{"id":7694,"date":"2011-01-19T13:35:28","date_gmt":"2011-01-19T13:35:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7694"},"modified":"2011-01-19T13:35:28","modified_gmt":"2011-01-19T13:35:28","slug":"regimes-arabes-temem-a-intifada-do-pao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/01\/africa\/regimes-arabes-temem-a-intifada-do-pao\/","title":{"rendered":"Regimes \u00e1rabes temem a \u201cIntifada do p\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Cairo, Egito, 19\/01\/2011 &ndash; \u201cRasgue meu cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o toque em meu p\u00e3o\u201d, diz um prov\u00e9rbio \u00e1rabe. N\u00e3o segui-lo pode ter um alto custo pol\u00edtico. <!--more--> Basta perguntar ao deposto presidente de Tun\u00edsia, Zine El-Abidine Ben Ali. Durante v\u00e1rias semanas, os tunisianos protestaram contra o alto desemprego, a corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica e a repress\u00e3o pol\u00edtica. Tamb\u00e9m se queixaram do alto custo dos alimentos b\u00e1sicos, como trigo, a\u00e7\u00facar e leite, cujos pre\u00e7os dispararam cerca de 25% na primeira semana deste m\u00eas. \u201cQueremos p\u00e3o, \u00e1gua e Ben Ali fora\u201d, gritava um grupo de manifestantes.<\/p>\n<p>No dia 14, depois que uma brutal repress\u00e3o e concess\u00f5es de \u00faltimo minuto n\u00e3o conseguiram conter os manifestantes, o presidente fugiu com sua fam\u00edlia para a Ar\u00e1bia Saudita. Analistas coincordam que Ben Ali, que governou o pa\u00eds com m\u00e3o dura durante 23 anos, subestimou o mal-estar p\u00fablico. Foi um erro capital para um governante veterano que, segundo um telegrama diplom\u00e1tico divulgado pelo Wikileaks, n\u00e3o tinha quase contato com seu povo.<\/p>\n<p>O presidente deveria ter recordado dos protestos de 1984 pelo pre\u00e7o do p\u00e3o, que deixaram 80 mortos e quase acabaram com o governo de seu antecessor, Habib Bourguiba. Manifesta\u00e7\u00f5es similares j\u00e1 haviam eclodido no Egito em 1977, no Marrocos em 1981 e na Jord\u00e2nia em 1989. Tamb\u00e9m foram protestos contra a alta no pre\u00e7o do p\u00e3o que quase deram aos isl\u00e2micos o controle do parlamento da Arg\u00e9lia, situa\u00e7\u00e3o que derivou em uma guerra civil que durou uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Procurar alimento barato \u00e9 parte de um pacto n\u00e3o escrito entre os regimes \u00e1rabes e seu povo. Desde a d\u00e9cada de 1950, os governantes do Oriente M\u00e9dio e do norte da \u00c1frica entregam alimentos subsidiados, como p\u00e3o, leite e ovos, para manter a massa calma. \u201cEmbora funcion\u00e1rios reconhe\u00e7am a carga que representam tais subs\u00eddios nos or\u00e7amentos nacionais, temem reduzi-los ou elimin\u00e1-los\u201d, disse o economista Abdel Fatah El-Gebali, do Centro Al-Ahram para Estudos Pol\u00edticos e Estrat\u00e9gicos. \u201cTemem causar uma infla\u00e7\u00e3o e uma agita\u00e7\u00e3o social\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Nos corredores do parlamento do Egito, pa\u00eds que destina cerca de 7% de seu produto interno bruto para subvencionar combust\u00edveis e alimentos, fala-se de planos para reestruturar este beneficio. O governo quer substituir o atual sistema em \u201cesp\u00e9cie\u201d por pagamentos em dinheiro aos que mais precisam. Mas o plano \u00e9 constantemente atrasado por funcion\u00e1rios governamentais que temem causar mal-estar no p\u00fablico.<\/p>\n<p>Os antiquados e ineficientes sistemas de subs\u00eddios aplicados de Rabat a Riad agora s\u00e3o questionados devido aos altos pre\u00e7os internacionais dos alimentos e dos combust\u00edveis. Os governos \u00e1rabes enfrentam um dilema: absorver os custos extras da infla\u00e7\u00e3o nos programas nacionais de subs\u00eddios, com risco de aumentar o d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio, ou permitir que os pre\u00e7os disparem, com a amea\u00e7a de desatar um levante popular. A Tun\u00edsia parece que escolheu mal.<\/p>\n<p>Naturalmente, a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico fator. \u00c9 a mescla de pobreza, alto desemprego, disparidade econ\u00f4mica e crescente custo de vida que converte a regi\u00e3o em um barril de p\u00f3lvora. Dados da Organiza\u00e7\u00e3o \u00c1rabe do Trabalho mostram que os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e do norte da \u00c1frica t\u00eam os mais altos \u00edndices de desemprego no mundo: m\u00e9dia de 14,5% no ano fiscal 2007-2008, contra a m\u00e9dia internacional de 5,7%. E as taxas podem ser ainda maiores, segundo estimativas n\u00e3o oficiais. No Egito, 20% da popula\u00e7\u00e3o sobrevive com US$ 2 por dia (a linha de pobreza reconhecida pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), na Arg\u00e9lia 23%, no Marrocos 14,3%, na Tun\u00edsia 12,8% e no I\u00eamen mais de 45%.<\/p>\n<p>O levante que derrubou o presidente tunisiano n\u00e3o foi um movimento pol\u00edtico, mas uma revolta espont\u00e2nea de cidad\u00e3os que n\u00e3o podiam atender suas necessidades b\u00e1sicas. Come\u00e7ou quando Mohammad Bouazziz, com 26 anos e diploma universit\u00e1rio, se imolou com fogo depois que a pol\u00edcia confiscou a carreta sem licen\u00e7a que usava para vender alimentos e sobreviver.<\/p>\n<p>\u201cOs tunisianos e os argelinos est\u00e3o famintos. Os eg\u00edpcios e os iemenitas est\u00e3o logo atr\u00e1s deles\u201d, escreveu o analista Mishaal Al Gergawi no jornal The Gulf News, dos Emirados \u00c1rabes Unidos. \u201cMohammad Bouazizi n\u00e3o se imolou porque n\u00e3o podia ter um blog ou votar. As pessoas se imolam por n\u00e3o poderem ver sua fam\u00edlia partir lentamente, n\u00e3o de tristeza, mas por profunda fome\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A morte do jovem no dia 17 de dezembro desatou uma agita\u00e7\u00e3o popular que derrubou o governo tunisiano e amea\u00e7a estender-se a outras na\u00e7\u00f5es \u00e1rabes. Os regimes da regi\u00e3o devem se preocupar? At\u00e9 agora conseguiram reter o poder por meio de elei\u00e7\u00f5es fingidas e neutralizando e desmoralizando a oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Mas uma Intifada (levante popular) pelo p\u00e3o pode ser uma for\u00e7a imposs\u00edvel de conter. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cairo, Egito, 19\/01\/2011 &ndash; \u201cRasgue meu cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o toque em meu p\u00e3o\u201d, diz um prov\u00e9rbio \u00e1rabe. 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