{"id":7461,"date":"2010-11-26T12:42:00","date_gmt":"2010-11-26T12:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7461"},"modified":"2010-11-26T12:42:00","modified_gmt":"2010-11-26T12:42:00","slug":"mexico-outra-guerra-que-torna-invisivel-a-violencia-sexista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/11\/america-latina\/mexico-outra-guerra-que-torna-invisivel-a-violencia-sexista\/","title":{"rendered":"M\u00c9XICO: Outra guerra que torna invis\u00edvel a viol\u00eancia sexista"},"content":{"rendered":"<p>Cidade do M\u00e9xico, M\u00e9xico, 26\/11\/2010 &ndash; Elas n\u00e3o pediram uma guerra, mas foram afetadas: Griselda e Yosmireli, de quatro e dois anos, morreram com o cr\u00e2nio perfurado pelas balas dos soldados.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7461\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/83932.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7461\" class=\"size-medium wp-image-7461\" title=\"Mulheres da aldeia onde foi assassinada a fam\u00edlia Esparza demandam justi\u00e7a diante da escola. - M\u00f3nica Gonz\u00e1lez \/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/83932.jpg\" alt=\"Mulheres da aldeia onde foi assassinada a fam\u00edlia Esparza demandam justi\u00e7a diante da escola. - M\u00f3nica Gonz\u00e1lez \/IPS\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7461\" class=\"wp-caption-text\">Mulheres da aldeia onde foi assassinada a fam\u00edlia Esparza demandam justi\u00e7a diante da escola. - M\u00f3nica Gonz\u00e1lez \/IPS<\/p><\/div>  A morte tamb\u00e9m levou sua m\u00e3e, a tia e um irm\u00e3o de sete anos, em uma estrada rural do noroeste do M\u00e9xico. Griselda Galaviz, a m\u00e3e, e Gloria Alicia Esparza, a tia, eram professoras em uma afastada aldeia do Estado de Sinaloa, na costa do Pac\u00edfico, e se deslocavam em um ve\u00edculo r\u00fastico familiar quando este foi alvo de disparos feitos por um regimento militar. Apenas sobreviveram outras duas professoras e Ad\u00e1n Esparza, marido, irm\u00e3o e pai das cinco v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Era 1\u00ba de julho de 2007 e a chacina se converteu no primeiro caso de civis assassinados por soldados dentro da \u201cguerra\u201d empreendida pelo governo do conservador Felipe Calder\u00f3n contra os cart\u00e9is da droga, que empurrou o pa\u00eds para uma espiral incontida de viol\u00eancia. Oficialmente, s\u00e3o 30 mil v\u00edtimas fatais em quase quatro anos de militariza\u00e7\u00e3o do combate aos traficantes. Contudo, falta somar uma quantidade n\u00e3o conhecida de pessoas \u00f3rf\u00e3s, vi\u00favas, mutiladas, exiladas e deslocadas.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia governamental inclui a participa\u00e7\u00e3o ativa das for\u00e7as militares e causou diferentes efeitos na popula\u00e7\u00e3o mexicana, de 108 milh\u00f5es de habitantes. Um, muito claro, \u00e9 a \u201cinvisibilidade da viol\u00eancia contra as mulheres\u201d, disse \u00e0 IPS David Pe\u00f1a, da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Advogados Democr\u00e1ticos, que levou ao Tribunal Interamericano de Direitos Humanos o caso do Campo Algodoeiro pelo assassinato de tr\u00eas mulheres em Cuidad Ju\u00e1rez, em que o Estado mexicano foi considerado respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 tamanha a quantidade de mortos que n\u00e3o h\u00e1 uma diferencia\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres. E, pior, n\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o entre os motivos dos assassinatos\u201d, explicou. \u201cSe uma mo\u00e7a \u00e9 encontrada morta na rua com sinais de viol\u00eancia, mas recebeu um tiro, est\u00e1 amarrada ou ao seu lado tem um homem morto, entra na lista do crime organizado\u201d, disse o advogado. Um exemplo deste fen\u00f4meno \u00e9 Ciudad Ju\u00e1rez, na fronteira com os Estados Unidos, conhecida mundialmente pela cadeia de feminic\u00eddios iniciada em 1993.<\/p>\n<p>O n\u00famero de mulheres assassinadas nos \u00faltimos tr\u00eas anos j\u00e1 superou o total de feminic\u00eddios dos 13 anos anteriores: 575. Este ano j\u00e1 somam 288 os assassinatos por viol\u00eancia. \u201cAo entrar na lista da criminalidade organizada, as fam\u00edlias j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam acesso ao prontu\u00e1rio, nem podem pressionar as autoridades para que esclare\u00e7am o crime\u201d, explicou David, assegurando, ainda, que nestes quatro anos \u201cdiminu\u00edram\u201d os avan\u00e7os que a sociedade civil havia conseguido em mat\u00e9ria de direitos humanos.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno se estende a todo o pa\u00eds. Um informe de abril da Comiss\u00e3o Especial de Feminic\u00eddios da C\u00e2mara dos Deputados indica que, desde 2007, foram registrados 1.756 homic\u00eddios dolosos contra mulheres em 18 Estados, dos quais em apenas 3% h\u00e1 senten\u00e7a, sem que exista registro sobre condenados ou n\u00e3o. \u201cN\u00e3o h\u00e1 registros e os que existem s\u00e3o insuficientes\u201d, resumiu a presidente da Comiss\u00e3o, deputada Teresa Inch\u00e1ustegui, do opositor Partido Revolucion\u00e1rio Democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres mortas ou o aumento de seu n\u00famero n\u00e3o s\u00e3o o \u00fanico problema\u201d, disse \u00e0 IPS Sara Lovera, pioneira no M\u00e9xico do jornalismo com enfoque de g\u00eanero. \u201cEst\u00e1 constatado historicamente: sempre que h\u00e1 uma guerra, as mulheres s\u00e3o as v\u00edtimas\u201d, afirmou. \u201cA presen\u00e7a dos militares nas ruas aumenta a vulnerabilidade das mulheres, as coloca em risco, gera medo e, sobretudo, n\u00e3o prestam contas de seus abusos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Sara deu com exemplo o caso de Casta\u00f1os, localidade do Estado de Coahuila, onde em julho de 2006 foram violentadas 13 bailarinas em um centro noturno por um grupo de soldados. Dos acusados, 80% est\u00e3o livres, recordou. O M\u00e9xico \u00e9 a mais recente express\u00e3o na Am\u00e9rica Latina da liga\u00e7\u00e3o entre militarismo e viol\u00eancia de g\u00eanero, tema central dos 16 dias de ativismo contra maus-tratos sexistas, que come\u00e7a no mundo hoje, Dia Internacional da Elimina\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia contra a Mulher.<\/p>\n<p>\u201cEm qualquer circunst\u00e2ncia em que o ex\u00e9rcito participa ativamente, as mulheres se convertem em trof\u00e9u de guerra e s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis \u00e0s agress\u00f5es\u201d, disse Blanca Rico, diretora-executiva da n\u00e3o governamental Sementes, promotora dos direitos da mulher. O problema, disse, \u00e9 que da parte do Estado n\u00e3o h\u00e1 mecanismo algum de conten\u00e7\u00e3o ou repara\u00e7\u00e3o do dano. E mesmo as pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o tendo de rever suas metas para fazer o diagn\u00f3stico que o governo n\u00e3o quer aceitar.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um fen\u00f4meno de excesso total. A Sementes nunca teve com tema central a defesa de direitos humanos porque n\u00e3o acontecia o que acontece hoje: um brutal aumento de amea\u00e7as, que \u00e9 constante. Todas est\u00e3o sendo acossadas, amea\u00e7adas\u201d, contou Blanca. Os \u201cdanos colaterais\u201d da viol\u00eancia generalizada no pa\u00eds ainda n\u00e3o podem ser quantificados, mas s\u00e3o um poliedro de muitas faces afirmam os especialistas. Est\u00e3o, por exemplo, os casos de presas sob acusa\u00e7\u00e3o de \u201cserem mulheres de narcotraficantes\u201d, sem que haja provas de sua participa\u00e7\u00e3o em algum delito. Ou o aumento da prostitui\u00e7\u00e3o em lugares onde h\u00e1 acampamentos militares.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 o uso e abuso das mulheres. Algo que acontecia em regi\u00f5es muito espec\u00edficas onde havia presen\u00e7a militar, mas agora se espalhou\u201d, disse Sara. A organiza\u00e7\u00e3o Human Rights Watch (HRW) criticou o governo por sua proposta de reforma do sistema de justi\u00e7a militar e de seu foro especial. No dia 23, pediu a exclus\u00e3o da jurisdi\u00e7\u00e3o militar de crimes de agress\u00e3o sexual e viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, entre outros.<\/p>\n<p>O C\u00f3digo de Justi\u00e7a Militar, de 1933, atua para crimes cometidos por militares da ativa no desempenho de suas fun\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o inclui crimes cometidos por militares contra civis, por ter sido elaborado para uma situa\u00e7\u00e3o de guerra. O caso da fam\u00edlia Esparza \u00e9 um exemplo. Quando aconteceram os fatos, as mulheres da aldeia de Sinaloa de Leyva, onde as professoras mortas davam aula, aproveitaram a chegada de jornalistas para cobrir o caso e se reuniram e cobraram do presidente Calder\u00f3n o esclarecimento do massacre.<\/p>\n<p>Mais de tr\u00eas anos depois, a fam\u00edlia n\u00e3o recebeu desculpa p\u00fablica, nem mesmo uma nota de condol\u00eancias. N\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o oficial do julgamento militar contra os 19 soldados envolvidos. \u201cAs provas existentes indicam que os soldados dispararam sem justificativa\u201d contra o carro onde viajavam as cinco pessoas mortas e os tr\u00eas sobreviventes, afirma o informe \u201cImpunidade Uniformizada\u201d, divulgado no ano passado pela HRW. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidade do M\u00e9xico, M\u00e9xico, 26\/11\/2010 &ndash; Elas n\u00e3o pediram uma guerra, mas foram afetadas: Griselda e Yosmireli, de quatro e dois anos, morreram com o cr\u00e2nio perfurado pelas balas dos soldados. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/11\/america-latina\/mexico-outra-guerra-que-torna-invisivel-a-violencia-sexista\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6],"tags":[21,24],"class_list":["post-7461","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7461","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/51"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7461"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7461\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7461"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7461"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7461"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}