{"id":7996,"date":"2011-03-28T15:45:40","date_gmt":"2011-03-28T15:45:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7996"},"modified":"2011-03-28T15:45:40","modified_gmt":"2011-03-28T15:45:40","slug":"brasil-loucas-por-seu-lugar-na-mecanizacao-da-cana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/america-latina\/brasil-loucas-por-seu-lugar-na-mecanizacao-da-cana\/","title":{"rendered":"BRASIL: Loucas por seu lugar na mecaniza\u00e7\u00e3o da cana"},"content":{"rendered":"<p>Guariba, Brasil, 28\/03\/2011 &ndash; \u201cEst\u00e1 louca\u201d, afirmaram maridos e familiares da maioria das 34 mulheres que decidiram se converter em operadores de colheitadeiras de cana-de-a\u00e7\u00facar no Sudeste do Brasil, em um desafio ao monop\u00f3lio masculino avivado pela expans\u00e3o do setor e pela boa remunera\u00e7\u00e3o.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7996\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/88479.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7996\" class=\"size-medium wp-image-7996\" title=\"Operar uma colheitadeira de cana, o anseio de um grupo de brasileiras. - Mario Osava \/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/88479.jpg\" alt=\"Operar uma colheitadeira de cana, o anseio de um grupo de brasileiras. - Mario Osava \/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7996\" class=\"wp-caption-text\">Operar uma colheitadeira de cana, o anseio de um grupo de brasileiras. - Mario Osava \/IPS<\/p><\/div>  Por\u00e9m, quando a IPS conversou com elas, deixaram claro que nada ir\u00e1 det\u00ea-las em sua luta para quebrar um tabu na localidade de Guariba e em muitas outras do Estado de S\u00e3o Paulo: o de que n\u00e3o \u00e9 trabalho de mulher conduzir enormes m\u00e1quinas, solit\u00e1rias e \u00e0s vezes \u00e0 noite, pelos canaviais sem fim da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A gravidez de sete meses n\u00e3o impediu Rosana do Carmo, de 33 anos e m\u00e3e de outros tr\u00eas filhos, de fazer o curso oferecido pela Secretaria de Emprego e Rela\u00e7\u00f5es do Trabalho (Sert) de Guariba, munic\u00edpio de 35 mil habitantes que fica na zona de maior produ\u00e7\u00e3o de cana do Brasil, a cerca de 300 quil\u00f4metros da cidade de S\u00e3o Paulo, capital do Estado. Seu sonho \u00e9 concluir antes do parto as aulas te\u00f3ricas, de quatro horas, no hor\u00e1rio noturno. A parte pr\u00e1tica, com a colheitadeira em pleno canavial, deixar\u00e1 para quando o beb\u00ea crescer um pouco. Ela j\u00e1 fez curso para dirigir tratores. \u201cEra a \u00fanica mulher entre 18 homens\u201d, e suportou brincadeiras como a repetida de \u201cp\u00e9s muito pequenos para os pedais\u201d. Longe de se intimidar, Rosana est\u00e1 decidida a dirigir uma m\u00e1quina maior e mais complexa, em busca de \u201cdignidade e prosperidade\u201d.<\/p>\n<p>O curso para operar colheitadeiras \u00e9 exclusivamente para mulheres. A atividade relacionada \u00e0 cana emprega poucas mulheres e s\u00e3o elas as que mais sofrem com o desemprego causado pelo processo de mecaniza\u00e7\u00e3o da colheita, explicou \u00e0 IPS o secret\u00e1rio municipal de emprego, Jos\u00e9 Roberto de Abreu. Muitas das participantes s\u00e3o divorciadas que criam os filhos sozinhas, em uma regi\u00e3o onde a alta oferta de trabalho tempor\u00e1rio atrai trabalhadores de todos os cantos do pa\u00eds, causando separa\u00e7\u00f5es e novos casais, acrescentou.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de No\u00eamia Pereira de Melo, de 37 anos e duas filhas, respeitada por suas colegas devido a uma longa experi\u00eancia como cortadora. \u201cCorto cana desde os 18 anos\u201d, contou. Primeiro, seguiu os passos de seu pai, que se mudava a cada colheita e acabou se estabelecendo com a fam\u00edlia em Guariba. Tamb\u00e9m exerceu outras fun\u00e7\u00f5es dentro da ind\u00fastria a\u00e7ucareira, como soldadora, mas seu sonho \u00e9 operar uma colheitadeira. J\u00e1 fez um curso, onde \u201cs\u00f3 tinha eu de mulher e 40 homens\u201d, mas n\u00e3o teve aulas pr\u00e1ticas e n\u00e3o conseguiu ser contratada. Agora acredita que ter\u00e1 sorte, porque uma usina local vai empregar mais mulheres. \u201cQuero deixar o corte da cana, evoluir\u201d, afirmou. Al\u00e9m disso, as muitas horas di\u00e1rias com o fac\u00e3o lhe causaram uma bursite, \u201cda qual meu bra\u00e7o nunca se recuperou, apesar dos tratamentos\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, Estado que produz 60% do a\u00e7\u00facar e do etanol do Brasil, abolir\u00e1 em 2014 a queima de canaviais que facilita a colheita manual, por acordo entre o governo estadual e a ind\u00fastria da cana. Isso obriga a substitui\u00e7\u00e3o dos cortadores por m\u00e1quinas. No ano passado, eram 140 mil cortadores, segundo estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp). V\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas trabalham para requalificar parte destes trabalhadores em tarefas agr\u00edcolas e industriais que exigem mais t\u00e9cnica, o que permitir\u00e1 que, os que conseguirem, tenham empregos melhor pagos e permanentes, em lugar dos atuais oito meses por ano.<\/p>\n<p>Este primeiro curso, segundo Jos\u00e9 Roberto, concede bolsa equivalente a cerca de R$ 350 \u00e0s 34 selecionadas. \u00c9 uma ideia que tinha desde que assumiu a Sert em 2009, depois de trabalhar anos em usinas de a\u00e7\u00facar como t\u00e9cnico agr\u00edcola, gerente de mecaniza\u00e7\u00e3o e capacitador. \u201cPrevejo abandonos, mas h\u00e1 outras mulheres na fila\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A Sert tamb\u00e9m oferece cursos para outras fun\u00e7\u00f5es dentro do setor canavieiro, como condutor de trator e empilhadeira, e para outras \u00e1reas, como constru\u00e7\u00e3o, confec\u00e7\u00e3o t\u00eaxtil e cozinha industrial, disse Jos\u00e9 Roberto. Sindicatos, usinas de a\u00e7\u00facar e etanol e empresas agroindustriais tamb\u00e9m se somaram para impulsionar juntos o programa Renova\u00e7\u00e3o, destinado a capacitar sete mil trabalhadores da cana em novas fun\u00e7\u00f5es dentro ou fora do setor.<\/p>\n<p>As mulheres s\u00e3o a prioridade nos cursos organizados pela Sert, que capacitou 1.400 pessoas nos \u00faltimos dois anos. O objetivo \u00e9 que as mulheres de Guariba n\u00e3o sejam for\u00e7adas a trabalhar no servi\u00e7o dom\u00e9stico em cidades vizinhas mais ricas. Agora, s\u00e3o 620 registradas como empregadas dom\u00e9sticas e cerca de 500 trabalham em Ribeir\u00e3o Preto, principal cidade da regi\u00e3o da cana, que inclui 85 munic\u00edpios e 50 usinas de a\u00e7\u00facar e etanol. Ali ganham cerca de R$ 840 mensais, direitos trabalhistas e finais de semana livres, ao contr\u00e1rio do que ocorre em Guariba. A prefeitura tamb\u00e9m subsidia 40% do custo da passagem de \u00f4nibus entre as duas cidades, distantes 64 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Um benef\u00edcio que n\u00e3o atinge Cilia Maria Silva, de 57 anos, moradora na vizinha Prad\u00f3polis, que deve se locomover durante uma hora por dia para trabalhar como dom\u00e9stica em Ribeir\u00e3o Preto. Ela recorda os quatro anos que trabalhou em uma usina de a\u00e7\u00facar de seu munic\u00edpio, e s\u00f3 se consola com a proximidade de aposentadoria. \u201cFaltam ind\u00fastrias e f\u00e1bricas para gerar mais empregos\u201d em Prad\u00f3polis e Guariba, afirmou, para explicar \u00e0 IPS que inveja os oito mil habitantes da vizinha localidade de Dumont, por gozarem de pleno emprego, gra\u00e7as a uma f\u00e1brica processadora de amendoim.<\/p>\n<p>\u201cLavar roupa dos outros, jamais\u201d, descartou terminantemente Rita de C\u00e1ssia Cardoso, uma das mais jovens entre as 34 candidatas a operadoras de colheitadeira. Com 21 anos, j\u00e1 dirigiu caminh\u00f5es, produziu artesanato e fez v\u00e1rias tarefas agr\u00edcolas em seu Estado natal, Mato Grosso do Sul. Chegou a Guariba com seu marido, oper\u00e1rio de uma usina da regi\u00e3o, e com o curso disse que caminha para concretizar seu \u201csonho desde menina, de ser caminhoneira de uma usina\u201d. Contudo, assegura que n\u00e3o ficar\u00e1 nisso, mas que estudar\u00e1 agronomia, \u201cpara acompanhar a globaliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sua colega Rita das Neves, de 30 anos e um filho, \u00e9 exemplo do drama dos cortadores. Come\u00e7ou aos 11 anos, quando \u201cnem aguentava o (obrigat\u00f3rio) protetor de perna\u201d por ser muito grande para ela. Seu marido machucou o joelho durante uma colheita e agora cuida de um bar familiar, enquanto ela busca crescer dentro do setor.<\/p>\n<p>Em cada grupo de 50 cortadores, s\u00f3 s\u00e3o admitidas quatro ou seis mulheres, disse Rita, como exemplo da discrimina\u00e7\u00e3o no setor. E isso por que \u201ceu cortava mais cana do que eles\u201d, criticou. Ela estudou contabilidade, mas n\u00e3o conseguiu emprego na \u00e1rea \u201cpor ser pobre\u201d. Tamb\u00e9m foi empregada dom\u00e9stica, mas \u201cpreferi cortar cana\u201d, at\u00e9 agora que, gr\u00e1vida de tr\u00eas meses, aprende a manejar grandes m\u00e1quinas agr\u00edcolas. \u201cNisto est\u00e1 meu futuro e o da minha fam\u00edlia, n\u00e3o tenho d\u00favidas\u201d, assegurou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guariba, Brasil, 28\/03\/2011 &ndash; \u201cEst\u00e1 louca\u201d, afirmaram maridos e familiares da maioria das 34 mulheres que decidiram se converter em operadores de colheitadeiras de cana-de-a\u00e7\u00facar no Sudeste do Brasil, em um desafio ao monop\u00f3lio masculino avivado pela expans\u00e3o do setor e pela boa remunera\u00e7\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/america-latina\/brasil-loucas-por-seu-lugar-na-mecanizacao-da-cana\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5],"tags":[25,21,24],"class_list":["post-7996","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-ibsa","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7996","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7996"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7996\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7996"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7996"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7996"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}