{"id":7773,"date":"2011-02-08T13:48:14","date_gmt":"2011-02-08T13:48:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7773"},"modified":"2011-02-08T13:48:14","modified_gmt":"2011-02-08T13:48:14","slug":"biodiversidade-venezuela-cacadores-da-medicina-perdida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/02\/america-latina\/biodiversidade-venezuela-cacadores-da-medicina-perdida\/","title":{"rendered":"BIODIVERSIDADE-VENEZUELA: Ca\u00e7adores da medicina perdida"},"content":{"rendered":"<p>Caracas, Venezuela, 08\/02\/2011 &ndash; Milh\u00f5es de doentes de c\u00e2ncer no mundo poder\u00e3o se beneficiar do medicamento taxol (paclitaxel), elaborado pelos laborat\u00f3rios dos Estados Unidos a partir de fungos como os das montanhas tepuy da Venezuela, sem nenhuma retribui\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades ind\u00edgenas que habitam essas paisagens desde tempos imemoriais <!--more--> Em outro caso, pesquisadores da Universidade Federal de Zurique, ap\u00f3s acordo com o governo venezuelano em 1998, penetraram no come\u00e7o desta d\u00e9cada nas comunidades yanomami, no extremo sul do pa\u00eds, para extrair plantas medicinais desses habitantes da Amaz\u00f4nia, bem como suas estrat\u00e9gias de manejo desses recursos.<\/p>\n<p>\u201cNossos pa\u00edses s\u00e3o muito vulner\u00e1veis \u00e0 biopirataria, no que \u00e9 praticamente uma invas\u00e3o das companhias farmac\u00eauticas globais. Ignoram acordos internacionais e se aproveitam da fraca vigil\u00e2ncia sobre nossa biodiversidade\u201d, disse \u00e0 IPS o pesquisador florestal Julio C\u00e9sar Centeno, da venezuelana Universidade de Los Andes. Mesmo assim, \u201cinsistir em apontar e trabalhar casos nas regi\u00f5es andina e amaz\u00f4nica contribui para progressos como a ado\u00e7\u00e3o, em outubro, do Protocolo de Nagoya\u201d, disse \u00e0 IPS Mar\u00eda Elisa Febres, advogada da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental ambientalista Vitalis.<\/p>\n<p>O Protocolo adotado na cidade japonesa de Nagoya normatiza o acesso a recursos gen\u00e9ticos, pauta a consulta \u00e0s comunidades em quest\u00e3o, e diz que os benef\u00edcios obtidos por empresas farmac\u00eauticas e de cosm\u00e9ticos com uso de animais, plantas e micro-organismos, sejam compartilhados com os pa\u00edses de onde esses recursos s\u00e3o extra\u00eddos. A Vitalis documentou o caso do taxol, nome comercial registrado pela empresa Bristol Myers Squibb para o paclitaxel, agente indicado para c\u00e2ncer de mama, ov\u00e1rio, pulm\u00e3o e sarcoma de Kaposi, e, provavelmente, \u00fatil no combate a psor\u00edase, doen\u00e7a renal polic\u00edstica, esclerose m\u00faltipla e Mal de Alzheimer.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2003, o taxol passou a marca de um milh\u00e3o de pacientes tratados, e alcan\u00e7a vendas m\u00e9dias superiores a US$ 1 bilh\u00e3o ao ano, por isso come\u00e7a a fazer frente \u00e0 competi\u00e7\u00e3o dos gen\u00e9ricos. O paclitaxel foi inicialmente obtido da \u00e1rvore Tejo do Pac\u00edfico (Taxus brevifolia), pr\u00f3pria da costa oeste dos Estados Unidos. Esta \u00e9 uma \u00e1rvore pequena, escassa, de crescimento lento, e o princ\u00edpio ativo do medicamento se concentra na casca do tronco, por isso, para extrair a mat\u00e9ria-prima se deve primeiro danificar, irremediavelmente, a \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Em geral, se consegue tr\u00eas miligramas de agentes anticancer\u00edgenos por quilo de casca, sendo necess\u00e1rio destruir tr\u00eas \u00e1rvores (27 quilos de casca) para extrair a dose necess\u00e1ria para o tratamento de um \u00fanico paciente. Por esta raz\u00e3o, h\u00e1 duas d\u00e9cadas come\u00e7ou uma \u201ccorrida\u201d para obter paclitaxel primeiro de outras \u00e1rvores do g\u00eanero taxus e, depois, de fungos que \u201cpossam ser reproduzidos mais facilmente e com menor custo, utilizando a capacidade da ind\u00fastria da biotecnologia\u201d, disse Gary Strobel, da norte-americana Universidade de Montana.<\/p>\n<p>Gary visitou paragens remotas em quatro continentes e constatou a produ\u00e7\u00e3o de paclitaxel em organismos presentes em plantas da Austr\u00e1lia, Nepal e Venezuela. Neste \u00faltimo caso, s\u00e3o fungos Stegolerium kukenani e Seimatoantlerium tepuiense, que crescem em plantas presentes nos montes tepuyes Kuken\u00e1n e Roraima, fronteiri\u00e7os entre Brasil, Guiana e Venezuela. Bem como a bact\u00e9ria Serratia marcescens, capaz de produzir o anticancer\u00edgeno Oocydina A.<\/p>\n<p>A \u00e1rea de onde foram extra\u00eddos estes micro-organismos, sem permiss\u00e3o ou consulta alguma aos envolvidos, \u00e9 o Parque Nacional Canaima, de 30 mil quil\u00f4metros quadrados, onde ficam as montanhas tepuyes, antiqu\u00edssimas, de paredes verticais e cumes quase planos. \u00c9 h\u00e1bitat da etnia ind\u00edgena pem\u00f3n, de 30 mil indiv\u00edduos, aproximadamente. Gary disse que h\u00e1 anos a Vitalis tentou \u201csem \u00eaxito\u201d contatar autoridades dos pa\u00edses onde esteve, coletou amostras na Venezuela em 1998, e que em algum momento nos cumes das montanhas \u201cn\u00e3o sabia se estava no Brasil, na Guiana ou na Venezuela\u201d.<\/p>\n<p>Mar\u00eda Elisa recordou que as investiga\u00e7\u00f5es de Gary deram lugar, nos Estados Unidos, a cerca de 50 patentes para a Universidade de Montana em associa\u00e7\u00e3o com laborat\u00f3rios como Bristol Myers e Cytoclonal Pharmaceutics, e algumas incluem, muito genericamente, \u201cmicro-organismos de qualquer fonte\u201d capazes de produzir taxol. No caso dos yanomami, talvez o povo mais antigo da Am\u00e9rica Latina, com 25 mil anos ou mais, no sul do que hoje \u00e9 a Venezuela e o norte do Brasil, Centeno recordou que o acordo entre a Universidade de Zurique e o governo venezuelano permitiu a oito cientistas su\u00ed\u00e7os investigarem ervas e pr\u00e1ticas medicinais desses ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u201cMas, segundo os yanomami, diante de cada enfermo eles n\u00e3o praticam medicina como conhecemos no Ocidente, mas magia e ritos espirituais que o mundo acad\u00eamico n\u00e3o reconhece, pois trabalha sobre subst\u00e2ncias e procedimentos com efeitos que possam ser demonstrados e repetidos experimentalmente\u201d, disse Julio C\u00e9sar. J\u00e1 o antrop\u00f3logo Daniel de Barandiar\u00e1n, em seu cl\u00e1ssico \u201cOs Filhos da Lua\u201d, mostra como o xam\u00e3 yanomami \u201ccura\u201d restabelecendo a rela\u00e7\u00e3o afetada entre o paciente e os \u201ch\u00edkola\u201d, ou for\u00e7as espirituais superiores associadas a g\u00eaneros animais ou vegetais.<\/p>\n<p>Dessa forma, \u201co saber acumulado pelos yanomami (algo que por d\u00e9cadas fizeram evangelizadores norte-americanos das Novas Tribos) e as subst\u00e2ncias obtidas em seu h\u00e1bitat podem ser apresentados, em Zurique, por exemplo, como uma descoberta que remunere com prest\u00edgio e dinheiro benefici\u00e1rios na Europa\u201d, explicou Julio C\u00e9sar. Ele destacou que pesquisadores de universidades da Venezuela tamb\u00e9m realizam prospec\u00e7\u00f5es de plantas e saberes entre comunidades como as yanomami, \u201ccom o argumento, talvez plaus\u00edvel, de recopilar a informa\u00e7\u00e3o antes que se perca por redu\u00e7\u00e3o do h\u00e1bitat ou do povo origin\u00e1rio\u201d. Entretanto, \u201cdever\u00edamos dar o exemplo como a consulta, a participa\u00e7\u00e3o e os benef\u00edcios compartilhados com as comunidades ind\u00edgenas que habitam as fronteiras da Venezuela em condi\u00e7\u00f5es materiais de muita necessidade\u201d, acrescentou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caracas, Venezuela, 08\/02\/2011 &ndash; Milh\u00f5es de doentes de c\u00e2ncer no mundo poder\u00e3o se beneficiar do medicamento taxol (paclitaxel), elaborado pelos laborat\u00f3rios dos Estados Unidos a partir de fungos como os das montanhas tepuy da Venezuela, sem nenhuma retribui\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades ind\u00edgenas que habitam essas paisagens desde tempos imemoriais <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/02\/america-latina\/biodiversidade-venezuela-cacadores-da-medicina-perdida\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,4,11,7],"tags":[],"class_list":["post-7773","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-mundo","category-politica","category-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7773","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7773"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7773\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7773"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7773"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7773"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}