{"id":7341,"date":"2010-11-01T11:43:28","date_gmt":"2010-11-01T11:43:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7341"},"modified":"2010-11-01T11:43:28","modified_gmt":"2010-11-01T11:43:28","slug":"batalha-entre-floresta-e-gado-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/11\/america-latina\/batalha-entre-floresta-e-gado-na-amazonia\/","title":{"rendered":"Batalha entre floresta e gado na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>Rio Branco, Acre, 01\/11\/2010 &ndash; \u201cAgarre na m\u00e3o de Deus\u201d, disse sua m\u00e3e ao falecer. S\u00f3 mais tarde compreendeu que ela, enquanto agonizava com fal\u00eancia dos rins, o exortava a continuar seu trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7341\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/82947.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7341\" class=\"size-medium wp-image-7341\" title=\"Nenzinho mostra uma tela emborrachada. - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/82947.jpg\" alt=\"Nenzinho mostra uma tela emborrachada. - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7341\" class=\"wp-caption-text\">Nenzinho mostra uma tela emborrachada. - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  Era 1980, e viviam isolados no seringal de Iracema, como uma grande fam\u00edlia formada por dezenas de adultos, meninos e meninas, sobrevivendo do que a selva amaz\u00f4nica oferecia e da venda de l\u00e1tex natural extra\u00eddo da seringueira.<\/p>\n<p>Aldeci Cerqueira Maia, o \u201cNenzinho\u201d, tinha 18 anos e havia se casado h\u00e1 pouco quando sua m\u00e3e morreu. Extrator de borracha desde os nove anos, guarda at\u00e9 hoje, \u201ccomo um talism\u00e3\u201d, uma das primeiras pelotas que fez com esse produto. Seus av\u00f3s foram \u201csoldados da borracha\u201d, levados do Nordeste para a Amaz\u00f4nia durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) para abastecer de borracha os ex\u00e9rcitos aliados.<\/p>\n<p>Mais tarde, o Estado do Acre come\u00e7ou a receber novos visitantes interessados, n\u00e3o nos frutos da floresta, mas em derrub\u00e1-la e implantar a pecu\u00e1ria e alguma planta\u00e7\u00e3o. Os assentamentos do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra) restringiam o seringal. Quando, em 1986, o Incra se preparava para ocupar parte dos seringais para assentar os agricultores, os cultivadores de borracha amea\u00e7ados de expuls\u00e3o uniram-se no \u201cempate\u201d, uma forma de resist\u00eancia pac\u00edfica que levou multid\u00f5es a se opor ao desmatamento.<\/p>\n<p>\u201cConseguimos parar a expropria\u00e7\u00e3o do Incra\u201d, disse Nenzinho, mas foi preciso uma longa luta at\u00e9 que o triunfo se formalizasse na cria\u00e7\u00e3o da Reserva Extrativista (Resex) Cazumb\u00e1-Iracema, em 2002. Resex \u00e9 uma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental onde seus moradores tradicionais t\u00eam direito ao uso sustent\u00e1vel dos recursos naturais e benef\u00edcios como subs\u00eddios ao pre\u00e7o da borracha. Esta foi a vit\u00f3ria do \u201cempate\u201d, um invento de Chico Mendes, her\u00f3i dos povos da floresta amaz\u00f4nica, no qual os seringueiros formavam barreiras humanas para impedir o corte da floresta.<\/p>\n<p>Mas a cria\u00e7\u00e3o dessas reservas custou sangue e conflitos. Chico Mendes foi assassinado em 1988 por pecuaristas em Xapuri, cidade do leste do Acre. Oito anos antes, j\u00e1 haviam matado Wilson Pinheiro, outro l\u00edder de seringueiros e trabalhadores rurais. O primeiro legado de ambos foi a cria\u00e7\u00e3o, em 1990, da Resex Chico Mendes, com 970.570 hectares, onde vivem hoje cerca de 1.800 fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Nenzinho sobreviveu a duas amea\u00e7as de morte, uma delas por ter denunciado um delegado por ca\u00e7a ilegal. Mas sempre contou com a prote\u00e7\u00e3o e o apoio do padre Paolino Baldassari, cura italiano j\u00e1 octogen\u00e1rio mas ativo, que formou gera\u00e7\u00f5es de ativistas cat\u00f3licos e animou todas as lutas dos pobres em Sena Madureira, munic\u00edpio sede da Resex Cazumb\u00e1-Iracema.<\/p>\n<p>O sucesso da resist\u00eancia do seringal Iracema e de sua pr\u00f3pria lideran\u00e7a, Nenzinho atribui \u00e0 prega\u00e7\u00e3o religiosa iniciada por sua m\u00e3e e seguida por ele, sempre sob orienta\u00e7\u00e3o de padre Paolino. \u201cO ser humano n\u00e3o vive apenas de p\u00e3o, e tampouco s\u00f3 de ora\u00e7\u00e3o\u201d, disse ter aprendido Nenzinho, que decidiu tamb\u00e9m cuidar da sa\u00fade de seus vizinhos, capacitando-se como agente sanit\u00e1rio e depois enfermeiro.<\/p>\n<p>As visitas frequentes a todas as fam\u00edlias locais o fizeram padrinho de meninos e meninas de 56 fam\u00edlias. \u201cEra compadre de todos\u201d, contou. Por\u00e9m, uma brutal queda no pre\u00e7o da borracha na d\u00e9cada de 1990 amea\u00e7ou desfazer sua comunidade. Muitos abandonavam o seringal. Os persistentes criaram uma cooperativa e Nenzinho, com as facilidades de agente de sa\u00fade da prefeitura, transportava a produ\u00e7\u00e3o de todos para vender na cidade, fazendo com que economizassem custos e tempo.<\/p>\n<p>O transporte por animais demorava quase um dia inteiro, j\u00e1 que n\u00e3o havia estradas, apenas caminhos escorregadios quando chovia. Em 1992, o pre\u00e7o caiu mais ainda e \u201cn\u00e3o havia compradores\u201d. Nenzinho decidiu salvar um m\u00ednimo da comunidade convidando dez fam\u00edlias a se somarem \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de castanha com o que ele e seus parentes conseguiam alguma renda, gra\u00e7as \u00e0 sorte de viver junto a um grande castanhal. Como a colheita de castanha se limita ao primeiro trimestre, tamb\u00e9m recorreu ao cultivo de arroz, feij\u00e3o, banana e outros alimentos no restante do ano.<\/p>\n<p>\u201cFoi dif\u00edcil\u201d mudar os h\u00e1bitos de extratores acostumados \u00e0 carne de ca\u00e7a. \u201cTivemos que aprender a comer outras coisas. Eu mesmo precisei me domesticar\u201d, admitiu Nenzinho. Outro triunfo foi a abertura de um ramal vi\u00e1rio at\u00e9 a Resex, \u201cuma miss\u00e3o imposs\u00edvel, mas realizada\u201d. Em 1997, chegou o primeiro autom\u00f3vel, entre choros \u201cde emo\u00e7\u00e3o\u201d, contou. \u201cO transporte \u00e9 tudo\u201d, afirmou, embora a terra escorregadia impe\u00e7a o tr\u00e1fego de ve\u00edculos a maior parte do ano.<\/p>\n<p>Cazumb\u00e1-Iracema tamb\u00e9m foi a \u201cprimeira comunidade extrativista a ter ensino m\u00e9dio no Acre\u201d, destacou orgulhoso. S\u00e3o 15 alunos no secund\u00e1rio e 96 no ensino prim\u00e1rio, informou a professora Algecida Cerqueira, em sua casa de madeira, no povoado principal da Resex. \u201cNasci aqui e fundei a escola em 1993\u201d, contou, dizendo que a juventude \u201cquer ficar aqui\u201d, ao contr\u00e1rio dos filhos de camponeses assentados nos arredores. Um exemplo \u00e9 Ronaldo Santos, de 18 anos, que pensa em estudar biologia em alguma cidade e depois voltar para pesquisar \u201ca floresta cheia de mist\u00e9rios\u201d.<\/p>\n<p>Finalmente, em 2002, o governo federal decretou a cria\u00e7\u00e3o da desejada Resex Cazumb\u00e1-Iracema, com 750.975 hectares. Isso lhes d\u00e1 subs\u00eddios que elevam para R$ 3,20 a renda obtida por um quilo de borracha, 2,7 vezes o pre\u00e7o do mercado, mas equivalente a apenas um ter\u00e7o do poder de venda de 1980, segundo Nenzinho. O seringueiro hoje cuida de sua Resex como funcion\u00e1rio do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade, \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio do Meio ambiente encarregado das unidades de conserva\u00e7\u00e3o, como Resex, Parques e Florestas Nacionais.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o local aumentou para 320 fam\u00edlias que, para melhorar sua renda, tentam diversificar a produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m da castanha e da pequena agricultura, desenvolvem o artesanato, especialmente com o emborrachado, de l\u00e1tex com o qual fazem grandes pinturas e mouse pads em forma de \u00e1rvores amaz\u00f4nicas. Na Resex Chico Mendes j\u00e1 se usa o l\u00e1tex para fabricar camisinha e a \u201cfolha defumada\u201d, esp\u00e9cie de couro vegetal usado para fazer cal\u00e7ados.<\/p>\n<p>Contudo, parece insuficiente. H\u00e1 dois anos foram descobertas milhares de cabe\u00e7as de gado e uma grande \u00e1rea desmatada na reserva, violando os objetivos da \u00e1rea protegida. O Incra executou no Acre projetos de \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o\u201d e criou assentamentos causando um amplo desmatamento ao longo das estradas nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, mas depois mudou sua forma de atuar, incorporando a dimens\u00e3o ambiental e aproximando-se do esp\u00edrito das Resex, explicou Jo\u00e3o Ricardo de Oliveira, chefe de Planejamento do Instituto no Estado.<\/p>\n<p>O objetivo do regime militar da \u00e9poca era ocupar a Amaz\u00f4nia, com a filosofia de \u201cintegrar para n\u00e3o entregar\u201d a soberania da regi\u00e3o, e tamb\u00e9m assentou milhares de deslocados por projetos hidrel\u00e9tricos no sul, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o ambiental, explicou. No Acre chegaram menos deslocados do que no vizinho Estado de Rond\u00f4nia, que foi um exemplo negativo do amplo desmatamento e dissemina\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>Agora, procura-se criar uma Zona Econ\u00f4mica Ecol\u00f3gica no Acre, e os assentamentos evitam \u00e1reas de floresta nativa ou s\u00e3o feitos de forma sustent\u00e1vel, assegurou. O novo modelo ser\u00e1 testado logo no assentamento dos \u201cbasivianos\u201d, camponeses brasileiros expulsos da faixa fronteiri\u00e7a com a Bol\u00edvia. \u201cTemos uma lista de 417 fam\u00edlias\u201d, disse Jo\u00e3o Ricardo. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio Branco, Acre, 01\/11\/2010 &ndash; \u201cAgarre na m\u00e3o de Deus\u201d, disse sua m\u00e3e ao falecer. 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