{"id":7732,"date":"2011-02-04T14:32:15","date_gmt":"2011-02-04T14:32:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7732"},"modified":"2011-02-04T14:32:15","modified_gmt":"2011-02-04T14:32:15","slug":"franca-o-manipulador-das-crises-africanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/02\/africa\/franca-o-manipulador-das-crises-africanas\/","title":{"rendered":"FRAN\u00c7A: O manipulador das crises africanas"},"content":{"rendered":"<p>Paris, Fran\u00e7a, 04\/02\/2011 &ndash; A Fran\u00e7a mant\u00e9m significativos la\u00e7os econ\u00f4micos e estreitos v\u00ednculos pol\u00edticos e militares com a Costa do Marfim, N\u00edger e Tun\u00edsia, atualmente envoltos em crises institucionais e crescentes protestos populares contra as elites nacionais acusadas de abusos e corrup\u00e7\u00e3o. <!--more--> Cerca de 1.250 empresas francesas constituem o motor da economia da Tun\u00edsia, onde uma mobiliza\u00e7\u00e3o social provocou este m\u00eas a queda e posterior fuga do presidente Zine El Abidine Ben Ali, que liderava o regime desde 1987.<\/p>\n<p>As empresas cobrem praticamente todos os setores, do t\u00eaxtil e vestu\u00e1rio, passando por microeletr\u00f4nica, autom\u00f3veis e aeron\u00e1utica, at\u00e9 o de servi\u00e7os. O investimento franc\u00eas nesse pa\u00eds atingiu US$ 191 bilh\u00f5es em 2009, o que converteu a Fran\u00e7a no principal s\u00f3cio econ\u00f4mico da regi\u00e3o do Magreb. Muitas dessas companhias t\u00eam estreitos v\u00ednculos com a fam\u00edlia Ben Ali. Por exemplo, 49% da operadora de telecomunica\u00e7\u00f5es Orange Tunisie pertencem ao outrora monop\u00f3lio franc\u00eas France Telecom. Os outros 51% s\u00e3o da Investec, a companhia de investimento do genro de Ben Ali, Marwan Mabrouk, acusado de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a coniv\u00eancia de empresas francesas com o regime da Tun\u00edsia podem explicar porque Paris, desde Fran\u00e7ois Mitterrand (1981-1995) at\u00e9 Nicolas Sarkozy adotava uma conduta complacente com Ben Ali, apesar das acusa\u00e7\u00f5es fundadas da corrup\u00e7\u00e3o generalizada e de graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. A complac\u00eancia francesa alcan\u00e7ou seu ponto m\u00e1ximo no dia 14, v\u00e9spera da fuga de Ben Ali do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dois dias antes, em meio \u00e0 sangrenta repress\u00e3o \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o popular contra o regime que deixou mais de cem mortos, a ministra francesa das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Mich\u00e8le Alliot-Marie, ofereceu ajuda policial e militar ao governo da Tun\u00edsia para pacificar o pa\u00eds. Tamb\u00e9m destacou que o direito de manifesta\u00e7\u00e3o deve ser respeitado tanto quanto o de seguran\u00e7a. V\u00e1rias fontes disseram que, com apoio expresso do presidente Sarkozy, ofereceu ajuda. \u201cDizer que na Tun\u00edsia h\u00e1 uma ditadura \u00e9 um exagero\u201d, disse o ministro franc\u00eas da Cultura, Fr\u00e9d\u00e9ric Mitterrand.<\/p>\n<p>Essa e outras declara\u00e7\u00f5es envergonharam a diplomacia francesa quando Ben Ali teve que abandonar o pa\u00eds. Um grupo de intelectuais franceses encabe\u00e7ados por Etienne Balibar, professor em\u00e9rito de filosofia pol\u00edtica da Universidade de Nanterre, noroeste de Paris, recordou que a pol\u00edtica externa da Fran\u00e7a \u201cse caracterizou pela desonrosa tradi\u00e7\u00e3o de complac\u00eancia com a ditadura tunisiana\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a fuga de Ben Ali, a Fran\u00e7a deveria apoiar as reclama\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas do povo tunisiano, disse Etienne, acrescentando que os argumentos utilizados por Paris para apoiar a ditadura na Tun\u00edsia na chamada guerra contra o terrorismo foram err\u00f4neos. Quando Sarkozy visitou a Tun\u00edsia, em abril de 2008, elogiou a repress\u00e3o do governo \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica. Ben Ali sufocou os mu\u00e7ulmanos e a oposi\u00e7\u00e3o em geral, mas, na verdade, o Isl\u00e3 radical nunca foi uma amea\u00e7a nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Informes dos servi\u00e7os secretos franceses, divulgados pelo jornal Le Monde, confirmaram essa situa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m mostraram um \u201cotimismo prudente\u201d a respeito do Isl\u00e3 radical na Tun\u00edsia. A Fran\u00e7a tamb\u00e9m mant\u00e9m importantes v\u00ednculos econ\u00f4micos em N\u00edger, onde uma junta militar expulsou em fevereiro de 2010 o presidente Mamadou Tandja, alegando que pretendia violar a Constitui\u00e7\u00e3o e que seu governo se corrompera com as divisas recebidas pela concess\u00e3o de minas de ur\u00e2nio \u00e0 companhia estatal francesa Areva.<\/p>\n<p>No final de 2009, Tandja convocou um referendo para poder apresentar-se para um terceiro mandato presidencial. O ur\u00e2nio representa 70% das exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. A Areva \u00e9 a principal companhia investidora em N\u00edger. Al\u00e9m disso, a presen\u00e7a militar e econ\u00f4mica da Fran\u00e7a na Costa do Marfim podem ter influenciado o comportamento de Paris em rela\u00e7\u00e3o ao presidente Laurent Gbagbo, que, segundo observadores internacionais, perdeu as elei\u00e7\u00f5es de 2010.<\/p>\n<p>Cerca de 700 companhias francesas controlam a economia marfinense, desde a lucrativa explora\u00e7\u00e3o dos campos de cacau e as exporta\u00e7\u00f5es, at\u00e9 a infraestrutura e as telecomunica\u00e7\u00f5es. Essas empresas pagam cerca de 50% do total de impostos do pa\u00eds, segundo dados oficiais. Atribui-se a Gbagbo, que assumiu a presid\u00eancia no final de 2000 depois de controvertidas elei\u00e7\u00f5es, o mal-estar que afeta este pa\u00eds da \u00c1frica ocidental desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>A Costa do Marfim, desde 2002, est\u00e1 praticamente dividida em duas. Um grupo armado ocupa o norte do pa\u00eds, enquanto no sudoeste, especialmente a capital, Yamoussoukro, e o centro econ\u00f4mico de Abidjan, est\u00e3o em m\u00e3os de Gbagbo. Uma for\u00e7a de paz da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, liderada por franceses, garante a divis\u00e3o do pa\u00eds e protege a \u00e1rea controlada por Gbagbo e a delicada reconcilia\u00e7\u00e3o entre o governo e os rebeldes.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es previstas para 2005, inicialmente, e depois para 2008, foram adiadas, o que permitiu a Gbagbo continuar controlando o pa\u00eds. Por\u00e9m, desde a eclos\u00e3o da guerra civil, as empresas francesas investiram US$ 370 bilh\u00f5es no pa\u00eds, o que prova que a instabilidade n\u00e3o foi prejudicial para os neg\u00f3cios. N\u00e3o surpreende que Gbagbo n\u00e3o esteja pronto para aceitar sua derrota eleitoral. A indigna\u00e7\u00e3o da comunidade internacional pela sua perman\u00eancia no governo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o efetiva quanto o apoio militar da Fran\u00e7a e de suas companhias. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paris, Fran\u00e7a, 04\/02\/2011 &ndash; A Fran\u00e7a mant\u00e9m significativos la\u00e7os econ\u00f4micos e estreitos v\u00ednculos pol\u00edticos e militares com a Costa do Marfim, N\u00edger e Tun\u00edsia, atualmente envoltos em crises institucionais e crescentes protestos populares contra as elites nacionais acusadas de abusos e corrup\u00e7\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/02\/africa\/franca-o-manipulador-das-crises-africanas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":109,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6,5,11],"tags":[18],"class_list":["post-7732","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-direitos-humanos","category-economia","category-politica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/109"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7732"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7732\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}