{"id":7256,"date":"2010-10-14T19:53:55","date_gmt":"2010-10-14T19:53:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7256"},"modified":"2010-10-14T19:53:55","modified_gmt":"2010-10-14T19:53:55","slug":"luta-contra-a-fome-precisa-de-um-estado-estrategista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/10\/america-latina\/luta-contra-a-fome-precisa-de-um-estado-estrategista\/","title":{"rendered":"Luta contra a fome precisa de um Estado estrategista"},"content":{"rendered":"<p>Santiago, Chile, 14\/10\/2010 &ndash; Que o papel do Estado \u00e9 essencial para superar a fome cr\u00f4nica da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma novidade. Mas os \u00faltimos dados latino-americanos mostram que n\u00e3o bastam mais gasto p\u00fablico e programas sociais. Cerca de 600 mil pessoas da Am\u00e9rica Latina e do Caribe deixar\u00e3o de sofrer fome este ano, em rela\u00e7\u00e3o a 2009. \u00c9 muito pouco, considerando-se que ent\u00e3o havia 53,1 milh\u00f5es de desnutridos na regi\u00e3o e ao final deste ano ser\u00e3o 52,5 milh\u00f5es. Os n\u00fameros est\u00e3o no Panorama da Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional na Am\u00e9rica Latina e no Caribe 2010, divulgado ontem pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO). <!--more--> \u201cOs pa\u00edses tentaram programas, mas, ou n\u00e3o disp\u00f5em da institucionalidade necess\u00e1ria, ou n\u00e3o contam com os recursos financeiros para torn\u00e1-los\u201d efetivos, disse o representante regional da FAO, o brasileiro Jos\u00e9 Graziano da Silva. \u201cOs pa\u00edses menos afetados foram os que tinham um sistema de prote\u00e7\u00e3o social acoplado a planos de apoio produtivo aos mais pobres\u201d, acrescentou. V\u00e1rias na\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o est\u00e3o implementando pol\u00edticas de apoio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos, de gest\u00e3o do com\u00e9rcio e dos mercados agroalimentares, e de prote\u00e7\u00e3o social e ajuda alimentar.<\/p>\n<p>Atualmente, 19 pa\u00edses contam com programas de transfer\u00eancia condicionada de renda, como os conhecidos Bolsa Fam\u00edlia, no Brasil; Oportunidades, no M\u00e9xico, e Fam\u00edlias em A\u00e7\u00e3o, na Col\u00f4mbia. Nem todos deram resultados positivos porque operavam em fase-piloto ou n\u00e3o estavam articulados com outras pol\u00edticas sociais e produtivas, explicou Jos\u00e9 Graziano. \u201cMais do que um Estado forte, \u00e9 necess\u00e1rio um Estado mais soberano\u201d, disse \u00e0 IPS a dirigente camponesa Florencia Ar\u00f3stica, da n\u00e3o governamental Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Mulheres Rurais e Ind\u00edgenas do Chile e da Coordenadoria Latino-Americana de Organiza\u00e7\u00f5es do Campo (Cloc).<\/p>\n<p>\u201cEste modelo neoliberal, industrial, n\u00e3o serviu para mitigar a fome do mundo. N\u00e3o foram adotadas pol\u00edticas para a pequena agricultura, mas programas\u201d que n\u00e3o s\u00e3o eficazes, afirmou Florencia, uma produtora de hortali\u00e7as do norte do Chile. Em setembro, a FAO informou que 98 milh\u00f5es de pessoas deixaram de passar fome desde 2009. Mas, ainda h\u00e1 925 milh\u00f5es de desnutridos no mundo. A camponesa criticou o incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o intensiva de monoculturas, a concentra\u00e7\u00e3o da terra em poucas empresas e o monop\u00f3lio das \u00e1guas.<\/p>\n<p>\u201cCom a perda de terrenos, aumentou a m\u00e3o-de-obra camponesa (que sem terra tem de buscar trabalho no mercado). H\u00e1 desemprego e m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, especialmente para as mulheres\u201d, assegurou. A Cloc, que pertence ao movimento internacional Via Camponesa, realiza seu quinto congresso em Quito, com o lema \u201cContra o capital e o imp\u00e9rio, pela terra e a soberania de nossos povos\u201d. Apesar da ex\u00edgua redu\u00e7\u00e3o da fome, trata-se de um avan\u00e7o se comparada com o per\u00edodo 2006-2009, quando, devido \u00e0 crise econ\u00f4mica mundial e \u00e0 carestia dos alimentos, seis milh\u00f5es de latino-americanos e caribenhos engrossaram as filas dos famintos, em um retrocesso regional \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de 1990.<\/p>\n<p>Embora a regi\u00e3o continue crescendo, a volatilidade dos mercados internacionais faz prever que esse crescimento diminuir\u00e1 nos pr\u00f3ximos anos, e, por fim, o emprego. \u201cA Am\u00e9rica Latina tem uma grande quantidade de pessoas flutuando em torno da linha de pobreza: se est\u00e3o empregados, est\u00e3o acima, e se um dos integrantes da fam\u00edlia perde o emprego, est\u00e3o abaixo. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o de muita instabilidade\u201d, disse Jos\u00e9 Graziano.<\/p>\n<p>Os que \u201cmelhor responderam \u00e0 crise foram os pa\u00edses que tinham, ou t\u00eam, uma institucionalidade p\u00fablica para poder atuar com pol\u00edticas de car\u00e1ter antic\u00edclicas\u201d, disse Fernando Soto, coordenador do Grupo de Pol\u00edticas do Escrit\u00f3rio Regional da FAO. S\u00e3o pa\u00edses onde o Estado tem uma importante participa\u00e7\u00e3o em \u00e1reas estrat\u00e9gicas, como incentivo integral \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos para o mercado interno, financiamento agr\u00edcola, compras p\u00fablicas, forma\u00e7\u00e3o de reservas e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, e programas de prote\u00e7\u00e3o social, entre outros.<\/p>\n<p>\u201cOs que t\u00eam mais \u00eaxito s\u00e3o os que conseguem vincular cada vez mais o crescimento econ\u00f4mico com a inclus\u00e3o social. N\u00e3o s\u00e3o duas coisas separadas\u201d, destacou Fernando. \u201cN\u00e3o podemos, por um lado, crescer e, por outro, ter programas sociais para aqueles que o crescimento n\u00e3o inclui. Isso tem um limite e se chama endividamento p\u00fablico\u201d, acrescentou. Pa\u00edses muito vulner\u00e1veis \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar, como Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicar\u00e1gua, aumentaram tanto seu endividamento p\u00fablico em 2009 que agora negociam ajustes com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e preveem redu\u00e7\u00f5es do gasto social no or\u00e7amento para 2011.<\/p>\n<p>Algumas das recomenda\u00e7\u00f5es da FAO s\u00e3o revalorizar o papel da agricultura familiar no abastecimento de alimentos e melhorar a regula\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o dos mercados de trabalho agr\u00edcola e rural, quest\u00f5es relacionadas com a pobreza no campo, diz o informe. Os investimentos em agricultura familiar s\u00e3o entre duas e quatro vezes mais efetivos para reduzir a pobreza do que qualquer outro investimento, disse \u00e0 IPS, no ano passado, o presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agr\u00edcola, Kanayo Nwanze, quando visitou experi\u00eancias de sucesso no Brasil.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u201ca agricultura familiar \u00e9 o setor onde mais cresceu a pobreza nos per\u00edodos em que esta aumentou\u201d, em rela\u00e7\u00e3o a outros habitantes do meio rural, disse \u00e0 IPS o pesquisador Alexander Schejtman, do n\u00e3o governamental Centro Latino-Americano para o Desenvolvimento Rural. Este setor, \u201cde trabalhadores por contra pr\u00f3pria dedicados \u00e0 agricultura\u201d, \u00e9 o que revela, na grande maioria dos pa\u00edses, menores baixas e maiores crescimentos da pobreza, dentro de um \u201cmundo real\u201d por si s\u00f3 mais pobre do que o urbano, concluiu o economista. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santiago, Chile, 14\/10\/2010 &ndash; Que o papel do Estado \u00e9 essencial para superar a fome cr\u00f4nica da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma novidade. Mas os \u00faltimos dados latino-americanos mostram que n\u00e3o bastam mais gasto p\u00fablico e programas sociais. Cerca de 600 mil pessoas da Am\u00e9rica Latina e do Caribe deixar\u00e3o de sofrer fome este ano, em rela\u00e7\u00e3o a 2009. \u00c9 muito pouco, considerando-se que ent\u00e3o havia 53,1 milh\u00f5es de desnutridos na regi\u00e3o e ao final deste ano ser\u00e3o 52,5 milh\u00f5es. 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