{"id":7954,"date":"2011-03-18T14:58:46","date_gmt":"2011-03-18T14:58:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7954"},"modified":"2011-03-18T14:58:46","modified_gmt":"2011-03-18T14:58:46","slug":"o-apogeu-da-cana-no-sudeste-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/america-latina\/o-apogeu-da-cana-no-sudeste-do-brasil\/","title":{"rendered":"O apogeu da cana no Sudeste do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Ribeir\u00e3o Preto, Brasil, 18\/03\/2011 &ndash; As estradas s\u00e3o excepcionalmente boas e numerosas, em contraste com outras partes do Brasil, mas a monotonia da paisagem n\u00e3o convida ao turismo.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7954\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/88073.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7954\" class=\"size-medium wp-image-7954\" title=\"A paisagem infinita de canaviais na regi\u00e3o de Ribeir\u00e3o Preto. - Mario Osava \/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/88073.jpg\" alt=\"A paisagem infinita de canaviais na regi\u00e3o de Ribeir\u00e3o Preto. - Mario Osava \/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7954\" class=\"wp-caption-text\">A paisagem infinita de canaviais na regi\u00e3o de Ribeir\u00e3o Preto. - Mario Osava \/IPS<\/p><\/div>  Os canaviais dominam o horizonte, as cores e os odores, em um longo eixo de 400 quil\u00f4metros para o Norte de S\u00e3o Paulo. No centro dessa \u00e1rea com singular desenvolvimento econ\u00f4mico e social, como maior produtora de a\u00e7\u00facar e etanol do pa\u00eds, est\u00e1 Ribeir\u00e3o Preto, uma das cidades mais ricas do Brasil, com 605 mil habitantes e renda por pessoa que \u00e9 o dobro da m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p>A cana promove o progresso local porque seu cultivo leva \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o. Come\u00e7a a perder potencial produtivo 48 horas ap\u00f3s ser colhida e isso obriga que seu processamento seja local e impede sua exporta\u00e7\u00e3o para ser transformada longe. Ao contr\u00e1rio de outros grandes cultivos, como caf\u00e9 e soja, sua curta cadeia produtiva mant\u00e9m seu processamento no mesmo lugar, sem intermedia\u00e7\u00f5es, e isso permite baixos pre\u00e7os, para beneficio do consumidor, disse o engenheiro C\u00edcero Junqueira Franco, um dos l\u00edderes hist\u00f3ricos do setor que, aos 79 anos, ainda \u00e9 um influente s\u00f3cio de v\u00e1rias empresas.<\/p>\n<p>Contudo, foi o Programa Nacional do \u00c1lcool (Pr\u00f3-\u00c1lcool), criado em 1975 para substituir parcialmente o consumo de gasolina e reduzir a importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, que incentivou a prosperidade atual da regi\u00e3o de Ribeir\u00e3o Preto, convertida em um imenso canavial. Trata-se do etanol, mais conhecido como \u00e1lcool. Sua produ\u00e7\u00e3o em grande escala \u201cmudou a estrutura do setor e mudou o Brasil\u201d, disse \u00e0 IPS C\u00edcero, um dos \u201cpais\u201d do Pr\u00f3-\u00c1lcool, que com outros empres\u00e1rios prop\u00f4s ao governo criar essa pol\u00edtica em 1974, quando o petr\u00f3leo quadruplicou seu valor por causa da primeira grande crise de pre\u00e7os no setor.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, o Brasil importava 85% do petr\u00f3leo que consumia e sua repentina alta freou o crescimento econ\u00f4mico do pa\u00eds. O etanol surgiu para superar a crise, em uma conjuntura que coincidiu com um excesso de cana no mercado nacional, devido a est\u00edmulos governamentais para a produ\u00e7\u00e3o. Assim, o Pr\u00f3-\u00c1lcool nasceu para solucionar dois problemas, disse Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2006) e agora professor universit\u00e1rio e presidente do Conselho de Agroneg\u00f3cios da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Nos 35 anos do programa, a produ\u00e7\u00e3o brasileira de etanol saltou de 611 milh\u00f5es de litros para 27,7 bilh\u00f5es em 2010, enquanto a de a\u00e7\u00facar mais do que quintuplicou, ao atingir 38,7 milh\u00f5es de toneladas. Para atender essas duas demandas, a \u00e1rea cultivada aumentou quatro vezes, o que permitiu multiplicar por sete a cana colhida. Em 2010, a extens\u00e3o cultivada foi de 8,1 milh\u00f5es de hectares e a produ\u00e7\u00e3o de 625 milh\u00f5es de toneladas.<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel porque a produtividade aumentou cerca de 3% ao ano, um crescimento \u201cbrutal\u201d em termos agron\u00f4micos, explicou C\u00edcero em sua resid\u00eancia rural, um o\u00e1sis com \u00e1rvores e \u00e1gua de um riacho, perto de canaviais por todos os lados, no munic\u00edpio de Orl\u00e2ndia, 55 quil\u00f4metros ao norte de Ribeir\u00e3o Preto. Essa acelerada expans\u00e3o rompeu o controle que o governo exercia sobre o setor da cana, mediante cotas de produ\u00e7\u00e3o e o monop\u00f3lio das exporta\u00e7\u00f5es, e transformou o interior do Estado de S\u00e3o Paulo, especialmente o Nordeste, onde se concentrou o cultivo.<\/p>\n<p>Antes, poucas instala\u00e7\u00f5es processadoras contavam com um engenheiro e hoje em dia \u201cdificilmente t\u00eam menos do que tr\u00eas\u201d, disse C\u00edcero. Se for somada a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e \u00e1lcool, nos engenhos trabalham 31 diferentes profissionais universit\u00e1rios, acrescentou. O Pr\u00f3-\u00c1lcool \u201coxigenou um sistema esclerosado\u201d, o modernizou e atraiu novos empres\u00e1rios, \u201cabrindo mentes\u201d, disse Maurilio Biagi Filho, outro l\u00edder do setor, com experi\u00eancia na ind\u00fastria de equipamentos e bebidas. Tamb\u00e9m dirigiu v\u00e1rias unidades transformadoras, ap\u00f3s viver sua inf\u00e2ncia em uma delas, fundada por seu pai.<\/p>\n<p>Eletricidade, pl\u00e1sticos e outros produtos qu\u00edmicos, fertilizantes e enzimas entraram nos planos do setor a\u00e7ucareiro. As pesquisas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas ganharam um forte impulso na regi\u00e3o, o que promoveu a instala\u00e7\u00e3o de universidades e centros criados pela pr\u00f3pria ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar e do \u00e1lcool.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o favoreceu o desenvolvimento de uma diversificada ind\u00fastria de m\u00e1quinas para cultivo da cana e sua transforma\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00facar, \u00e1lcool e energia. Sert\u00e3ozinho, a 20 quil\u00f4metros de Ribeir\u00e3o Preto, concentra 550 empresas, que em sua maioria fornecem tamb\u00e9m equipamentos para outros setores, como petroleiro e hidrel\u00e9trico, dentro e fora do Brasil.<\/p>\n<p>A colheita est\u00e1 70% mecanizada e dever\u00e1 chegar aos 100% em 2014, o que ampliou o mercado industrial, ao aumentar a demanda por colheitadeiras e ve\u00edculos de coleta. A exig\u00eancia \u00e9 ambiental e busca eliminar inc\u00eandios produzidos para facilitar a colheita manual da cana. Os hot\u00e9is lotados em todas as cidades da regi\u00e3o refletem esse dinamismo econ\u00f4mico impulsionado pela cadeia produtiva a\u00e7ucareira.<\/p>\n<p>No entanto, falta uma \u201cpol\u00edtica mais clara\u201d, disse Maurilio \u00e0 IPS. O etanol segue o ciclo da cana. Sem colheita no primeiro trimestre e sem estoques reguladores, acumulados e controlados pelo governo para estabilizar o mercado, o etanol escasseia porque se destinou mais cultivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar, por seus pre\u00e7os maiores desde 2010. Os ve\u00edculos com motores flex s\u00e3o produzidos no Brasil desde 2003, o que permite abastec\u00ea-los com o combust\u00edvel mais barato. Desta vez a demanda por etanol n\u00e3o caiu na propor\u00e7\u00e3o esperada.<\/p>\n<p>O aparente progresso gerado pela economia da cana tem seus cr\u00edticos. A mecaniza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou no final dos anos 1980 para conter o movimento dos cortadores de cana em defesa de seus direitos, \u201cn\u00e3o por raz\u00f5es ambientais\u201d, disse \u00e0 IPS Helio Neves, presidente da Federa\u00e7\u00e3o dos Empregados Rurais do Estado de S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m disso, deixar\u00e1 sem emprego milhares de trabalhadores e sua capacita\u00e7\u00e3o para novas ocupa\u00e7\u00f5es \u00e9 menor do que a demanda, acrescentou.<\/p>\n<p>A cana \u00e9 \u201cuma planta maravilhosa\u201d, mas sua monocultura concentra o poder nas empresas \u201cem detrimento da democracia, impondo uma ditadura do econ\u00f4mico sobre o social\u201d, lamentou Helio, respeitado sindicalista, protagonista da violenta greve de 1984 dos cortadores em Guariba, a 65 quil\u00f4metros de Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a prosperidade da cana \u00e9 distribu\u00edda desigualmente. Ribeir\u00e3o Preto, por concentrar os servi\u00e7os melhor remunerados, e Sert\u00e3ozinho s\u00e3o cidades privilegiadas. Entretanto, a pobreza relativa e a falta de emprego for\u00e7am milhares de mulheres de Guariba, Barrinha e outros munic\u00edpios com muita cana, mas sem ind\u00fastrias, a trabalharem como dom\u00e9sticas em Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Maria Alc\u00e2ntara Silva, de \u201cmais de 30 anos\u201d. H\u00e1 seis percorre duas vezes ao dia os 35 quil\u00f4metros que separam sua cidade, Prad\u00f3polis, de Ribeir\u00e3o Preto, onde a melhor remunera\u00e7\u00e3o compensa o gasto com \u00f4nibus. Pelo menos permite que mantenha o filho estudando qu\u00edmica na universidade, afirmou. Em Guariba h\u00e1 620 mulheres registradas como dom\u00e9sticas em Ribeir\u00e3o Preto e a prefeitura lhes paga 40% do transporte, informou Jos\u00e9 Roberto de Abreu, secret\u00e1rio municipal do Emprego e das Rela\u00e7\u00f5es do Trabalho. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ribeir\u00e3o Preto, Brasil, 18\/03\/2011 &ndash; As estradas s\u00e3o excepcionalmente boas e numerosas, em contraste com outras partes do Brasil, mas a monotonia da paisagem n\u00e3o convida ao turismo. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/america-latina\/o-apogeu-da-cana-no-sudeste-do-brasil\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5,10],"tags":[],"class_list":["post-7954","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-energia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7954"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7954\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}