{"id":7255,"date":"2010-10-13T18:57:20","date_gmt":"2010-10-13T18:57:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7255"},"modified":"2010-10-13T18:57:20","modified_gmt":"2010-10-13T18:57:20","slug":"ambientalismo-mostra-fragilidade-eleitoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/10\/america-latina\/ambientalismo-mostra-fragilidade-eleitoral\/","title":{"rendered":"Ambientalismo mostra fragilidade eleitoral"},"content":{"rendered":"<p>Rio Branco, Acre, Brasil, 13\/10\/2010 &ndash; Sustentar nas urnas pol\u00edticas que seja priorizado o meio ambiente \u00e9 um desafio que ainda n\u00e3o tem uma resposta clara, sobretudo em \u00e1reas mais carentes de infraestrutura, como a Amaz\u00f4nia brasileira. A animadora vota\u00e7\u00e3o obtida no dia 3 deste m\u00eas por Marina Silva, do Partido Verde, pode induzir a enganos. Al\u00e9m de conseguir muitos votos baseados em quest\u00f5es religiosas por sua f\u00e9 evang\u00e9lica, Marina Silva teve resultados decepcionantes em sua terra natal e ber\u00e7o pol\u00edtico, o Acre, no extremo oeste do pa\u00eds, s\u00edmbolo do ambientalismo no Brasil. <!--more--> Em seu Estado, obteve 23,55% dos votos v\u00e1lidos, apenas superando os 19,33% que obteve em todo o pa\u00eds e muito longe dos 41,98% que recebeu no Distrito Federal. Sua vota\u00e7\u00e3o se concentrou nas grandes capitais. A candidata e ex-ministra do Meio Ambiente perdeu muitos votos, sobretudo no interior do Acre, devido aos interesses imediatos de pescadores, camponeses e comerciantes, entre outros, que se sentem contrariados por leis e iniciativas ambientais.<\/p>\n<p>\u201cAgora precisamos de sete ou oito dias de viagem\u201d rio abaixo para chegar a um lugar onde haja pesca, queixou-se Giancarlos Vieira da Silva, vice-presidente da col\u00f4nia de pescadores de Sena Madureira, no interior do Acre, fronteiri\u00e7o com Bol\u00edvia e Peru. O Rio Purus onde pescam passa pr\u00f3ximo \u00e0 cidade, mas eles precisam cruzar a Reserva Extrativista Arapixi, uma \u00e1rea de conserva\u00e7\u00e3o de 133 mil hectares dos dois lados do Rio e onde \u00e9 proibida a pesca comercial, para chegar onde h\u00e1 abund\u00e2ncia de peixes, explicou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o podem usar rede de arrasto. A tonelada e meia que antes era capturada em dois dias agora exige 12 dias, segundo Giancarlos, porque s\u00f3 \u00e9 permitido pescar com tarrafa, uma rede circular que \u00e9 lan\u00e7ada com as m\u00e3os, e outras t\u00e9cnicas menos produtivas. Assim, acrescenta o pescador, \u00e0s vezes \u00e9 preciso prolongar por dois ou tr\u00eas meses cada expedi\u00e7\u00e3o pesqueira para que seja rent\u00e1vel. A isso se soma uma proibi\u00e7\u00e3o de quatro meses, entre novembro e mar\u00e7o, quando os pescadores sobrevivem com uma renda assegurada pelo governo e capturando apenas algumas esp\u00e9cies permitidas.<\/p>\n<p>Giancarlos atribui todas essas dificuldades ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), desconhecendo que desde 2007 o Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade administra as \u00e1reas protegidas. O \u201cIbama nos castiga\u201d, resumiu este homem de 32 anos que foi \u201ccriado na pesca por minha m\u00e3e\u201d, uma vi\u00fava precoce que \u201ccontinua pescando\u201d. Certa vez, perdeu 500 quilos de pescado que foram apreendidos pelos inspetores ap\u00f3s identificarem exemplares de tamanho inferior ao permitido, mas \u201chav\u00edamos retirado suas cabe\u00e7as para reduzir a carga\u201d, explicou.<\/p>\n<p>O Ibama simboliza todo este sistema de prote\u00e7\u00e3o ambiental, inclusive para os ecologistas e \u00e9 \u201co inimigo\u201d, pois espalha unidades de conserva\u00e7\u00e3o, disse Valdir Martins, presidente da col\u00f4nia que re\u00fane 900 pescadores e seus auxiliares. \u201cN\u00e3o fomos ouvidos\u201d na cria\u00e7\u00e3o de Arapixi em 2006, mas \u201cfomos afetados\u201d, queixou-se. As reservas extrativistas s\u00e3o \u00e1reas p\u00fablicas nas quais os moradores tradicionais \u2013 cerca de 300 fam\u00edlias em Arapixi \u2013 vivem da extra\u00e7\u00e3o de produtos florestais, como a borracha e a castanha, e da pequena agricultura, conservando a floresta e sua biodiversidade.<\/p>\n<p>Trata-se de uma inova\u00e7\u00e3o que surgiu no Acre pela a\u00e7\u00e3o de Chico Mendes, l\u00edder dos seringueiros, assassinado em 1988 e companheiro de lutas de Marina Silva. Em outro munic\u00edpio acreano, Capixaba, s\u00e3o camponeses que se queixam das exig\u00eancias ambientais. Quando foi ministra, entre 2003 e 2008, Marina provocou a \u201crevolta\u201d de centenas de fam\u00edlias ao travar a produ\u00e7\u00e3o local de etanol, contou Madalena de Lima, camponesa de 50 anos, procedente do distante Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u00c9 que os 400 empregos diretos e os tr\u00eas mil indiretos gerados pelo \u00c1lcool Verde, um projeto de industrializa\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira da d\u00e9cada de 1980, representariam importante fonte de renda para quase 700 fam\u00edlias assentadas \u00e0 sua volta pela reforma agr\u00e1ria. \u201cPor isso, muitos n\u00e3o deram seu voto a ela\u201d, disse Madalena. Na realidade, foi a promotoria que retardou as opera\u00e7\u00f5es do \u00c1lcool Verde, ao exigir em 2007 um estudo de impacto ambiental da monocultura da cana-de-a\u00e7\u00facar, buscando preservar s\u00edtios arqueol\u00f3gicos amea\u00e7ados pelos canaviais. Resolvidas as obje\u00e7\u00f5es, a f\u00e1brica come\u00e7ou a produzir etanol no m\u00eas passado.<\/p>\n<p>De todo modo, a ex-ministra se manifestou a favor de restri\u00e7\u00f5es \u00e0 expans\u00e3o da cana na Amaz\u00f4nia, gerando cr\u00edticas por \u201copor-se ao progresso\u201d. Ela \u00e9 acusada tamb\u00e9m de ter se oposto \u00e0s estradas e pontes que s\u00f3 agora est\u00e3o acabando com o isolamento do Acre. O desejo de rodovias pavimentadas tem justificativa. O Acre tem um solo de origem sedimentar, sem rochas nem pedras, que torna intransit\u00e1veis suas estradas de terra durante os oito meses de chuva. Ainda s\u00e3o frequentes os relatos de camponeses que se deslocam a p\u00e9 ou sobre animais durante v\u00e1rios dias para chegar \u00e0 cidade mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Os 36 mil habitantes de Sena Madureira t\u00eam o privil\u00e9gio do asfalto nos 150 quil\u00f4metros que os separa da capital, Rio Branco, h\u00e1 12 anos. A pavimenta\u00e7\u00e3o da BR-364, que passa pela cidade, avan\u00e7a para oeste e a previs\u00e3o \u00e9 que esteja conclu\u00edda no pr\u00f3ximo ano, abrindo uma via para o Oceano Pac\u00edfico pelo norte do Peru. O Acre \u00e9 \u201cum final de linha\u201d, isto \u00e9 uma fronteira de ocupa\u00e7\u00e3o, define Missias Lopes, funcion\u00e1rio do Ibama h\u00e1 23 anos. Por isso, ainda se mant\u00e9m preservada 88% de sua \u00e1rea florestal original.<\/p>\n<p>Entretanto, est\u00e1 se convertendo em um elo de liga\u00e7\u00e3o com o Oceano, o que impulsionar\u00e1 o desenvolvimento. A BR-364 \u00e9 um vetor do desmatamento ao longo da faixa norte do Estado. Outra semelhante \u00e9 a BR-317, na parte sudeste e que tamb\u00e9m chega ao Pac\u00edfico. Para quem viaja por elas, as extensas \u00e1reas de pastagem d\u00e3o a impress\u00e3o de um Estado totalmente desmatado. O solo sedimentar agrava a eros\u00e3o e aumenta os riscos ambientais, e as queimadas (feitas para limpar a terra para a agricultura e pecu\u00e1ria) ainda continuam destruindo florestas do Acre.<\/p>\n<p>Conseguir que os camponeses olhem para al\u00e9m de seus interesses imediatos \u00e9 uma tarefa dif\u00edcil de ambientalistas e autoridades. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil convencer os pescadores de que a proibi\u00e7\u00e3o e outras restri\u00e7\u00f5es preservam o futuro da pesca. O problema \u00e9 evitar a ideia de que o ambientalismo \u00e9 um obst\u00e1culo ao desenvolvimento, que parece ter tirado votos de Marina Silva. Para evitar esse risco, Ti\u00e3o Viana, governador eleito do Acre no dia 3, prometeu \u201cindustrializar\u201d o Estado e concluir a pavimenta\u00e7\u00e3o da BR-364. Seu programa \u201cdesenvolvimentista\u201d o afasta da ex-ministra, segundo Altino Machado, jornalista local que mant\u00e9m um respeit\u00e1vel blog.<\/p>\n<p>Ti\u00e3o Viana e seu irm\u00e3o, Jorge, que governou o Estado de 1999 a 2007, fazem parte do grupo que chegou \u00e0 pol\u00edtica local com Marina Silva no Partido dos Trabalhadores, que ela deixou em 2008, renunciando tamb\u00e9m ao cargo de ministra por considerar que o governo do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva impulsionava o crescimento econ\u00f4mico em detrimento do meio ambiente. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio Branco, Acre, Brasil, 13\/10\/2010 &ndash; Sustentar nas urnas pol\u00edticas que seja priorizado o meio ambiente \u00e9 um desafio que ainda n\u00e3o tem uma resposta clara, sobretudo em \u00e1reas mais carentes de infraestrutura, como a Amaz\u00f4nia brasileira. A animadora vota\u00e7\u00e3o obtida no dia 3 deste m\u00eas por Marina Silva, do Partido Verde, pode induzir a enganos. Al\u00e9m de conseguir muitos votos baseados em quest\u00f5es religiosas por sua f\u00e9 evang\u00e9lica, Marina Silva teve resultados decepcionantes em sua terra natal e ber\u00e7o pol\u00edtico, o Acre, no extremo oeste do pa\u00eds, s\u00edmbolo do ambientalismo no Brasil. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/10\/america-latina\/ambientalismo-mostra-fragilidade-eleitoral\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,11],"tags":[],"class_list":["post-7255","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7255","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7255"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7255\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}