{"id":7490,"date":"2010-12-01T13:48:28","date_gmt":"2010-12-01T13:48:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7490"},"modified":"2010-12-01T13:48:28","modified_gmt":"2010-12-01T13:48:28","slug":"mitigando-feridas-abertas-pelo-progresso-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/12\/america-latina\/mitigando-feridas-abertas-pelo-progresso-na-amazonia\/","title":{"rendered":"Mitigando feridas abertas pelo progresso na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>Porto Velho, Rond\u00f4nia, Brasil, 01\/12\/2010 &ndash; \u201cQueremos uma indeniza\u00e7\u00e3o verdadeira\u201d, reclama Luis Nascimento de Freitas, um pescador de Vila Teot\u00f4nio, o povoado localizado na margem do Rio Madeira que ser\u00e1 inundado para forma\u00e7\u00e3o da represa da Central Hidrel\u00e9trica Santo Ant\u00f4nio.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7490\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/97002-20101130.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7490\" class=\"size-medium wp-image-7490\" title=\"Vila Teot\u00f4nio, condenada \u00e0 inunda\u00e7\u00e3o. - Mario Osava\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/97002-20101130.jpg\" alt=\"Vila Teot\u00f4nio, condenada \u00e0 inunda\u00e7\u00e3o. - Mario Osava\" width=\"210\" height=\"158\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7490\" class=\"wp-caption-text\">Vila Teot\u00f4nio, condenada \u00e0 inunda\u00e7\u00e3o. - Mario Osava<\/p><\/div>  O cons\u00f3rcio que constroi a usina oferece uma casa melhor \u00e0s fam\u00edlias desalojadas, reconhece. Mas, alerta que n\u00e3o ser\u00e3o indenizados devidamente \u201cpela perda de sua fonte de renda\u201d, que s\u00e3o a pesca e o turismo \u201cN\u00f3s, nativos, somos os \u00fanicos prejudicados, viveremos em uma bela casa, mas sem dinheiro no bolso\u201d, ressalta Freitas.<\/p>\n<p>Esta insatisfa\u00e7\u00e3o reflete os conflitos gerados pelas usinas hidrel\u00e9tricas que se multiplicam na Amaz\u00f4nia brasileira e peruana. O progresso, que sempre exige mais energia, atropela ind\u00edgenas, pescadores e outros povos ribeirinhos, sacrificando seu habitat e, por fim, a diversidade biol\u00f3gica e cultural. Mesmo assim, a Santo Ant\u00f4nio Energia (SAE), associa\u00e7\u00e3o de sete empresas e fundos de investimento que ganhou a concess\u00e3o, afirma que a central em constru\u00e7\u00e3o inaugura um \u201cnovo modelo\u201d no Brasil, ao realizar uma gigantesca obra de infraestrutura que promove desenvolvimento social e a valoriza\u00e7\u00e3o dos recursos naturais.<\/p>\n<p>As 104 fam\u00edlias que viviam ao lado da cascata de Teot\u00f4nio puderam escolher entre receber R$ 120 mil, em m\u00e9dia, para comprar uma casa em outro lugar e sobreviver na transi\u00e7\u00e3o, ou se mudar para o novo povoado erguido para receb\u00ea-las, distante dois quil\u00f4metros. A Vila Nova Teot\u00f4nio conta com 72 casas coloridas e saud\u00e1veis, feitas com placas pr\u00e9-fabricadas e com grandes quintais, escola, quadras e equipamentos de lazer, al\u00e9m de lojas para os que tinham restaurantes e outros neg\u00f3cios na velha e r\u00fastica vila de madeira.<\/p>\n<p>Este m\u00eas, 42 fam\u00edlias se mudaram para o novo povoado, onde se pretende restaurar a tradi\u00e7\u00e3o pesqueira e culin\u00e1ria do anterior, ao se aproximar da margem da represa dentro de tr\u00eas ou quatro anos. A maioria preferiu o dinheiro e se mudar para uma cidade mais pr\u00f3xima. \u201cMas, quem sai volta. Gastam o dinheiro e voltam \u00e0 pesca, n\u00e3o sabem fazer outra coisa\u201d, afirma Jos\u00e9 dos Santos, que \u201cpor press\u00e3o familiar\u201d comprou uma casa em Porto Velho, capital de Rond\u00f4nia. \u201cNasci aqui e vivi aqui, agora terei de buscar outro neg\u00f3cio\u201d, lamenta o pescador e dono de duas embarca\u00e7\u00f5es para turismo de pesca.<\/p>\n<p>A represa afetar\u00e1 1.175 fam\u00edlias rurais e 504 urbanas em processo de reassentamento ou indeniza\u00e7\u00e3o, cerca de um quarto negocia suas reclama\u00e7\u00f5es, organizadas no Movimento de Afetados por Represas (MAB). As queixas por maior indeniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se contradizem com as melhorias no tratamento aos desalojados. O MAB, s\u00f3 agora reconhecido como interlocutor, estima que s\u00e3o mais de um milh\u00e3o de fam\u00edlias expulsas por hidrel\u00e9tricas j\u00e1 constru\u00eddas no Brasil e que 70% delas n\u00e3o respeitaram seus direitos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o inimagin\u00e1vel hoje, em que a aprova\u00e7\u00e3o ambiental dos projetos exige indenizar e reassentar os afetados. Seus custos fazem parte do or\u00e7amento e isso ajuda a encarecer a energia no Brasil, segundo os cr\u00edticos das exig\u00eancias ambientais. A hidrel\u00e9trica de Santo Ant\u00f4nio precisa desenvolver 28 programas para mitigar ou compensar impactos ambientais e sociais, como condi\u00e7\u00e3o para sua constru\u00e7\u00e3o e futura opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, nada aconteceu, apesar dos temores de trag\u00e9dias que supostamente seriam causadas pela central de Santo Ant\u00f4nio e Jirau, a outra hidrel\u00e9trica em constru\u00e7\u00e3o 120 quil\u00f4metros acima no mesmo Madeira, ambas iniciadas h\u00e1 dois anos e com um ter\u00e7o da obra j\u00e1 pronta. N\u00e3o foi registrada nenhuma epidemia incontrol\u00e1vel de mal\u00e1ria e tampouco uma explosiva migra\u00e7\u00e3o para a cidade de Porto Velho, a dez quil\u00f4metros de Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, \u201chouve forte redu\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria\u201d em \u00e1reas de impacto direto de Santo Ant\u00f4nio, afirma Jos\u00e9 Carlos de S\u00e1, analista de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais da empresa, atribuindo isso ao programa de preven\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica, que distribuiu mais de 14 mil mosquiteiros impregnados de inseticida \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e diversos equipamentos \u00e0 prefeitura local. Os 19.950 casos diagnosticados no ano passado em Porto Velho foram 12,9% inferiores aos de 2008, segundo a Secretaria Municipal de Sa\u00fade. Dados parciais indicam tend\u00eancia semelhante este ano.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se pode afirmar que esse resultado seja produto do trabalho da empresa\u201d, afirma Tony Katsuragawa, bi\u00f3logo coordenador de Epidemiologia do Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais (Ipepatro). \u00c9 que a mal\u00e1ria diminuiu em toda a Amaz\u00f4nia desde 2005, sem causas comprovadas, mas que podem incluir uma combina\u00e7\u00e3o de fatores naturais, como estiagens mais prolongadas, desmatamento e ciclos da doen\u00e7a, acrescentou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a tend\u00eancia variou nas nove regi\u00f5es administrativas do munic\u00edpio de Porto Velho e os dados mensais do Sistema de Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade indicam aumento de casos em algumas regi\u00f5es a partir de 2008, quando come\u00e7ou a constru\u00e7\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio, afirma. \u201cN\u00e3o houve a explos\u00e3o\u201d prevista pela aglomera\u00e7\u00e3o humana nas margens do rio, reconhece o pesquisador Tony, mas a situa\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria mudou tamb\u00e9m em todo o pa\u00eds, e a grande prova vir\u00e1 quando se encher a represa da hidrel\u00e9trica, multiplicando locais prop\u00edcios para a reprodu\u00e7\u00e3o dos mosquitos vetores.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o aconteceu a explos\u00e3o demogr\u00e1fica com ao afluxo de cem mil pessoas buscando emprego em Porto Velho, munic\u00edpio de 426.558 habitantes, segundo o censo deste ano, 91.973 a mais do que em 2000. As hidrel\u00e9tricas atra\u00edram pouco mais de 40 mil pessoas, segundo a prefeitura. Os efeitos s\u00e3o sentidos nos pre\u00e7os elevados de im\u00f3veis e no d\u00e9ficit de escolas, mas, com as duas obras oferecendo cerca de 30 mil empregos diretos e grandes empresas instalando-se na cidade, o desemprego n\u00e3o se agravou.<\/p>\n<p>Em Santo Ant\u00f4nio, entre 84% e 86% dos empregados s\u00e3o antigos residentes do lugar, afirma Eduardo Bezerra, Rela\u00e7\u00f5es Institucionais da Odebrecht, a construtora que lidera a sociedade concession\u00e1ria. Inicialmente, a meta era ter 30% de m\u00e3o-de-obra local. Para capacitar os trabalhadores, a Odebrecht criou em Porto Velho o programa Acreditar, que j\u00e1 se estendeu a outras cidades e deu cursos b\u00e1sicos e t\u00e9cnicos a 54 mil jovens e adultos de todo o Brasil.<\/p>\n<p>Santo Ant\u00f4nio tamb\u00e9m \u00e9 a primeira grande central brasileira de turbinas do tipo bulbo, movimentadas pela for\u00e7a do curso d\u2019\u00e1gua, e n\u00e3o por sua queda. Por isto, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma grande represa, reduzindo o impacto ambiental. Suas 44 turbinas v\u00e3o gerar pot\u00eancia de 3.150 megawatts. Tantos avan\u00e7os n\u00e3o redimem o pecado de bloquear um grande rio amaz\u00f4nico, destruindo ecossistemas, biodiversidade e a vida de milhares de pessoas, para enriquecer as construtoras e ind\u00fastrias de grande consumo energ\u00e9tico, segundo ambientalistas como Telma Monteiro, coordenadora da Energia da Kanind\u00e9 Associa\u00e7\u00e3o de Defesa Etnoambiental.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, \u201cn\u00e3o \u00e9 verdade\u201d o uso alardeado de m\u00e3o-de-obra local, porque os cons\u00f3rcios contratam empresas que trazem seu pessoal de longe. Al\u00e9m disso, as concession\u00e1rias das duas hidrel\u00e9tricas no Rio Madeira violam as leis, ao modificarem os projetos aprovados, sem fazer novos estudos de impacto ambiental, afirmou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Velho, Rond\u00f4nia, Brasil, 01\/12\/2010 &ndash; \u201cQueremos uma indeniza\u00e7\u00e3o verdadeira\u201d, reclama Luis Nascimento de Freitas, um pescador de Vila Teot\u00f4nio, o povoado localizado na margem do Rio Madeira que ser\u00e1 inundado para forma\u00e7\u00e3o da represa da Central Hidrel\u00e9trica Santo Ant\u00f4nio. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/12\/america-latina\/mitigando-feridas-abertas-pelo-progresso-na-amazonia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5,11],"tags":[],"class_list":["post-7490","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7490","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7490"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7490\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7490"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7490"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7490"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}