{"id":7885,"date":"2011-03-01T13:54:33","date_gmt":"2011-03-01T13:54:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7885"},"modified":"2011-03-01T13:54:33","modified_gmt":"2011-03-01T13:54:33","slug":"brasil-mulheres-defendem-direitos-em-favelas-pacificadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/america-latina\/brasil-mulheres-defendem-direitos-em-favelas-pacificadas\/","title":{"rendered":"BRASIL: Mulheres defendem direitos em favelas pacificadas"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 01\/03\/2011 &ndash; A paz for\u00e7ada em que vivem mais de 200 mil habitantes do conjunto de favelas do Complexo do Alem\u00e3o, ocupado pelas for\u00e7as armadas no Rio de Janeiro, abre caminho para reconhecer os direitos mais b\u00e1sicos. <!--more--> Enquanto o tr\u00e1fico de drogas e os grupos armados s\u00e3o o problema com o qual mais se identificam essas comunidades, a viol\u00eancia contra as mulheres se mantinha at\u00e9 agora velada, embora muito frequente, e pouco atendida pelas autoridades.<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres n\u00e3o podiam abrir a boca e n\u00e3o tinham a quem recorrer. Era muita agress\u00e3o. Maridos violentos existem em qualquer sociedade, mas por ser uma comunidade fechada \u00e0s leis e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o, tudo se torna mais vulner\u00e1vel\u201d, disse \u00e0 IPS Sheila Santos de Andrade, de 34 anos.<\/p>\n<p>A delegada de pol\u00edcia C\u00e9lia Silva Rosa, encarregada de atender as mulheres v\u00edtimas de agress\u00e3o ou abusos, disse \u00e0 IPS que \u201cantes da pacifica\u00e7\u00e3o eram poucas as queixas de v\u00edtimas das comunidades pobres. Muitas tinham medo de sofrer repres\u00e1lias do tr\u00e1fico de drogas. Os autores dos crimes amea\u00e7avam denunci\u00e1-las ao chefe local do tr\u00e1fico\u201d. Em dezembro, uma equipe policial permaneceu uma semana no Complexo para registrar den\u00fancias.<\/p>\n<p>A maior parte delas era sobre les\u00f5es f\u00edsicas e amea\u00e7as, disse C\u00e9lia. \u201cNa semana em que estivemos nas favelas, foram denunciados muitos desses casos. Inclusive duas pessoas foram presas em flagrante por agress\u00e3o. As mulheres come\u00e7am a reclamar seus direitos\u201d, destacou a delegada.<\/p>\n<p>Sheila preside uma associa\u00e7\u00e3o de mulheres do Complexo do Alem\u00e3o que quer dar continuidade a um projeto feito em conjunto com o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, conhecido como Mulheres da Paz. \u201cAqui as pessoas pensam que est\u00e3o impunes, e a agress\u00e3o passava despercebida. Prevalecia o pensamento de que, se sou agredida e estou em uma favela, \u00e9 dif\u00edcil denunciar\u201d, contou.<\/p>\n<p>Esta mulher viveu a viol\u00eancia dentro de casa. Sua filha de 13 anos foi baleada durante um tiroteio de rua em 2007, quando a pol\u00edcia fez uma grande opera\u00e7\u00e3o no local. Os proj\u00e9teis atravessaram as paredes de sua casa e feriram a menina. Na ocasi\u00e3o morreram 19 homens, segundo dados da pol\u00edcia, desmentidos por organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos. \u201cFui v\u00edtima da guerra e tive minha filha ferida a bala. Isso me marcou\u201d, contou. Seu sonho \u00e9 que um dia todos tenham uma \u201cmeta\u201d construtiva e que n\u00e3o seja mais necess\u00e1rio o ex\u00e9rcito vigiar as ruas.<\/p>\n<p>A chamada For\u00e7a de Pacifica\u00e7\u00e3o, com 1.700 soldados, ocupa h\u00e1 quase tr\u00eas meses o Complexo do Alem\u00e3o de favelas pr\u00f3ximas no norte do Rio de Janeiro. A cada duas horas, todos os dias, patrulhas militares percorrem as ruas a p\u00e9 ou de carro. \u201cTodos acreditam que esta \u00e9 uma paz for\u00e7ada. Queremos a paz sem a\u00e7\u00f5es policiais. \u00c9 um sonho que talvez um dia aconte\u00e7a\u201d, disse Sheila. Se o ex\u00e9rcito \u201cfor embora agora, n\u00e3o posso garantir que n\u00e3o voltar\u00edamos \u00e0 viol\u00eancia\u201d, reconheceu. \u201cCom a educa\u00e7\u00e3o desta nova gera\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as v\u00e3o aprendendo a conviver em paz\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas semelhan\u00e7as entre a estrutura e as t\u00e1ticas utilizadas desde 2004 pelas tropas brasileiras na Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas no Haiti e as que aplicam nas favelas. A atua\u00e7\u00e3o nas favelas cariocas \u201ctem semelhan\u00e7as\u201d, admitiu o porta-voz da For\u00e7a de Pacifica\u00e7\u00e3o, Fabiano de Carvalho. A previs\u00e3o \u00e9 que os militares permanecer\u00e3o ali at\u00e9 outubro, quando dever\u00e3o ser substitu\u00eddos pelas Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP).<\/p>\n<p>Como Sheila, Anat\u00e1lia dos Santos e Elaine Moreno tamb\u00e9m s\u00e3o Mulheres da Paz, consideradas as grandes m\u00e3es da comunidade. Todas t\u00eam em comum um passado com momentos de viol\u00eancia, perdas e dificuldades. \u201cSomos l\u00edderes na comunidade, abra\u00e7amos e levamos aos jovens vulner\u00e1veis um curso profissionalizante. As Mulheres da Paz os acompanham para que compreendam que vale a pena estudar\u201d, contou Anat\u00e1lia, que pede mais aten\u00e7\u00e3o para a juventude desempregada. Ela \u00e9 uma das 150 mulheres nesta favela que integram o Programa Nacional de Seguran\u00e7a com Cidadania, do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>As Mulheres da Paz t\u00eam a tarefa de identificar jovens entre 15 e 29 anos que estejam em situa\u00e7\u00e3o de risco e envi\u00e1-los a cursos de forma\u00e7\u00e3o profissional, acompanhando-os em todo o processo. \u201cNo come\u00e7o havia o medo de como a comunidade nos veria trabalhando em um projeto social do governo. Eu tinha medo de andar pelas ruas\u201d, confessou Anat\u00e1lia, que assumiu este trabalho social em 2008, antes das a\u00e7\u00f5es de pacifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O receio das m\u00e3es era serem confundidas com informantes da pol\u00edcia. \u201cEstou muito feliz de poder ajudar. Sempre quis trabalhar com um projeto social, resgatar as pessoas e fazer com que conhe\u00e7am seus direitos e queiram mudar de vida\u201d, afirmou. O Complexo do Alem\u00e3o concentrava quase 40% dos crimes cometidos no Rio de Janeiro e era conhecido como \u201cFaixa de Gaza\u201d carioca, em alus\u00e3o ao violento territ\u00f3rio palestino ocupado por Israel.<\/p>\n<p>Aqui acontecem muitas outras coisas. A gravidez precoce, por exemplo, \u00e9 um problema muito comum para grande n\u00famero de adolescentes. Elaine Moreno vive h\u00e1 mais de 20 anos na Fazendinha, uma das favelas do Complexo, e confirma a dificuldade de conseguir consultas ginecol\u00f3gicas. \u201cFaltam m\u00e9dicos. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil conseguir uma consulta no posto de sa\u00fade nem informa\u00e7\u00e3o sobre planejamento familiar\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Para ela \u00e9 gratificante atender algu\u00e9m que \u201cn\u00e3o sabe o que fazer e lhe mostrar o caminho\u201d. Em sua opini\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o local j\u00e1 n\u00e3o vive com a tens\u00e3o de antes e agora pode exigir seus direitos. \u201cCom a presen\u00e7a da lei, as crian\u00e7as crescem sem ver os traficantes de drogas bebendo e fumando. Vivem com seguran\u00e7a. Ningu\u00e9m pode se acostumar com o que acontecia antes\u201d, assegurou Elaine. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 01\/03\/2011 &ndash; A paz for\u00e7ada em que vivem mais de 200 mil habitantes do conjunto de favelas do Complexo do Alem\u00e3o, ocupado pelas for\u00e7as armadas no Rio de Janeiro, abre caminho para reconhecer os direitos mais b\u00e1sicos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/america-latina\/brasil-mulheres-defendem-direitos-em-favelas-pacificadas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":77,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,11],"tags":[27,21,24],"class_list":["post-7885","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-politica","tag-brasil","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/77"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7885"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7885\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}