{"id":7443,"date":"2010-11-23T13:34:25","date_gmt":"2010-11-23T13:34:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7443"},"modified":"2010-11-23T13:34:25","modified_gmt":"2010-11-23T13:34:25","slug":"um-clique-para-escapar-da-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/11\/america-latina\/um-clique-para-escapar-da-violencia\/","title":{"rendered":"Um clique para escapar da viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Ciudad Evita, Argentina, 23\/11\/2010 &ndash; \u201cOs homens s\u00e3o b\u00eabados e agressores\u201d, define para a IPS Lorena Maurin antes de entrar em seu curso de computa\u00e7\u00e3o, um o\u00e1sis para as mulheres do bairro 22 de Janeiro, em Ciudad Evita, a 20 quil\u00f4metros de Buenos Aires.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7443\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/83792.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7443\" class=\"size-medium wp-image-7443\" title=\"Laura Ber\u00f3n, com seu sobrinho nos bra\u00e7os, e Lorena Maurin durante a aula. - Marcela Valente \/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/83792.jpg\" alt=\"Laura Ber\u00f3n, com seu sobrinho nos bra\u00e7os, e Lorena Maurin durante a aula. - Marcela Valente \/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7443\" class=\"wp-caption-text\">Laura Ber\u00f3n, com seu sobrinho nos bra\u00e7os, e Lorena Maurin durante a aula. - Marcela Valente \/IPS<\/p><\/div>  As aulas s\u00e3o dadas em um galp\u00e3o junto \u00e0 capela Santa Clara de Assis, em um assentamento paup\u00e9rrimo desta localidade, no distrito mais populoso da periferia da capital argentina.<\/p>\n<p>\u201cQuem \u00e9 de Ciudad Evita n\u00e3o \u00e9 considerado. Somos os piolhos do coque de Evita\u201d, ironizou a freira Norma Santa Cruz, coordenadora do programa que aproxima as ferramentas da tecnologia de mulheres v\u00edtimas da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A localidade deve seu nome a Eva Duarte (1919-1952), mulher de Juan Domingo Per\u00f3n, que desde a chegada de seu marido pela primeira vez \u00e0 Presid\u00eancia, em 1946, e at\u00e9 sua morte, promoveu os direitos dos trabalhadores e das mulheres.<\/p>\n<p>As religiosas da capela trabalham h\u00e1 15 anos com \u201cpopula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel\u201d, e neste bairro este grupo \u00e9 formado fundamentalmente por mulheres e crian\u00e7as que crescem em um ambiente de viol\u00eancia, revelou irm\u00e3 Norma.<\/p>\n<p>Vinte mulheres que j\u00e1 tinham contato com a capela, por levarem seus filhos para participar de diferentes atividades educacionais ou recreativas, foram chamadas este ano para um curso de computa\u00e7\u00e3o. E foi assim que come\u00e7ou.<\/p>\n<p>\u201cAs chamamos para isso porque se diss\u00e9ssemos que era por causa da viol\u00eancia n\u00e3o viriam\u201d, disse a freira. A meta \u00e9 que tenham um email, um blog ou uma p\u00e1gina no Facebook, para usarem a rede social e se conectarem com outras mulheres, em um aprendizado que reconstrua \u2013 ou construa \u2013 sua autoestima.<\/p>\n<p>O plano, financiado pela rede n\u00e3o governamental e internacional Associa\u00e7\u00e3o para o Progresso das Comunica\u00e7\u00f5es, se chama \u201cDominemos a Tecnologia. Tomar o Controle das TIC (Tecnologias da Informa\u00e7\u00e3o e da Comunica\u00e7\u00e3o) para Eliminar a Viol\u00eancia contra as Mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Na Argentina, funciona em Ciudad Evita e em outra localidade da prov\u00edncia de Buenos Aires, e nas de Misiones, Formosa e Santiago del Estero.<\/p>\n<p>Em Formosa, aprendem computa\u00e7\u00e3o e participam de paineis sobre viol\u00eancia. \u201cAqui a viol\u00eancia se expressa na fam\u00edlia e tamb\u00e9m no tr\u00e1fico de pessoas, porque \u00e9 uma regi\u00e3o vulner\u00e1vel, de fronteira (com o Paraguai)\u201d, disse \u00e0 IPS Elsa G\u00f3mez.<\/p>\n<p>Elsa \u00e9 coordenadora da organiza\u00e7\u00e3o \u00d1and\u00e9 Roga Guaz\u00fa, onde as mulheres est\u00e3o produzindo materiais em v\u00eddeo e folhetos para a campanha do Dia Internacional pela Elimina\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia contra a Mulher, no dia 25, que abre uma quinzena de atividades mundiais contra a viol\u00eancia de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Em Ciudad Evita, dificilmente conseguir\u00e3o algo similar este ano, mas qualquer desculpa \u00e9 boa para remover essa viol\u00eancia naturalizada.<\/p>\n<p>Durante a tarde em que a IPS compartilhou com sete mulheres o curso de computa\u00e7\u00e3o, para todas foi dif\u00edcil identificar um homem que n\u00e3o fosse como seu marido.<\/p>\n<p>\u201cTodos s\u00e3o iguais. Tive quantidade de padrastos b\u00eabados e agressores, e n\u00e3o quero isso para meus filhos\u201d, afirmou Lorena, jovem trabalhadora de 29 anos, dois filhos e um marido que quando sai \u00e0 noite nos finais de semana se embebeda e fica violento.<\/p>\n<p>\u201cMeus filhos j\u00e1 sabem que, quando sai, volta na manh\u00e3 seguinte b\u00eabado, por isso vivem assustados. Mas, quando digo para n\u00e3o sair ou n\u00e3o beber me diz \u2018do que se queixa?\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Todas falam com entusiasmo do curso, dado por um professor de outra localidade que vem uma vez por semana. J\u00e1 aprenderam a fazer curr\u00edculo, planilhas no Excel e apresenta\u00e7\u00f5es em Power Point.<\/p>\n<p>Para a apresenta\u00e7\u00e3o basearam-se em um artigo sobre noivados violentos levado por uma participante. O objetivo final \u00e9 que mantenham contato com outras mulheres v\u00edtimas da viol\u00eancia e que estejam isoladas como elas.<\/p>\n<p>\u201cProfe&#8230; quis abrir o programa e sumiu!\u201d, se desespera uma. Outra pressiona o bot\u00e3o do clique e espera em v\u00e3o, at\u00e9 se lembrar que s\u00e3o necess\u00e1rios dois toques.<\/p>\n<p>Laura Ber\u00f3n apenas fala. Tem 29 anos, emprego e um filho. Seu marido bateu nela muitas vezes. Foram \u00e0 terapia psicol\u00f3gica, mas n\u00e3o funcionou. Ele n\u00e3o quis seguir, disse.<\/p>\n<p>\u201cEu via que ela chegava marcada, mas nada nos contava\u201d, disse sua irm\u00e3, Beatriz Ber\u00f3n, de 31 anos. Ela tamb\u00e9m sofre agress\u00f5es de seu companheiro e participa do curso. \u201cQueria ir embora, mas n\u00e3o tenho para onde ir\u201d, lamenta Beatriz, que trabalha, tem uma filha de oito anos e um beb\u00ea de um m\u00eas que levou \u00e0 aula.<\/p>\n<p>A freira insiste para que n\u00e3o tragam as crian\u00e7as, que preservem este espa\u00e7o para elas, mas \u00e9 dif\u00edcil. As crian\u00e7as entram e saem da sala e o beb\u00ea vai de bra\u00e7o em bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Paola Bazante, de 36 anos, \u00e9 a mais velha do grupo. Est\u00e1 casada h\u00e1 20 anos e tem quatro filhos. Quando chegou ao curso estava muito mal, recordou. Mais tarde, come\u00e7ou uma terapia psicol\u00f3gica que a \u201cajudou muito\u201d, contou.<\/p>\n<p>As brigas com seu marido eram constantes. \u201cEle nunca est\u00e1 em casa, vem quando quer\u201d, disse, primeiramente afirmando que ele s\u00f3 exercia uma viol\u00eancia psicol\u00f3gica sobre ela, mas aos poucos confessou.<\/p>\n<p>\u201cUma vez me bateu e eu devolvi com um cabo de vassoura. E falei para ter cuidado quando fosse dormir porque poderia n\u00e3o acordar. Agora, tem medo de mim, por isso n\u00e3o me bate\u201d, riu.<\/p>\n<p>Paola disse que lhe faz muito bem ir ao curso, embora seu marido, como os das outras mulheres, o despreze. Eles dizem que \u201cv\u00e3o ali perder tempo, cuidar dos filhos de outra ou conhecer outros homens\u201d, como o professor de computa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPara mim este espa\u00e7o serviu muito para eu ver que sou capaz sozinha, que criei sozinha meus quatro filhos e que n\u00e3o precisava dele. Agora trabalho, tenho meu dinheiro. Mas \u00e9 dif\u00edcil dizer cheguei at\u00e9 aqui, doi muito a ferida\u201d, disse.<\/p>\n<p>O medo maior n\u00e3o parece ser desse homem violento que dorme com elas, mas o fato de nada garantir que outros ser\u00e3o diferentes. \u201cS\u00e3o todos assim, se alguma diz que o marido n\u00e3o \u00e9 violento est\u00e1 mentindo\u201d, disse Paola.<\/p>\n<p>Se v\u00e3o \u00e0 pol\u00edcia, sabem que n\u00e3o ter\u00e3o prote\u00e7\u00e3o. \u201cOs policiais perguntam para que denunciar, se dentro de dois ou tr\u00eas dias estar\u00e3o com ele\u201d, revelou. E sabem que, em parte, isso \u00e9 certo.<\/p>\n<p>Claudia Cisneros, outra participante de 22 anos, aponta os fundamentos culturais. \u201cMeu padrasto era assim. A mulher \u00e9 para cozinhar, lavar e cuidar dos filhos\u201d, dizia ele. Seu companheiro tamb\u00e9m sai e se embebeda \u201cde sexta-feira a domingo\u201d, contou.<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o bebe, \u00e9 calmo e d\u00e1 dinheiro para sua mulher, dizem que \u00e9 um cornudo ou vive na barra da saia da mulher\u201d, acrescentou. Todas se apressaram a lhe dar raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPor isso \u00e9 dif\u00edcil fazer a separa\u00e7\u00e3o. Uma prefere ficar, embora n\u00e3o esteja c\u00f4moda, e n\u00e3o ir para algo que pode ser pior. A mulher tem a cabe\u00e7a mais aberta, mas o homem n\u00e3o muda mais\u201d, disse Paola. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ciudad Evita, Argentina, 23\/11\/2010 &ndash; \u201cOs homens s\u00e3o b\u00eabados e agressores\u201d, define para a IPS Lorena Maurin antes de entrar em seu curso de computa\u00e7\u00e3o, um o\u00e1sis para as mulheres do bairro 22 de Janeiro, em Ciudad Evita, a 20 quil\u00f4metros de Buenos Aires. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/11\/america-latina\/um-clique-para-escapar-da-violencia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6],"tags":[21,24],"class_list":["post-7443","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7443","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7443"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7443\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}