois os governantes mundiais ainda promovem o livre com\u00e9rcio, como declararam na \u00faltima reuni\u00e3o do Grupo dos 20 pa\u00edses ricos e emergentes, no Canad\u00e1. N\u00e3o, porque muitos governos e institui\u00e7\u00f5es centraram seus esfor\u00e7os em uma resposta de curto prazo, ignorando que o problema n\u00e3o era de fornecimento, mas de acesso (2008 foi um ano recorde em produ\u00e7\u00e3o mundial de alimentos) e que s\u00e3o necess\u00e1rias solu\u00e7\u00f5es duradouras para as causas estruturais.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u2013 por \u00faltimo \u2013 pois os enormes investimentos estrangeiros em terras dos pa\u00edses mais pobres agravam a principal causa da fome e da pobreza: desigual acesso aos recursos naturais que prevalece no mundo. No final, mais al\u00e9m de o pre\u00e7o do p\u00e3o ser acess\u00edvel, a justi\u00e7a e a equidade s\u00e3o as verdadeiras demandas dos que protagonizam dist\u00farbios por comida.<\/p>\n<p>* Frederic Mousseau \u00e9 especialista em seguran\u00e7a alimentar do Oakland Institute. Trabalhou quase 20 anos para ag\u00eancias humanit\u00e1rias internacionais como Action Against Hunger, M\u00e9dicos Sem Fronteiras e Oxfam Internacional. Direitos exclusivos IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>27 de setembro, 27\/09\/2010 &ndash; Dois anos depois da carestia de 2007-2008, os pre\u00e7os internacionais dos alimentos voltam a subir. 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