{"id":7538,"date":"2010-12-10T13:16:22","date_gmt":"2010-12-10T13:16:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7538"},"modified":"2010-12-10T13:16:22","modified_gmt":"2010-12-10T13:16:22","slug":"amazonia-esquecida-se-faz-visivel-na-espanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/12\/america-latina\/amazonia-esquecida-se-faz-visivel-na-espanha\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia esquecida se faz vis\u00edvel na Espanha"},"content":{"rendered":"<p>Madri, Espanha, 10\/12\/2010 &ndash; A Amaz\u00f4nia, esquecida, esse imenso territ\u00f3rio da Am\u00e9rica do Sul, est\u00e1 presente na Espanha esta semana, com a apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u201cRua Amazonas, de Manaus a Bel\u00e9m, pelo Brasil Esquecido\u201d, do jornalista e fot\u00f3grafo Bernardo Guti\u00e9rrez.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7538\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/84628.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7538\" class=\"size-medium wp-image-7538\" title=\"Um povoado da Amaz\u00f4nia brasileira, \u00e0s margens do Rio Iaco. - Mario Osava \/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/84628.jpg\" alt=\"Um povoado da Amaz\u00f4nia brasileira, \u00e0s margens do Rio Iaco. - Mario Osava \/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7538\" class=\"wp-caption-text\">Um povoado da Amaz\u00f4nia brasileira, \u00e0s margens do Rio Iaco. - Mario Osava \/IPS<\/p><\/div>  Na obra s\u00e3o mostradas, por exemplo, as grandes contradi\u00e7\u00f5es entre o afirmado no s\u00e9culo passado pelo ingl\u00eas William Henry Giles Kingston (1814-1880) e o realizado nessa regi\u00e3o pelo bispo D. Pedro Casald\u00e1liga, criador e diretor da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra e do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>O ingl\u00eas, residente por longos anos em Portugal e famoso por seus relatos juvenis, escreveu: \u201cEspero que a hist\u00f3ria de minhas aventuras anime os mission\u00e1rios a empreenderem a viagem pelo Amazonas e suas ribeiras, para difundir a verdadeira f\u00e9 entre seus selvagens moradores\u201d. Guti\u00e9rrez relata seu encontro com D. Casald\u00e1liga, o \u201cpadre vermelho\u201d de origem espanhola, mission\u00e1rio no Brasil desde 1968, e como soube por outros que \u201cseguir ao p\u00e9-da-letra o Evangelho fez o bispo de 82 anos pagar um pre\u00e7o muito alto\u201d. D. Casald\u00e1liga sofreu \u201cdezenas de amea\u00e7as de morte\u201d, cinco processos para ser deportado e oito mal\u00e1rias, al\u00e9m dos ataques da hierarquia cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Guti\u00e9rrez, que trabalhou para \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o da Espanha, Fran\u00e7a, M\u00e9xico, It\u00e1lia e Portugal, entre outros, morou no Brasil de janeiro de 2004 at\u00e9 o final de 2008, quando percorreu de ponta a ponta a Amaz\u00f4nia, uma terra que define como \u201cde duplo fio\u201d e \u201cao mesmo tempo c\u00e9u e inferno verde\u201d. O autor, de 35 anos, explicou \u00e0 IPS que decidiu escrever mais um livro sobre uma regi\u00e3o que conta com abundante bibliografia porque na medida em que adentrava nela se encontrava com novos fatos, contradi\u00e7\u00f5es desconhecidas e, em especial, um choque brutal entre o passado ancestral da selva e seu presente.<\/p>\n<p>Por isso, sem deixar de lado a leitura de artigos e livros sobre a Amaz\u00f4nia, que come\u00e7ou em sua adolesc\u00eancia, viajou bastante pela regi\u00e3o e recolheu testemunhos diretos, especialmente dos povos ind\u00edgenas e dos descendentes dos escravos negros, contou. No livro h\u00e1 um deixar-se levar por pessoas e viv\u00eancias, como um antigo morador da cidade de S\u00e3o Paulo que encontrou nas margens de um lago, no Estado do Amazonas, que, farto da desumaniza\u00e7\u00e3o capitalista, foi viver na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele lhe apresentou, na vizinha Vila Sama\u00fama, a dois homens que esperavam por um grupo de norte-americanos, \u201csua \u00fanica fonte de renda\u201d. Estes lhe contaram que o grupo que esperavam vinha pescar esp\u00e9cies em risco de extin\u00e7\u00e3o pagando por isso \u201cuma quantidade descomunal \u00e0s autoridades ambientais do Estado para poderem fazer isso legalmente\u201d, e depois \u201cpassavam dias navegando, pescando e bebendo enorme quantidade de cerveja\u201d.<\/p>\n<p>De suas leituras recorda, como uma que o marcou especialmente, uma reportagem publicada em 1969 no Sunday Times, ilustrada com a foto de um menino pobre que tinha como legenda uma frase contundente: &#8220;Com o fogo, a espada, o ars\u00eanico e as balas, a civiliza\u00e7\u00e3o levou seis milh\u00f5es de ind\u00edgenas \u00e0 extin\u00e7\u00e3o&#8221;. Atualmente, destaca o autor, h\u00e1 muitos exemplos da explora\u00e7\u00e3o, como a produ\u00e7\u00e3o do guaran\u00e1, planta de usos ancestrais, cujos extratos empresas transnacionais transformam em bebida estimulante, que inclusive j\u00e1 exportam para a Europa, como a da marca Ant\u00e1rctica, produzida em parceria com a Pepsi-Cola.<\/p>\n<p>Ali tamb\u00e9m se encontrou com Pedro Patacho, \u201cum ind\u00edgena de 66 anos\u201d, que produz 500 quilos anuais de guaran\u00e1 e se nega a receber sementes clonadas porque \u201cmesmo sendo mais baratas te fazem depender de pesticidas que \u00e9 preciso comprar\u201d. Nessa selva, disse Guti\u00e9rrez, a partir do S\u00e9culo 16 se formaram os quilombos, que abrigava os escravos libertados ou fugitivos, dos quais persistem oficialmente cerca de 1.400 reconhecidos pelo Estado como comunidades autogestoras. O autor visitou os que est\u00e3o organizados na Associa\u00e7\u00e3o de Quilombos do Munic\u00edpio Oriximin\u00e1.<\/p>\n<p>Nessa localidade do Estado do Par\u00e1, um morador, Francisco Hugo de Souza, lhe contou que o primeiro t\u00edtulo de terra de um quilombo foi conseguido em 1994. Nilda, sua mulher, lhe recitou alguns versos an\u00f4nimos \u201csimples, mas de uma for\u00e7a brutal\u201d. \u201cEstamos chegando ao fundo da terra\/estamos chegando do ventre da noite\/do a\u00e7oite\/viemos recordar\/estamos chegando da morte dos mares\/estamos chegando dos escuros s\u00f3t\u00e3os\/herdeiros da ben\u00e7\u00e3o somos\/viemos para chorar\u201d, dizem.<\/p>\n<p>S\u00e3o frases, afirmou Guti\u00e9rrez, para entender s\u00e9culos de pesadelos. \u201cOs pr\u00f3prios habitantes desconhecem sua origem. As lembran\u00e7as s\u00e3o confusas, obscurecidas. Imagens que o tempo se encarregou de guardar como se estivessem em um filme em preto e branco\u201d, explicou. S\u00e3o \u201clembran\u00e7as obscuras, dores latentes, acrescentou. Medo end\u00eamico do branco, do disparo certeiro, do sequestro\u201d. Nilda contou que em sua juventude, quando algu\u00e9m via chegar uma lancha ou via homens brancos, \u201csa\u00eda correndo para avisar a comunidade\u201d.<\/p>\n<p>Os habitantes da maioria dos quilombos no Par\u00e1 acabaram expulsos ap\u00f3s a declara\u00e7\u00e3o da Reserva Biol\u00f3gica do Rio Trombetas, em 1979, e a institui\u00e7\u00e3o do Parque Nacional de Sarac\u00e1 Taquera, dez anos depois, quando foi proibida nessas \u00e1reas protegidas toda atividade humana. Em seu subsolo repousa uma das maiores reservas de bauxita do mundo, o que aumenta a press\u00e3o das empresas multinacionais sobre ela.<\/p>\n<p>Em outra parte, por uma estrada paralela \u00e0 Transamaz\u00f4nica, Guti\u00e9rrez chegou ao sul do Par\u00e1. A estrada \u00e9 conhecida como Expresso da Escravid\u00e3o, porque por ela chegam, a esta parte de selva, trabalhadores de todo o pa\u00eds. Contou que \u201cdormem em lonas, barracas de palha, envoltos por mosquitos. Em propriedades isoladas, em meio \u00e0 selva. Sem banheiro, nem \u00e1gua pot\u00e1vel. Quase sem possibilidade de fuga, \u00e0 merc\u00ea da desnutri\u00e7\u00e3o e da mal\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m acontece uma forte urbaniza\u00e7\u00e3o, que produziu pelo menos 95.355 quil\u00f4metros de estradas n\u00e3o oficiais, dez vezes mais do que as oficiais. Por isso e por seus relatos pessoas, disse o autor \u00e0 IPS, seu livro \u201c\u00e9 uma viagem pela Amaz\u00f4nia urbana, contempor\u00e2nea, onde h\u00e1 redes sociais, f\u00e1bricas, chips, al\u00e9m de ind\u00edgenas\u201d. Em suma, a vida atrav\u00e9s dos mais de seis mil quil\u00f4metros do Rio Amazonas e dos seus demais afluentes ou rios paralelos, que em mais de uma ocasi\u00e3o o abastecem, nesta m\u00edtica bacia que, ontem como hoje, preserva o planeta. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madri, Espanha, 10\/12\/2010 &ndash; A Amaz\u00f4nia, esquecida, esse imenso territ\u00f3rio da Am\u00e9rica do Sul, est\u00e1 presente na Espanha esta semana, com a apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u201cRua Amazonas, de Manaus a Bel\u00e9m, pelo Brasil Esquecido\u201d, do jornalista e fot\u00f3grafo Bernardo Guti\u00e9rrez. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/12\/america-latina\/amazonia-esquecida-se-faz-visivel-na-espanha\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":205,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12],"tags":[19],"class_list":["post-7538","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","tag-arte-y-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7538","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/205"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7538"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7538\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7538"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7538"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7538"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}