{"id":728,"date":"2005-06-24T00:00:00","date_gmt":"2005-06-24T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=728"},"modified":"2005-06-24T00:00:00","modified_gmt":"2005-06-24T00:00:00","slug":"ambiente-a-natureza-agoniza-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/06\/mundo\/ambiente-a-natureza-agoniza-em-portugal\/","title":{"rendered":"Ambiente: A natureza agoniza em Portugal"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 24\/06\/2005 &ndash; Constru&ccedil;&otilde;es ilegais sobre dunas, rios contaminados por industriais inescrupulosas, fogo colocado em florestas ancestrais e pedreiras em parques naturais s&atilde;o alguns dos crimes contra o meio ambiente cometidos em Portugal, esbo&ccedil;ando a paisagem de uma natureza ferida de morte. A legisla&ccedil;&atilde;o pune, mas abrir um processo judicial apresenta imensas dificuldades burocr&aacute;ticas, ao que se soma a car&ecirc;ncia de meios dos policiais ambientais da Guarda Nacional Republicana (GNR), que raramente v&ecirc;em seu trabalho coroado por uma condena&ccedil;&atilde;o exemplar. A impunidade &eacute; quase total. Colocar no banco dos r&eacute;us quem age &agrave; margem da lei &eacute; muito pouco e n&atilde;o &eacute; comum. O comum &eacute; punir com multa irris&oacute;ria, em termos comparativos com o que custaria a uma empresa contaminante acatar as leis ambientais.<br \/> <!--more--> <br \/> &Eacute; o caso de se pensar que o crime compensa. Desde sua cria&ccedil;&atilde;o em 2002, o Servi&ccedil;o Nacional de Prote&ccedil;&atilde;o da Natureza e do Meio Ambiente (Sepna) da GNR abriu 488 processos penais e passou 26.954 multas. Entre os crimes mais freq&uuml;entes est&atilde;o inc&ecirc;ndios provocados em florestas, pedreiras ilegais, contamina&ccedil;&atilde;o dos rios, a ca&ccedil;a, venda e posse de animais protegidos. Somente em 2004, foram apreendidos mais de 1.500 animais entre aves, r&eacute;pteis, primatas e at&eacute; um elefante e um jacar&eacute;. A diferen&ccedil;a entre multar e levar o infrator para o tribunal se deve ao fato de &quot;ser muito dif&iacute;cil abrir um processo-crime&quot;, explica o capit&atilde;o Jorge Amado, coordenador do Sepna.<\/p>\n<p> Uma revis&atilde;o dos n&uacute;meros do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a facilmente corrobora esta opini&atilde;o do oficial da GNR, ao indicar que poucos atentados ambientais s&atilde;o castigados pelos tribunais. Entre 2001 e 2003 houve 14.967 inc&ecirc;ndios florestais intencionais, mas somente se conseguiu 29 condena&ccedil;&otilde;es nos tribunais. Em 106 danos &agrave; natureza, os ju&iacute;zes consideraram punir apenas seis, enquanto que dos 194 acusados de crimes de contamina&ccedil;&atilde;o 188 foram absolvidos de toda culpa. Esta situa&ccedil;&atilde;o se v&ecirc; agravada pela atitude dos governos, acusa Jos&eacute; Alho, presidente da organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental Liga para a Prote&ccedil;&atilde;o da Natureza, ao recordar que &quot;a pol&iacute;tica p&uacute;blica de meio ambiente sofreu retrocessos lament&aacute;veis nos &uacute;ltimos anos&quot;, e citando os casos da falta de decis&atilde;o sobre recursos h&iacute;dricos, tratamento de esgoto e conserva&ccedil;&atilde;o da natureza&quot;.<\/p>\n<p> Jos&eacute; Alho recorda que no ano passado, durante o governo conservador, o estatal Instituto de Conserva&ccedil;&atilde;o da Natureza (ICN) &quot;ficou sem recursos t&eacute;cnicos e financeiros&quot;, a ponto de ter seus telefones cortados por falta de pagamento, deixar de enviar cartas por falta de dinheiro para o selo e n&atilde;o poder utilizar os carros por falta de gasolina. O governo do primeiro-ministro socialista Jos&eacute; S&oacute;crates, ao que parece, n&atilde;o se impressionou por esta situa&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria e para 2005 reduziu o or&ccedil;amento do ICN em 30%, tornando o controle do crime ambiental cada vez mais dif&iacute;cil. No rio Ave, em cujo vale se concentram as maiores empresas t&ecirc;xteis portuguesas, o Sepna lan&ccedil;ou uma grande opera&ccedil;&atilde;o em 2003, que culminou com 160 processos. O total das multas aplicadas alcan&ccedil;ou um milh&atilde;o de euros (US$ 1,3 milh&atilde;o), cifra modesta comparada com o faturamento dessas ind&uacute;strias, que em sua maioria continuam contaminando.<\/p>\n<p> A contamina&ccedil;&atilde;o atingiu tal n&iacute;vel que o Ave j&aacute; &eacute; popularmente chamado de &quot;rio m&aacute;rtir&quot; porque, &quot;como diz a popula&ccedil;&atilde;o local, basta olhar a &aacute;gua para saber a cor da roupa que est&aacute; na moda&quot;, ironizou Antonio Andrade e Sousa, coordenador do Sepna no norte do pa&iacute;s, em declara&ccedil;&otilde;es &agrave; imprensa portuguesa. No mapa dos grandes crimes ambientais cometidos no norte de Portugal tamb&eacute;m se destacam as 500 pedreiras dentro da &aacute;rea protegida da Serra d&acute;Aire e Candeeiros, que transformaram este outrora belo parque natural onde se pretendia conservar um ecossistema importante, em uma natureza morte de montes de pedra que chegam &agrave; altura de um pr&eacute;dio de tr&ecirc;s andares.<\/p>\n<p> Outro dano grave ao meio ambiente s&atilde;o os inc&ecirc;ndios florestais, que tamb&eacute;m afetam a economia do pa&iacute;s, pois causam um efeito negativo imediato em dois setores-chaves: o turismo e a poderosa ind&uacute;stria do corti&ccedil;a, produto obtido a partir da casca do sombreiro, uma das &aacute;rvores que mais sofreu os efeitos do fogo. Estima-se que em Portugal crescem 80% dos sombreiros de todo o planeta e sua ind&uacute;stria transformadora controla 67% do com&eacute;rcio mundial de corti&ccedil;a. Embora os inc&ecirc;ndios florestais tenham repercuss&atilde;o negativa na economia nacional, as ind&uacute;strias transformadoras de madeira s&atilde;o as grandes favorecidas. Jamais se provou que estejam por tr&aacute;s destes atentados a natureza e tudo n&atilde;o passa de suposi&ccedil;&otilde;es baseadas em c&aacute;lculos simples.<\/p>\n<p> Uma tonelada de pinho &eacute; cotada a 44 euros (mais de US$ 57), mas o pre&ccedil;o que as madeireiras pagam aos propriet&aacute;rios de pinhais, grandes perdedores neste neg&oacute;cio florestal, baixa para 12 euros (quase US$ 16) quando prov&eacute;m de &aacute;reas queimadas. Entretanto, como afirmam os ambientalistas, a pior perda, que n&atilde;o tem pre&ccedil;o, &eacute; para o ecossistema. Por outro lado, o turismo constitui a principal ind&uacute;stria que gera divisas para Portugal, o pa&iacute;s que em 2003, com o inc&ecirc;ndio de 425.716 hectares, assumiu a lideran&ccedil;a dos maiores inc&ecirc;ndios florestais do continente europeu nos &uacute;ltimos 50 anos, afugentando milhares de estrangeiros temendo os inc&ecirc;ndios incontrol&aacute;veis.<\/p>\n<p> O golpe de miseric&oacute;rdia foi desferido em mar&ccedil;o deste ano pela revista norte-americana National Geographic, que colocou a regi&atilde;o meridional de Algarve entre os piores destinos tur&iacute;sticos do mundo, classificando-a em 106&ordm; lugar entre 115, superado em m&aacute; qualidade ambiental apenas pelas costas espanholas do Sol e Brava. Entre os fundamentos da revista para colocar Algarve, a zona tur&iacute;stica por excel&ecirc;ncia do extremo sul de Portugal, na lista dos 10 lugares onde se deve evitar ir de f&eacute;rias, est&atilde;o &quot;o desenvolvimento incontrolado da costa&quot; e &quot;a destrui&ccedil;&atilde;o do meio ambiente natural com projetos que pretendem capitalizar o mercado do turismo de massa&quot;.<\/p>\n<p> Nas &uacute;ltimas tr&ecirc;s d&eacute;cadas, o Algarve foi sistematicamente v&iacute;tima de voraz apetite das grandes imobili&aacute;rias, que transformaram uma das paisagens mais belas da Europa em praias cercadas de altos edif&iacute;cios de concreto, um lucrativo neg&oacute;cio onde os principais clientes s&atilde;o brit&acirc;nicos, alem&atilde;es, holandeses e escandinavos. Ap&oacute;s 30 anos de duras cr&iacute;ticas ao que foi descrito como a &quot;cimenta&ccedil;&atilde;o&quot; do Algarve, a aten&ccedil;&atilde;o dos ambientalistas agora se volta para as constru&ccedil;&otilde;es ilegais prec&aacute;rias que transformaram as dunas p&uacute;blicas de pequenas ilhas arenosas em propriedades privadas, ignorando o respeito pelo meio ambiente devido &agrave; eros&atilde;o da costa. Lu&iacute;s Br&aacute;s, membro da associa&ccedil;&atilde;o ambientalista regional Almargem, alerta que, &quot;al&eacute;m dos problemas que esse cen&aacute;rio acarreta para o ecossistema das dunas prim&aacute;rias, surge a quest&atilde;o de sua din&acirc;mica&quot;.<\/p>\n<p> Segundo Br&aacute;s, &quot;o peso das constru&ccedil;&otilde;es interrompeu todo seu processo natural, impedindo o sistema de se reajustar. Neste momento, h&aacute; situa&ccedil;&otilde;es de grave eros&atilde;o, o que, somado &agrave; subida das &aacute;guas do mar, traz o risco at&eacute; de as ilhas desaparecerem&quot;. Entretanto, &quot;aquilo que n&atilde;o se v&ecirc;&quot;, como as crescentes emiss&otilde;es de gases causadores do efeito estufa, pode ser o maior dos crimes ambientais, afirmou Carlos Pimenta, ex-secret&aacute;rio de Estado de Meio Ambiente do governo do primeiro-ministro conservador An&iacute;bal Cavaco e Silva (1985-1995), atualmente diretor de v&aacute;rios projetos de energias renov&aacute;veis. Em recentes declara&ccedil;&otilde;es &agrave; imprensa, o ex-governante advertiu que &quot;as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas s&atilde;o um problema grav&iacute;ssimo, mais do que qualquer outro, porque pode significar a inviabilidade de todo o pa&iacute;s e &eacute; um fen&ocirc;meno imprevis&iacute;vel&quot;. Pimenta alerta que, &quot;com a subida das &aacute;guas do mar e com o aumento dos fen&ocirc;menos extremos, dentro de alguns anos pode deixar de existir o que se proteger&quot;. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 24\/06\/2005 &ndash; Constru&ccedil;&otilde;es ilegais sobre dunas, rios contaminados por industriais inescrupulosas, fogo colocado em florestas ancestrais e pedreiras em parques naturais s&atilde;o alguns dos crimes contra o meio ambiente cometidos em Portugal, esbo&ccedil;ando a paisagem de uma natureza ferida de morte. A legisla&ccedil;&atilde;o pune, mas abrir um processo judicial apresenta imensas dificuldades burocr&aacute;ticas, ao que se soma a car&ecirc;ncia de meios dos policiais ambientais da Guarda Nacional Republicana (GNR), que raramente v&ecirc;em seu trabalho coroado por uma condena&ccedil;&atilde;o exemplar. A impunidade &eacute; quase total. Colocar no banco dos r&eacute;us quem age &agrave; margem da lei &eacute; muito pouco e n&atilde;o &eacute; comum. O comum &eacute; punir com multa irris&oacute;ria, em termos comparativos com o que custaria a uma empresa contaminante acatar as leis ambientais.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/06\/mundo\/ambiente-a-natureza-agoniza-em-portugal\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-728","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/728","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=728"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/728\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}