{"id":7224,"date":"2010-10-04T19:22:52","date_gmt":"2010-10-04T19:22:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7224"},"modified":"2010-10-04T19:22:52","modified_gmt":"2010-10-04T19:22:52","slug":"a-outra-contaminacao-da-selva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/10\/america-latina\/a-outra-contaminacao-da-selva\/","title":{"rendered":"A outra contamina\u00e7\u00e3o da selva"},"content":{"rendered":"<p>Puno, Peru, 04\/10\/2010 &ndash; No sudeste do Peru h\u00e1 uma mensagem que circula como um g\u00e1s t\u00f3xico para alguns, para outros como um ant\u00eddoto: \u201cCom o projeto hidroenerg\u00e9tico Inambari, acabar\u00e1 a minera\u00e7\u00e3o ilegal e o cultivo de coca, haver\u00e1 desenvolvimento e trabalho\u201d. O cen\u00e1rio est\u00e1 polarizado e seus protagonistas, os moradores do Departamento de Puno, preparam uma marcha contra a represa que ter\u00e1 investimento brasileiro. \u201cEles dizem mentiras. N\u00e3o queremos perder nossa floresta\u201d, afirmou Olga Cutipa, presidente da Frente de Organiza\u00e7\u00f5es do Rio Inambari. <!--more--> Como um amplo setor de moradores da prov\u00edncia de Carabaya, em Puno, Olga rejeita o projeto, que inclui uma represa de 37.800 hectares, segundo uma primeira vers\u00e3o do estudo de viabilidade da obra. O investimento \u00e9 de US$ 5 bilh\u00f5es, com capacidade instalada de 2.200 megawatts. Uma parte da selva peruana, que tamb\u00e9m inclui os departamentos de Cusco e Madre de Dios, pode ficar sob as \u00e1guas com esta represa, que seria uma das maiores do Peru e da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Olga confirmou \u00e0 IPS que, no dia 10 de outubro, cerca de duas mil pessoas ir\u00e3o at\u00e9 Juliaca, capital da prov\u00edncia de San Rom\u00e1n, tamb\u00e9m em Puno, para uma marcha at\u00e9 Lima. A chegada est\u00e1 prevista para dois dias mais tarde. \u201cO Rio Inambari \u00e9 nosso banco, dali tiramos o ouro para criar nossos filhos. Por que partir\u00edamos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Cerca de 70 povoados poder\u00e3o ser reassentados por causa da represa, segundo uma pesquisa da engenheira Rosario Linares, do grupo Sociedade Civil pela Constru\u00e7\u00e3o da Estrada Transoce\u00e2nica de Puno. A empresa Gera\u00e7\u00e3o El\u00e9trica Amazonas Sul (Egasur), da capital brasileiro, disse \u00e0 IPS que o n\u00famero \u00e9 menor, mas n\u00e3o deu detalhes. A represa \u00e9 uma das cinco projetadas em um acordo assinado, em junho, pelos governos de Brasil e Peru para gerar seis mil megawatts.<\/p>\n<p>A companhia se prepara para recensear a popula\u00e7\u00e3o que seria deslocada, enquanto pede a Lima amplia\u00e7\u00e3o do prazo de sua concess\u00e3o at\u00e9 junho de 2011 e doa material escolar e uniforme para as crian\u00e7as da regi\u00e3o. A Egasur prop\u00f5e dez \u00e1reas de assentamento, mas os moradores temem que suas novas casas n\u00e3o sejam constru\u00eddas perto da estrada Interoce\u00e2nica pela qual lutaram por v\u00e1rios anos. A empresa garantiu que ter\u00e3o esse acesso e que ser\u00e1 garantido o abastecimento de servi\u00e7os b\u00e1sicos, mas n\u00e3o forneceu \u00e0 IPS o plano detalhado a respeito.<\/p>\n<p>A incerteza circula pelas ch\u00e1caras, pelo rio e pelas florestas, como as mensagens contra e a favor do projeto. \u201cQueria aumentar dois hectares de cacau, mas dizem que o presidente Alan Garc\u00eda j\u00e1 assinou com o Brasil e que estamos perdidos. O que fa\u00e7o? Planto, ou n\u00e3o?\u201d, perguntou \u00e0 IPS Sebasti\u00e1n Chu, de 59 anos, agricultor de Puerto Manoa, um dos primeiros povoados de Puno que seria reassentado. Sebasti\u00e1n planta meio hectare de coca como \u201ccaixa pequena\u201d para colher outros produtos, afirmou.<\/p>\n<p>Por dez quilos de coca, os produtores recebem US$ 43, em m\u00e9dia, enquanto por um quilo de cacau ganham menos de US$ 2. \u201cReconhecemos que antes vinham pessoas estranhas comprar, mas depois das erradica\u00e7\u00f5es (feitas pelo governo em 2004 e 2005) diminuiu bastante a coca\u201d, assegurou o agricultor. A Egasur tem sua pr\u00f3pria teoria. \u201cO problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a regi\u00e3o da represa, mas toda a bacia do Inambari. \u00c9 a crescente press\u00e3o migrat\u00f3ria e a presen\u00e7a de atividades ilegais: minera\u00e7\u00e3o em escala industrial e macera\u00e7\u00e3o de coca\u201d, assegurou por e-mail a empresa. Algumas autoridades apoiam esta vers\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao percorrer o lugar da futura represa atrav\u00e9s da estrada Interoce\u00e2nica, \u00e9 poss\u00edvel ver, em alguns trechos do Rio, a explora\u00e7\u00e3o de ouro desde sua forma mais artesanal at\u00e9 com uso de m\u00e1quinas pesadas, com ocorre em San Lorenzo, em Cusco. Por\u00e9m, o que domina a paisagem s\u00e3o as florestas prim\u00e1rias, n\u00e3o as planta\u00e7\u00f5es de coca, ao contr\u00e1rio da prov\u00edncia vizinha de Sandia, tamb\u00e9m em Puno.<\/p>\n<p>Em Sandia, onde n\u00e3o h\u00e1 liga\u00e7\u00e3o direta com a \u00e1rea do projeto e para chegar l\u00e1 deve-se vir de Juliaca, h\u00e1 quem seque a coca em plena estrada. Os cultivos tamb\u00e9m est\u00e3o perto das pra\u00e7as, como em Masiapo, capital do distrito do Alto Inambari. Na capital de mesmo nome, surpreendem os hot\u00e9is e casas de cinco andares. Policiais confirmaram \u00e0 IPS a exist\u00eancia do narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Do outro lado, em Carabaya, o medo \u00e9 maior porque a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem t\u00edtulo de propriedade de suas terras. \u201cV\u00e3o nos pagar? Reconhecer\u00e3o nossos s\u00edtios?\u201d, perguntou Evelyn Medina, de Loromayo, povoado que se encontra em disputa entre dois distritos da prov\u00edncia Carabaya, San Gab\u00e1n e Ayapata, e, por sua vez, reclamado por outra regi\u00e3o vizinha: Madre de Dios. Os conflitos lim\u00edtrofes se misturam.<\/p>\n<p>A falta de eletricidade e esgoto \u00e9 parte das car\u00eancias. E por isso alguns jovens veem na represa uma chance de ganhar dinheiro no curto prazo. Carlos Lima, de 22 anos, constroi em Loromayo uma pousada para aproveitar os quatro anos que duraria a constru\u00e7\u00e3o. \u201cIsto \u00e9 passageiro, n\u00e3o quero ficar, quero viver na cidade\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Para o diretor do Centro para a Sustentabilidade Ambiental da Universidade Cayetano Heredia, Ernesto R\u00e1ez, o reassentamento s\u00f3 mudar\u00e1 os problemas sociais para outros \u201cdez focos de contamina\u00e7\u00e3o\u201d. Essa \u201cn\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o e por isso perguntamos a quem beneficia o projeto?\u201d, acrescentou. Os custos ambientais s\u00e3o altos: n\u00e3o somente seria alterado o curso do Inambari como o ecossistema que o cerca. A central incluiria parte da \u00e1rea de amortiza\u00e7\u00e3o do Parque Nacional Bahuaja Sonene.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es ambientalistas garantem que a obra beneficiar\u00e1 fundamentalmente o Brasil, porque o Peru ter\u00e1 de entregar uma quantia fixa de energia a este pa\u00eds, por 30 anos, sem aumentar sua participa\u00e7\u00e3o, mesmo se o consumo interno assim exigir. A Egasur garante que respeitar\u00e1 os padr\u00f5es nacionais e internacionais para o reassentamento.<\/p>\n<p>O diretor de Apoio e Prote\u00e7\u00e3o a Deslocados do Minist\u00e9rio da Mulher e do Desenvolvimento Social, Elmer Galv\u00e1n, disse \u00e0 IPS que a empresa deve elaborar um plano de reassentamento, consultando a popula\u00e7\u00e3o, e estabelecer indeniza\u00e7\u00f5es. \u201cAl\u00e9m disso, deve oferecer op\u00e7\u00f5es melhores \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o atual, e isso n\u00e3o \u00e9 um favor, e sim uma obriga\u00e7\u00e3o\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>A lei peruana n\u00e3o exige, para ampliar a concess\u00e3o, que os moradores sejam consultados. S\u00f3 para dar autoriza\u00e7\u00e3o definitiva s\u00e3o exigidos paineis participativos como parte do Estudo de Impacto Ambiental. A firma avan\u00e7ou nesse processo, mas com pouco \u00eaxito. No Brasil h\u00e1 mais exig\u00eancias para reduzir os impactos ambientais e sociais, inclusive os projetos podem ser paralisados. Os movimentos sociais tamb\u00e9m t\u00eam mais espa\u00e7o para pressionar. A cerca parece mais baixa no Peru. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Puno, Peru, 04\/10\/2010 &ndash; No sudeste do Peru h\u00e1 uma mensagem que circula como um g\u00e1s t\u00f3xico para alguns, para outros como um ant\u00eddoto: \u201cCom o projeto hidroenerg\u00e9tico Inambari, acabar\u00e1 a minera\u00e7\u00e3o ilegal e o cultivo de coca, haver\u00e1 desenvolvimento e trabalho\u201d. O cen\u00e1rio est\u00e1 polarizado e seus protagonistas, os moradores do Departamento de Puno, preparam uma marcha contra a represa que ter\u00e1 investimento brasileiro. \u201cEles dizem mentiras. 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