{"id":7645,"date":"2011-01-10T14:32:15","date_gmt":"2011-01-10T14:32:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7645"},"modified":"2011-01-10T14:32:15","modified_gmt":"2011-01-10T14:32:15","slug":"haiti-o-ano-que-vivemos-em-perigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/01\/direitos-humanos\/haiti-o-ano-que-vivemos-em-perigo\/","title":{"rendered":"HAITI: O ano que vivemos em perigo"},"content":{"rendered":"<p>Porto Pr\u00edncipe, Haiti, 10\/01\/2011 &ndash; Faltando dois dias para completar um ano do terremoto de 12 de janeiro de 2010, quase um milh\u00e3o de pessoas continuam morando em acampamentos improvisados, em barracas, ou sob prec\u00e1rias lonas ou telas pl\u00e1sticas na capital do Haiti. Dieula Rosemond \u00e9 uma delas.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7645\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/85404.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7645\" class=\"size-medium wp-image-7645\" title=\"Dieula Rosemond, \u00e0 direita, lidera um protesto diante do escrit\u00f3rio do primeiro-ministro quando se completaram nove meses do terremoto. - Ansel Herz\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/85404.jpg\" alt=\"Dieula Rosemond, \u00e0 direita, lidera um protesto diante do escrit\u00f3rio do primeiro-ministro quando se completaram nove meses do terremoto. - Ansel Herz\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7645\" class=\"wp-caption-text\">Dieula Rosemond, \u00e0 direita, lidera um protesto diante do escrit\u00f3rio do primeiro-ministro quando se completaram nove meses do terremoto. - Ansel Herz\/IPS<\/p><\/div>  \u201cN\u00e3o posso mais viver assim\u201d, disse, sentada sob a escassa sombra de uma palmeira solit\u00e1ria, com as m\u00e3os cruzadas sobre a saia. Atr\u00e1s dela, meninas brincavam com uma boneca p\u00e1lida e esfarrapada. Era mais um dia no acampamento Imakile Deplase.<\/p>\n<p>O terremoto, de sete graus na escala Richter, deixou cerca de 230 mil mortos, aos quais agora se somam os aproximadamente 3.500 causados por uma epidemia de c\u00f3lera. \u201cQuero que em 2011 haja uma mudan\u00e7a no Haiti. E tamb\u00e9m quero ver uma mudan\u00e7a nos que dizem que est\u00e3o ajudando o Haiti. Porque n\u00f3s, que vivemos debaixo das lonas, tivemos um ano horr\u00edvel\u201d, afirmou Dieula. Ela e seu marido, Joseph, perderam seu meio de sustento com o desmoronamento de sua pequena casa, que tamb\u00e9m funcionava como com\u00e9rcio de conserto de produtos eletr\u00f4nicos em Cit\u00e9 Soleil, um assentamento no extremo norte de Porto Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>At\u00e9 julho do ano passado, eles, e pelo menos outras 50 fam\u00edlias, viviam em Plas Imakile, uma pra\u00e7a p\u00fablica. Durante semanas sofreram os ataques noturnos de um grupo que tentava expuls\u00e1-los da propriedade. Joseph Rosemond foi at\u00e9 uma base conjunta das for\u00e7as da ONU e da pol\u00edcia haitiana pedir ajuda. Mas as poucas patrulhas que passaram pelo local nunca se detiveram. A gangue simplesmente esperou at\u00e9 que partissem para entrar no acampamento e aterrorizar os moradores, cortando as lonas com fac\u00f5es.<\/p>\n<p>Na base, o tenente brasileiro Edison Campista disse \u00e0 IPS ter conhecimento desta realidade, mas que n\u00e3o podia fazer nada al\u00e9m de aumentar a frequ\u00eancia das patrulhas. Tamb\u00e9m admitiu que a gangue podia evitar as autoridades com seus integrantes se comunicando por celular. A pol\u00edcia haitiana tratou Joseph com desd\u00e9m, dizendo que exagerava as amea\u00e7as que enfrentava no acampamento. Os ataques continuaram. Um homem teve roubado seu celular e apanhou na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM), vinculada \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, disse a eles que esperassem at\u00e9 ser poss\u00edvel encontrar outro lugar. Finalmente, os Rosemond e os demais se foram, mudando para um local a cerca de 800 metros de dist\u00e2ncia, perto de um canal hediondo. As cabras baliam ao subirem em pequenos montes de lixo. Nesse acampamento, chamado Imakile Deplase, as mortes por c\u00f3lera aumentaram para quase 3.500.<\/p>\n<p>No come\u00e7o de novembro, um jovem que morava ali pegou a doen\u00e7a e foi levado a um hospital da organiza\u00e7\u00e3o M\u00e9dicos Sem Fronteiras. Ao regressar, sua mulher e filhos estavam infectados. Sua fam\u00edlia foi a primeira de v\u00e1rias a ficar doente. A M\u00e9dicos Sem Fronteiras informa que, desde o surgimento da epidemia, em outubro, tratou de 63 pacientes com c\u00f3lera. O l\u00edder da organiza\u00e7\u00e3o criticou a ONU e outras entidades de assist\u00eancia pela onda de doen\u00e7as previs\u00edveis, dizendo que sua resposta \u00e9 \u201co fracasso mais recente do sistema de ajuda humanit\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Dieula Rosemond n\u00e3o votou nas elei\u00e7\u00f5es de 28 de novembro. Desde o ver\u00e3o liderou protestos em frente ao escrit\u00f3rio do primeiro-ministro e em seu acampamento, onde as fam\u00edlias gritavam, enquanto batiam em panelas: \u201cN\u00e3o votaremos at\u00e9 que nos deem casas\u201d. As \u201corganiza\u00e7\u00f5es e o governo continuam nos dando uma ajuda m\u00ednima. Mas precisamos de casas, como manda a Constitui\u00e7\u00e3o haitiana\u201d, afirmou, por sua vez, Sanon Renel, ativista de um novo comit\u00ea para deter as expuls\u00f5es for\u00e7adas.<\/p>\n<p>\u201cO primeiro-ministro n\u00e3o est\u00e1 aqui\u201d, disseram funcion\u00e1rios governamentais a Joseph, quando ele e outros l\u00edderes do acampamento entregaram uma carta detalhando suas necessidades ao escrit\u00f3rio de Jean-Max Bellerive. A Joseph asseguraram que o primeiro-ministro leria a carta e daria uma resposta, mas esta nunca chegou. Uma exposi\u00e7\u00e3o de desenhos de casas a serem constru\u00eddas para v\u00edtimas do terremoto estava programada para outubro do ano passado, mas foi adiada para este m\u00eas e agora para mar\u00e7o.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es de novembro afundaram o pa\u00eds em outra crise. Os principais candidatos exigiram a anula\u00e7\u00e3o ou disputaram os resultados preliminares. Milhares n\u00e3o puderam votar. \u201cVotei em Ren\u00e9 Pr\u00e9val em 2006. Pensei que ele poderia mudar as coisas. Pensei que ele estava do lado dos pobres. Pensei que traria de volta Jean-Bertrand Aristide\u201d, disse Dieula Rosemond. Foram os estrangeiros que o colocaram no poder, disse, acrescentando que \u201cele trabalha para eles\u201d.<\/p>\n<p>O ex-presidente Aristide foi tirado do pa\u00eds em fevereiro de 2004 em um avi\u00e3o norte-americano, num ato que seus partid\u00e1rios afirmam ter sido um golpe de Estado moderno. Os Estados Unidos disseram que ele pediu para ser levado ao ex\u00edlio. Em uma entrevista recente, publicada pelo jornal brasileiro Folha de S.Paulo, o diplomata brasileiro Ricardo Seitenfus, que representava a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americano no Haiti, disse que o n\u00facleo da comunidade internacional se reuniu no mesmo dia das ca\u00f3ticas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ali se falou de tirar Pr\u00e9val do pa\u00eds por avi\u00e3o. \u201cOuvi isso e fiquei horrorizado\u201d, contou Ricardo. O primeiro-ministro Bellerive chegou \u00e0 reuni\u00e3o, que incluiu pa\u00edses da OEA, da ONU e doadores. \u201cPerguntou se o mandato do presidente Pr\u00e9val estava sendo negociado. E se fez sil\u00eancio na sala\u201d, disse o diplomata, acrescentando que o secret\u00e1rio-geral adjunto da OEA, Albert Ramdin, nada falou.<\/p>\n<p>O conselho eleitoral do Haiti anunciou na semana passada que o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o poder\u00e1 acontecer at\u00e9 o final de fevereiro. Segundo a Constitui\u00e7\u00e3o, a gest\u00e3o de Pr\u00e9val deveria ter acabado no dia 7, passando o cargo ao sucessor. Observadores da OEA chegaram ao pa\u00eds ap\u00f3s os feriados para a contagem dos votos, processo aprovado pelo governo haitiano e pela comunidade internacional. A miss\u00e3o da OEA disse que no dia das elei\u00e7\u00f5es houve apenas \u201cirregularidades\u201d isoladas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, um estudo do Centro de Pesquisa em Economia e Pol\u00edtica, com sede em Washington, concluiu que houve fraude e inconsist\u00eancias superiores ao admitido pela OEA. \u201cSe a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos certificar estas elei\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 uma decis\u00e3o pol\u00edtica, que n\u00e3o ter\u00e1 nada a ver com o controle eleitoral\u201d, afirmou em um comunicado o codiretor do Centro, Mark Weisbrot. Um porta-voz da OEA n\u00e3o respondeu aos telefonemas nem aos emails pedindo que desse uma declara\u00e7\u00e3o sobre o caso.<\/p>\n<p>Ricardo disse na semana passada ao jornal brasileiro O Estado de S. Paulo que foi demitido da OEA no dia de Natal, pouco depois de ter concedido uma entrevista ao jornal su\u00ed\u00e7o Le Temps, na qual condenou o envolvimento da comunidade internacional no Haiti, dizendo que o pa\u00eds sofreu por causa de sua proximidade com os Estados Unidos.<\/p>\n<p>*Ansel Herz tem seu blog em http:\/\/mediahacker.org.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Pr\u00edncipe, Haiti, 10\/01\/2011 &ndash; Faltando dois dias para completar um ano do terremoto de 12 de janeiro de 2010, quase um milh\u00e3o de pessoas continuam morando em acampamentos improvisados, em barracas, ou sob prec\u00e1rias lonas ou telas pl\u00e1sticas na capital do Haiti. 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