{"id":788,"date":"2005-07-12T00:00:00","date_gmt":"2005-07-12T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=788"},"modified":"2005-07-12T00:00:00","modified_gmt":"2005-07-12T00:00:00","slug":"muulmanos-provrbios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/07\/america-latina\/muulmanos-provrbios\/","title":{"rendered":"Mu&ccedil;ulmanos: Prov&eacute;rbios"},"content":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 12\/07\/2005 &ndash; Nova York, Madri, Londres: o terrorismo ataca novamente. Esta foi a manchete de muitos jornais do mundo, na edi&ccedil;&atilde;o que informou sobre as explos&otilde;es que sacudiram a capital inglesa. Reveladora coincid&ecirc;ncia: n&atilde;o mencionaram o Afeganist&atilde;o nem o Iraque. Os bombardeios contra Afeganist&atilde;o e Iraque n&atilde;o foram, continuam n&atilde;o sendo, atentados terroristas, que no caso do Iraque se repetem dia ap&oacute;s dia? N&atilde;o &eacute; sempre, ou quase sempre, a classe trabalhadora que entra com os mortos nos atentados e nas guerras? N&atilde;o merecem o mesmo respeito e a mesma compaix&atilde;o as v&iacute;timas de qualquer express&atilde;o do desprezo pela vida humana?<br \/> <!--more--> <br \/> Sem com&ecirc;-las nem beb&ecirc;-las, n&atilde;o menos de tr&ecirc;s mil camponeses foram despeda&ccedil;ados pelas bombas que buscaram, e n&atilde;o encontraram, Bin Laden em terras afeg&atilde;s. E n&atilde;o menos de 25 mil civis, muitos deles mulheres e crian&ccedil;as, foram despeda&ccedil;ados pelas bombas que buscaram, e n&atilde;o encontraram, as armas de destrui&ccedil;&atilde;o e massa no Iraque, e pelo banho de sangue de continua sendo provocado pela ocupa&ccedil;&atilde;o estrangeira do pa&iacute;s. Se o Iraque tivesse invadido os Estados Unidos, anormalidade que n&atilde;o passa pela cabe&ccedil;a de ningu&eacute;m, as v&iacute;timas civis seriam, proporcionalmente, 300 mil norte-americanos. Por s&eacute;culos e s&eacute;culos ecoaria no mundo o trovejar de semelhante horror. Como os mortos s&atilde;o iraquianos, rapidamente se transformam em algo costumeiro.<\/p>\n<p> Em 1776, a Declara&ccedil;&atilde;o de Independ&ecirc;ncia dos Estados Unidos afirmou que todos os homens s&atilde;o criados igualmente, mas poucos anos depois a primeira Constitui&ccedil;&atilde;o esclareceu o conceito: estabeleceu que nos censos populacionais, cada negro equivalia a tr&ecirc;s quintos de uma pessoa. A quantas partes ou partezinhas de uma pessoa equivale, hoje em dia, um iraquiano? &quot;Alguns s&atilde;o mais iguais do que outros&quot;, dizem.<\/p>\n<p> ***<br \/> E dizem: &quot;Outros vir&atilde;o que bem te far&atilde;o&quot;. O terror de Estado, fecundo pai de todos os terrorismos, encontra limites perfeitos nos terrorismos que gera. Derrama l&aacute;grimas de crocodilo cada vez que o ventilador espalha a merda; e simula inoc&ecirc;ncia perante as conseq&uuml;&ecirc;ncias de seus pr&oacute;prios atos. Mas os donos do mundo n&atilde;o t&ecirc;m do que se queixar: as atrocidades cometidas pelos fan&aacute;ticos e loucos lhes d&atilde;o a justificativa e os presenteiam com a impunidade.<\/p>\n<p> ***<\/p>\n<p> &quot;A mentira tem pernas curtas&quot;. Pelo visto, est&aacute; mais para: a mentira tem pernas longu&iacute;ssimas. T&atilde;o longas que correm a uma velocidade muito maior do que os desmentidos dos mentirosos. Depois de gritar aos quatro ventos que o Iraque era um perigo para a humanidade, Bush e Blair admitiram publicamente que o pa&iacute;s que haviam invadido e aniquilado n&atilde;o tinha armas de destrui&ccedil;&atilde;o em massa. Nas elei&ccedil;&otilde;es seguintes, nos Estados Unidos e na Gr&atilde;-Bretanha, o povo os recompensou reelegendo ambos.<\/p>\n<p> ***<\/p>\n<p> &quot;O crime n&atilde;o compensa&quot;: j&aacute; nem os prov&eacute;rbios sabem o que dizem. O mundo gasta nada menos do que US$ 2,2 milh&otilde;es por dia, isto mesmo, por dia, na ind&uacute;stria militar, ind&uacute;stria da morte, e dia ap&oacute;s dia a cifra aumenta e aumenta. As guerras necessitam de armas, as armas necessitam de guerras e as guerras e as armas necessitam de inimigos. N&atilde;o existe neg&oacute;cio mais lucrativo do que o assassinato praticado em escala industrial. Sua ind&uacute;stria derivada, a ind&uacute;stria do medo, consagrada &agrave; fabrica&ccedil;&atilde;o de inimigos, &eacute; atualmente a principal fonte de lucro das empresas dedicadas ao entretenimento e &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Em Hollywood j&aacute; n&atilde;o h&aacute; filme que n&atilde;o exploda, e seus roteiristas acrescentam sustos ao susto: como se fosse pouco o p&acirc;nico terrestre, acrescentam as amea&ccedil;as do terror importado de outros planetas.<\/p>\n<p> A ind&uacute;stria militar necessita produzir medo para justificar sua exist&ecirc;ncia. Perverso circuito: o mundo se converte em um matadouro que se converte em um manic&ocirc;mio que se converte em um matadouro que&#8230; O Iraque, pa&iacute;s bombardeado, ocupado, humilhado, &eacute; a escola do crime mais ativa em nossos dias. Seus invasores, que dizem ser libertadores, montaram ali o mais prof&iacute;cuo criadouro de terroristas, que se alimentam da desesperan&ccedil;a e do desespero.<\/p>\n<p> ***<\/p>\n<p> &quot;Deus ajuda quem cedo madruga&quot;. Os chefes guerreiros madrugam? Os banqueiros de sucesso madrugam? Na realidade, o prov&eacute;rbio exorta a levantar cedo os humildes trabalhadores, e prov&eacute;m dos tempos em que trabalhar rendia. Mas no mundo atual, o trabalho vale menos do que o lixo.<\/p>\n<p> Dos dois motores do sistema universal de poder, este sistema que se chamava capitalismo, na minha inf&acirc;ncia, s&oacute; funciona um. O est&iacute;mulo da cobi&ccedil;a desapareceu, ao menos para a m&atilde;o-de-obra. Ningu&eacute;m tem a mais remota esperan&ccedil;a de ficar rico trabalhando. Agora, os dois motores s&atilde;o o medo e o medo: medo de perder o emprego, medo de n&atilde;o encontrar emprego, medo da fome, medo do desamparo.<\/p>\n<p> Os sindicatos defendiam os trabalhadores, em &eacute;pocas que agora parecem pr&eacute;-hist&oacute;ricas. As empresas multinacionais mais famosas, Wal-Mart&acute;s e MacDonald&acute;s, negam sem a menor dissimula&ccedil;&atilde;o o direito trabalhista &agrave; sindicaliza&ccedil;&atilde;o e jogam na rua quem comete a ousadia de tent&aacute;-la. Os organismos internacionais que velam pelos direitos humanos n&atilde;o movem uma palha por esta escandalosa viola&ccedil;&atilde;o; e o exemplo aprofunda. O desconhecimento dos sindicatos, ou sua total proibi&ccedil;&atilde;o, come&ccedil;a a ser normal. O sindicalismo, fruto de dois s&eacute;culos de lutas oper&aacute;rias, est&aacute; em crise em todo o mundo, como est&atilde;o em crise todos os instrumentos de defesa coletiva e pac&iacute;fica das pessoas que vivem de seu trabalho, e que agora, deixadas cada uma &agrave; sua sorte, sobrevivem obrigadas a aceitar &#8211; Sim ou Sim &#8211; o que os empregadores exigem: o dobro de horas em troca da metade do sal&aacute;rio.<\/p>\n<p> Os sindicatos, enfraquecidos, perseguidos, pouco podem ajudar, e Deus tem, ao que parece, outras ocupa&ccedil;&otilde;es. O presidente Bush precisa dele noite e dia: &eacute; miss&atilde;o divina seu projeto de conquista do planeta, e Deus guia seus passos. Como se comunicam? Por e-mail, fax, telefone, por telepatia. Segredo de Estado.<\/p>\n<p> ***<\/p>\n<p> &quot;As armas o Diabo carrega&quot;. Este prov&eacute;rbio n&atilde;o erra. Deus n&atilde;o pode ser t&atilde;o s&oacute;rdido. H&aacute; de ser o Diabo quem carrega as armas, ou pelo menos as armas de destrui&ccedil;&atilde;o em massa, as verdadeiras, as que o Iraque n&atilde;o tinha, as que est&atilde;o arrebentando o mundo: os bombardeios de mentiras pelas f&aacute;bricas de opini&atilde;o p&uacute;blica; os gases venenosos das f&aacute;bricas do medo, que nos obrigam a aceitar o inaceit&aacute;vel e convertem a dignidade em fatalidade do destino; a mort&iacute;fera impunidade dos assassinos em s&eacute;rie elevados &agrave; categoria de chefes de Estado; e as espadas de duplo fio das grandes pot&ecirc;ncias que multiplicam, por sua vez, a pobreza e os discursos contra a pobreza, e ao mesmo tempo vendem minas antipessoais e pernas ortop&eacute;dicas e que do c&eacute;u despejam m&iacute;sseis e contratos de reconstru&ccedil;&atilde;o sobre pa&iacute;ses que aniquilam. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p> (*) Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da Am&eacute;rica Latina e Mem&oacute;rias do Fogo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 12\/07\/2005 &ndash; Nova York, Madri, Londres: o terrorismo ataca novamente. Esta foi a manchete de muitos jornais do mundo, na edi&ccedil;&atilde;o que informou sobre as explos&otilde;es que sacudiram a capital inglesa. Reveladora coincid&ecirc;ncia: n&atilde;o mencionaram o Afeganist&atilde;o nem o Iraque. Os bombardeios contra Afeganist&atilde;o e Iraque n&atilde;o foram, continuam n&atilde;o sendo, atentados terroristas, que no caso do Iraque se repetem dia ap&oacute;s dia? N&atilde;o &eacute; sempre, ou quase sempre, a classe trabalhadora que entra com os mortos nos atentados e nas guerras? 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