{"id":7447,"date":"2010-11-24T11:59:43","date_gmt":"2010-11-24T11:59:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7447"},"modified":"2010-11-24T11:59:43","modified_gmt":"2010-11-24T11:59:43","slug":"violencia-contra-mulheres-aumenta-risco-de-hiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/11\/america-latina\/violencia-contra-mulheres-aumenta-risco-de-hiv\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia contra mulheres aumenta risco de HIV"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 24\/11\/2010 &ndash; \u201cMinha m\u00e3e me batia, me trancava e depois come\u00e7ou a me acorrentar \u00e0 mesa\u201d, conta Elizabeth. <!--more--> Teresa estava gr\u00e1vida de sete meses quando seu marido a agarrou pelos cabelos, a jogou no ch\u00e3o e come\u00e7ou a pisar nela. Estes s\u00e3o testemunhos de mulheres vivendo com HIV\/aids publicados em um informe divulgado ontem em Buenos Aires, que revela as diferentes formas de viol\u00eancia que sofrem a maioria destas mulheres ao longo de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A pesquisa \u201cDuas faces de uma mesma realidade. Viol\u00eancia contra as mulheres e o HIV\/aids em Argentina, Brasil, Chile e Uruguai\u201d afirma que 78% das entrevistadas nos quatro pa\u00edses sofreram algum tipo de viol\u00eancia em sua vida. Quando as mulheres contra\u00edram o HVI, muitas j\u00e1 traziam uma longa hist\u00f3ria de abuso e viol\u00eancia de g\u00eanero que as deixou mais vulner\u00e1veis, diz o estudo.<\/p>\n<p>Foram entrevistadas 399 mulheres com o v\u00edrus nesses pa\u00edses, e 70% disseram ter sofrido viol\u00eancia psicol\u00f3gica, a mais citada, que se manifesta em humilha\u00e7\u00f5es, insultos, piadas e desprezo. Al\u00e9m disso, 55,6% sofreram viol\u00eancia f\u00edsica por parte de pais, padrastos, cuidadores e c\u00f4njuges, como empurr\u00f5es, tapas, socos com os punhos e objetos, surras, chutes, queimaduras e enforcamento.<\/p>\n<p>As entrevistas foram feitas em pares. Na Argentina, participaram dez mulheres da Rede Bonarense de Pessoas Vivendo e Convivendo com HIV\/aids. Uma delas, Caty Castillo, contou \u00e0 IPS que as mulheres n\u00e3o consideravam os fatos de viol\u00eancia sofridos como algo mau. \u201cInclusive isso aconteceu conosco, entrevistadoras. Quando fizemos o question\u00e1rio primeiro entre n\u00f3s mesmas, nos demos conta de que muitas hav\u00edamos passado por situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e abuso e n\u00e3o hav\u00edamos considerado isso algo ruim\u201d, admitiu.<\/p>\n<p>As mulheres foram citadas apenas pelo primeiro nome. Assim, Griselda, do Uruguai, conta: \u201cMeu pai gostava de bater muito em mim. N\u00e3o sei o motivo. N\u00e3o eram palmadas ou uma surra. Me amorda\u00e7ava, colocava esponja na minha boca\u201d. Quase 60% das entrevistadas viram a m\u00e3e sofrer agress\u00f5es de seus companheiros, e depois elas sofreram ataques de seus companheiros. \u201cColocou uma faca no meu pesco\u00e7o, cortou meus punhos, me batia por ci\u00fames\u201d, contou Florencia, tamb\u00e9m do Uruguai.<\/p>\n<p>O estudo, compilado pela m\u00e9dica Mabel Bianco e pela soci\u00f3loga Andrea Mari\u00f1o, da Argentina, diz que \u201ca fam\u00edlia, suposto resguardo do mundo afetivo, n\u00e3o parece ser o meio mais seguro para muitas destas mulheres\u201d. As especialistas pertencem \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o para Estudo e Pesquisa da Mulher da Argentina, que trabalhou nas entrevistas junto com a organiza\u00e7\u00e3o brasileira Gestos, a chilena Funda\u00e7\u00e3o Educa\u00e7\u00e3o Popular em Sa\u00fade e a uruguaia Mulheres e Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Andrea explicou \u00e0 IPS que \u201cas mulheres que sofreram viol\u00eancia ao longo de suas vidas s\u00e3o mais vulner\u00e1veis \u00e0 infec\u00e7\u00e3o porque, em geral, perdem autonomia, autoestima e tamb\u00e9m capacidade de negociar o uso do preservativo\u201d. Por exemplo, as entrevistadas confessam que foram v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual em alta porcentagem (36,3%), quase sempre cometidas por seus companheiros, e tamb\u00e9m abuso sexual em grandes propor\u00e7\u00f5es (32,8%) na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia na vida de muitas destas mulheres desde a inf\u00e2ncia. N\u00e3o t\u00eam registro de que isso n\u00e3o \u00e9 normal, que \u00e9 um crime\u201d, ressaltou Andrea. Sobre viol\u00eancia sexual h\u00e1 diversos testemunhos. \u201cEu n\u00e3o queria quando ele estava drogado\u201d, conta Sandra, do Uruguai. \u201cSe queria fazer, me obrigava, me pegava, e eu tinha de fazer porque era o pai de meus filhos\u201d, contou. Muitas das mulheres entrevistadas tamb\u00e9m recordaram epis\u00f3dios de abuso sexual na inf\u00e2ncia, e n\u00e3o apenas toques. \u201cEle (seu pai) quando eu tinha cinco anos me violentou at\u00e9 os sete, oito anos, e foi uma experi\u00eancia muito ruim\u201d, assegurou a chilena Iris.<\/p>\n<p>A entrevistadora Castillo, concordou que a maioria, das que admitiram ter sofrido abuso, o considerou algo \u201cnormal\u201d porque os respons\u00e1veis eram familiares pr\u00f3ximos. Apesar da evidente liga\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia de g\u00eanero e HIV, o estudo alerta para uma \u201cpreocupante limita\u00e7\u00e3o de dados oficiais\u201d nos quatro pa\u00edses, o que impede \u201cdimensionar a magnitude do problema\u201d. A pesquisa tamb\u00e9m tra\u00e7a um panorama sobre as caracter\u00edsticas da epidemia na sub-regi\u00e3o e destaca alguns avan\u00e7os, como universaliza\u00e7\u00e3o dos tratamentos para combater o v\u00edrus e as leis contra a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 programas governamentais nacionais que articulem estrat\u00e9gias para mitigar as duas pandemias\u201d, diz o informe, com exce\u00e7\u00e3o do Brasil, onde existe um plano nesse sentido, mas que ainda n\u00e3o foi implementado. Quando conhecem o diagn\u00f3stico, na maioria das vezes as mulheres reagem com surpresa porque n\u00e3o se consideram um grupo de risco por terem um companheiro est\u00e1vel e heterossexual. \u201cPensava que isso nunca aconteceria comigo\u201d, disse uma delas.<\/p>\n<p>Segundo o informe, falta uma boa articula\u00e7\u00e3o entre as pol\u00edticas para enfrentar a viol\u00eancia contra as mulheres e os temas de sa\u00fade, fato que d\u00e1 lugar, reiteradamente, \u00e0 viol\u00eancia institucional. Uma das entrevistadas na Argentina contou que quando seu ginecologista ficou sabendo que ela tinha o v\u00edrus causador da aids n\u00e3o quis mais atend\u00ea-la. \u201cFalou que n\u00e3o atendia pessoas com HIV\u201d, disse. Outra, do Uruguai, que tinha consigo uma B\u00edblia, contou que quando a m\u00e9dica a informou sobre o diagn\u00f3stico tamb\u00e9m disse: \u201cL\u00ea muito a B\u00edblia, mas n\u00e3o \u00e9 nenhuma santa\u201d. Por isso decidiu abandonar o tratamento.<\/p>\n<p>Diante desta realidade, as pesquisadoras fazem 20 recomenda\u00e7\u00f5es. Entre elas, promover pol\u00edticas p\u00fablicas integrais que articulem a preven\u00e7\u00e3o e a aten\u00e7\u00e3o das duas pandemias a partir de uma perspectiva de g\u00eanero. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 24\/11\/2010 &ndash; \u201cMinha m\u00e3e me batia, me trancava e depois come\u00e7ou a me acorrentar \u00e0 mesa\u201d, conta Elizabeth. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/11\/america-latina\/violencia-contra-mulheres-aumenta-risco-de-hiv\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,7],"tags":[21,24],"class_list":["post-7447","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-saude","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7447","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7447"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7447\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7447"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7447"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7447"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}