{"id":7947,"date":"2011-03-17T10:46:30","date_gmt":"2011-03-17T10:46:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7947"},"modified":"2011-03-17T10:46:30","modified_gmt":"2011-03-17T10:46:30","slug":"malawi-elogio-ao-saneamento-a-seco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/africa\/malawi-elogio-ao-saneamento-a-seco\/","title":{"rendered":"MALAWI: Elogio ao saneamento a seco"},"content":{"rendered":"<p>LILONGWE, 17\/03\/2011 &ndash; No melhor dos casos, n\u00e3o usa \u00e1gua, \u00e9 inodoro, eminentemente acess\u00edvel, e produz um rico fertilizante como subproduto mas, contudo, para os residentes dos bairros de lata do Malawi, o saneamento a seco proporciona uma baforada n\u00e3o desejada. <!--more--> Pelo menos dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o urbana do Malawi, composta por dois milh\u00f5es de pessoas, vive em bairros degradados sem casas de banho adequadas. Nos bairros de lata de Lilongwe, densamente povoados, como Mtsiriza, Mgona ou Senti, frequentemente dezenas de pessoas partilham uma \u00fanica casa de banho. <\/p>\n<p>Alex Makande, do bairro de lata de Mgona, vive num complexo com 83 pessoas. \u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel. As manh\u00e3s s\u00e3o piores. As pessoas fazem fila para ir \u00e0 casa de banho e, \u00e0s vezes, temos de pedir para usarmos as casas de banho em complexos vizinhos que n\u00e3o t\u00eam tanta gente.\u201d<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 \u00e1gua canalizada \u00e9 limitado em zonas como esta, e geralmente n\u00e3o h\u00e1 canos de esgotos.<\/p>\n<p>Monalissa Nkhonjera, especialista de comunica\u00e7\u00e3o e ensino que trabalha para a ONG internacional WaterAid, explica que um complexo m\u00e9dio nos bairros de lata tem oito fam\u00edlias, mas normalmente h\u00e1 apenas uma \u00fanica latrina.<\/p>\n<p>A WaterAid trabalha nos bairros de lata de Lilongwe implementando uma solu\u00e7\u00e3o adequada e sens\u00edvel ao uso de \u00e1gua. \u201cPromovemos a constru\u00e7\u00e3o de latrinas de saneamento ecol\u00f3gico com placas para cobrir o fosso e com telhado de zinco ou de palha. As paredes s\u00e3o feitas de tijolos cozidos ou mal cozidos. <\/p>\n<p>As latrinas de saneamento ecol\u00f3gico t\u00eam dois fossos. As cinzas usadas pelas fam\u00edlias s\u00e3o espalhadas na latrina ap\u00f3s cada visita \u00e0 casa de banho para minimizar o cheiro e acelerar a decomposi\u00e7\u00e3o. Depois de um fosso ficar cheio, usa-se o segundo fosso e os res\u00edduos no fosso que est\u00e1 cheio t\u00eam tempo suficiente para se decomporem completamente num f\u00e9rtil e seguro estrume. <\/p>\n<p>Instala\u00e7\u00f5es detestadas<\/p>\n<p>Mas Manesi Phiri, de Senti, outro bairro de lata informal nos arredores de Lilongwe, onde a WaterAid est\u00e1 a promover os seus produtos, n\u00e3o est\u00e1 satisfeito. <\/p>\n<p>\u201cAs sanitas com autoclismo s\u00e3o mais convenientes. Basta deixar correr a \u00e1gua para empurrar os excrementos ap\u00f3s uma visita \u00e0 casa de banho. As latrinas agravam o nosso baixo estatuto de pessoas pobres. S\u00e3o humilhantes,\u201d disse \u00e0 IPS. <\/p>\n<p>As latrinas s\u00e3o um sinal de pobreza, ao passo que as sanitas com autoclismo s\u00e3o um s\u00edmbolo de um estatuto mais elevado. Phiri explica tamb\u00e9m que as comunidades das zonas urbanas utilizam pouco o fertilizante produzido nas latrinas de saneamento ecol\u00f3gico. <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o temos jardins nas nossas comunidades e tamb\u00e9m n\u00e3o cultivamos a terra e, por isso, n\u00e3o precisamos de fertilizantes. N\u00e3o podemos vender estes fertilizantes aos habitantes da cidade, que usam adubos qu\u00edmicos nas suas hortas familiares, visto acharem que os fertilizantes das latrinas s\u00e3o repugnantes.\u201d<\/p>\n<p>Phiri admite que os fertilizantes das latrinas de saneamento ecol\u00f3gico n\u00e3o t\u00eam qualquer cheiro e que se assemelham a qualquer outro adubo, mas insiste que as pessoas ficam enojadas s\u00f3 de pensar na sua proveni\u00eancia.<\/p>\n<p>Nos bairros de lata de Lilongwe, as pessoas n\u00e3o rejeitam de modo algum o saneamento ecol\u00f3gico, embora Makande tamb\u00e9m prefira uma sanita com autoclismo. \u201cMas isso agora \u00e9 s\u00f3 um sonho. Temos de continuar a usar as latrinas que est\u00e3o \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o; as latrinas de saneamento ecol\u00f3gico s\u00e3o melhores que as latrinas convencionais e, por isso, temos de aceit\u00e1-las,\u201d disse este homem, que trabalha como guarda nocturno na Zona 10, umas das zonas pr\u00f3speras de Lilongwe. <\/p>\n<p>Deve usar-se \u00e1gua?<\/p>\n<p>Os pobres t\u00eam uma escolha limitada. Mas com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas a amea\u00e7arem o abastecimento de \u00e1gua nas cidades, n\u00e3o s\u00f3 no Malawi como em toda a regi\u00e3o da \u00c1frica Austral, pode ser necess\u00e1rio um plano abrangente para as zonas urbanas para que os ricos adoptem as sanitas produtoras de fertilizante. <\/p>\n<p>Uma sanita usa entre seis a 11 litros cada vez que a \u00e1gua \u00e9 usada \u2013 as 640.000 pessoas com sorte que t\u00eam acesso a sanitas com autoclismo no Malawi constituem uma press\u00e3o muito maior nos velhos sistemas de \u00e1gua do que os seus compatriatoas nos bairros de lata. Milh\u00f5es \u2013 centenas de milh\u00f5es de litros de \u00e1gua \u2013 s\u00e3o efectivamente desperdi\u00e7ados quando se descarrega a \u00e1gua para empurrar res\u00edduos para a rede de esgotos, um processo que, no final, requer tratamento adicional antes de a \u00e1gua ser libertada nas cursos de \u00e1gua do pa\u00eds de forma segura. <\/p>\n<p>Na Zona 43, uma das zonas mais pr\u00f3speras de Lilongwe, a IPS falou com Richard Gulumba, que usa uma latrina de saneamento ecol\u00f3gico no quintal. Construiu-a tendo em vista as frequentes faltas de \u00e1gua em Lilongwe. <\/p>\n<p>\u201cMas a minha fam\u00edlia e eu ainda temos dificuldade em usar a latrina. Faz-me recordar a vida na aldeia, o que n\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel. Cresci pobre, n\u00e3o quero recordar as experi\u00eancias que passei e usar uma latrina \u00e9 uma das coisas que n\u00e3o quero fazer, agora que posso pagar para ter coisas melhores como uma sanita com autoclismo,\u201d disse Gulumba. <\/p>\n<p>Como acontece com os seus hom\u00f3logos mais ricos em \u00c1frica, e mesmo no mundo, provavelmente Gulumba n\u00e3o se apercebe dos modelos mais avan\u00e7ados de latrinas com dois compartimentos nos bairros de lata. Embora os preconceitos contra o saneamento a seco sejam bastante generalizados, h\u00e1 casas de banho de luxo sem \u00e1gua desde o M\u00e9xico ao Canad\u00e1, desde a Su\u00e9cia \u00e0 Austr\u00e1lia. <\/p>\n<p>Latrinas elegantes<\/p>\n<p>A companhia sul-africana ECOSAN produz uma unidade independente de saneamento que, de forma inteligente, usa a ac\u00e7\u00e3o de abrir e fechar a tampa para accionar um parafuso que empurra os res\u00edduos para uma c\u00e2mara ventilada, onde s\u00e3o transformados em fertilizante sem grandes demoras. A Retrete Natural da Austr\u00e1lia apresenta um sistema com c\u00e2maras permut\u00e1veis produtoras de fertilizante e uma ventoinha que assegura o fluxo de oxig\u00e9nio apropriado para acelerar a decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentro de casa: um pedestal \u201cbranco quente\u201d com um assento de \u201ccarvalho cor de mel\u201d&#8230; mesmo os convidados mais exigentes n\u00e3o entram em p\u00e2nico quando n\u00e3o conseguem encontrar uma ma\u00e7aneta para fazer a \u00e1gua correr.<\/p>\n<p>Nkhonjera da WaterAid afirma que as latrinas que produzem adubos, que impedem a polui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua subterr\u00e2nea, representam a melhor op\u00e7\u00e3o para os habitantes dos bairros de lata e comunidades rurais. \u201cEstas \u00e1reas s\u00e3o bairros de lata que n\u00e3o t\u00eam acesso a \u00e1gua corrente. N\u00e3o \u00e9 realista instalar sanitas com autoclismo.\u201d<\/p>\n<p>Se os habitantes mais ricos da \u00c1frica Austral tamb\u00e9m pensassem na melhor maneira de usar a \u00e1gua dispon\u00edvel, o saneamento a seco podia assumir um lugar de maior proemin\u00eancia como solu\u00e7\u00e3o para a crescente escassez de \u00e1gua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LILONGWE, 17\/03\/2011 &ndash; No melhor dos casos, n\u00e3o usa \u00e1gua, \u00e9 inodoro, eminentemente acess\u00edvel, e produz um rico fertilizante como subproduto mas, contudo, para os residentes dos bairros de lata do Malawi, o saneamento a seco proporciona uma baforada n\u00e3o desejada. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/africa\/malawi-elogio-ao-saneamento-a-seco\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":942,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-7947","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7947","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/942"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7947"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7947\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7947"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}