{"id":8006,"date":"2011-03-29T14:15:09","date_gmt":"2011-03-29T14:15:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8006"},"modified":"2011-03-29T14:15:09","modified_gmt":"2011-03-29T14:15:09","slug":"reportagem-as-arvores-balancam-na-selva-da-texaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/america-latina\/reportagem-as-arvores-balancam-na-selva-da-texaco\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: As \u00e1rvores balan\u00e7am na selva da Texaco"},"content":{"rendered":"<p>NUEVA LOJA, Equador, 29\/03\/2011 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- A limpeza dos dep\u00f3sitos de lama petrol\u00edfera, realizada pela Texaco na selva equatoriana, consistiu em jogar sobre eles madeira, tanques de armazenamento e mato, e tapar tudo com terra.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_8006\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/519_DSC07698.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8006\" class=\"size-medium wp-image-8006\" title=\"Rosa Tanguila limpando restos de petr\u00f3leo em sua comunidade na Amaz\u00f4nia equatoriana - Gonzalo Ortiz\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/519_DSC07698.jpg\" alt=\"Rosa Tanguila limpando restos de petr\u00f3leo em sua comunidade na Amaz\u00f4nia equatoriana - Gonzalo Ortiz\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8006\" class=\"wp-caption-text\">Rosa Tanguila limpando restos de petr\u00f3leo em sua comunidade na Amaz\u00f4nia equatoriana - Gonzalo Ortiz\/IPS<\/p><\/div>  Quando com cada passo dado por algu\u00e9m se movem os troncos das \u00e1rvores, a pessoa sabe que est\u00e1 em um p\u00e2ntano t\u00e9trico. Assim ocorre ao se caminhar sobre a superf\u00edcie aparentemente firme e coberta de vegeta\u00e7\u00e3o do que foi uma piscina de lama de perfura\u00e7\u00e3o petroleira na Amaz\u00f4nia equatoriana. A extens\u00e3o e o impacto da contamina\u00e7\u00e3o na vida natural e nas comunidades humanas do nordeste equatoriano s\u00e3o muito piores do que se possa imaginar, conforme comprovou o Terram\u00e9rica em uma extensa viagem pela regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Este rep\u00f3rter percorreu 400 quil\u00f4metros de estradas e caminhos das prov\u00edncias de Sucumb\u00edos e Orellana, visitou seis comunidades afetadas e 12 locais contaminados pela empresa norte-americana Texaco durante suas atividades de prospec\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, entre 1964 e 1990. P\u00e2ntano cujas \u00e1rvores se movem \u00e9 a \u201cpiscina\u201d de dejetos petroleiros do po\u00e7o Yuca 9, um dos 162 que a Texaco diz ter limpado, ou \u201cremediado\u201d, entre 1995 e 1998.<\/p>\n<p>Essas piscinas ou fossas, algumas do tamanho de um campo de futebol, serviam como dep\u00f3sito da lama de perfura\u00e7\u00e3o e de todo tipo de dejeto, inclusive fezes e lixo, pois as instala\u00e7\u00f5es petroleiras careciam de aterros sanit\u00e1rios e de tratamento de esgoto. A corpora\u00e7\u00e3o norte-americana Chevron, atual propriet\u00e1ria da Texaco, foi condenada, em 14 de fevereiro, por um juiz de Nueva Loja, capital de Sucumb\u00edos, a pagar US$ 9,51 bilh\u00f5es a t\u00edtulo de indeniza\u00e7\u00e3o por danos causados por sua subsidi\u00e1ria ao meio ambiente e \u00e0 sa\u00fade humana.<\/p>\n<p>Os demandantes, ind\u00edgenas e camponeses organizados na Assembleia de Afetados pela Texaco (AAT), apelaram por considerarem insuficiente a quantia para pagar o desastre, que inclui impactos na sa\u00fade. A Chevron tamb\u00e9m apelou, alegando que o processo \u00e9 fraudulento. Assim, o caso passou para o plen\u00e1rio do Tribunal Provincial de Sucumb\u00edos. Em um contrato assinado em 1995 com o Estado equatoriano, a Texaco assumiu a responsabilidade de cuidar de um ter\u00e7o dos passivos ambientais que deixou na selva. O resto caberia ao governo.<\/p>\n<p>No julgamento, a Chevron alegou que esse trabalho foi feito de modo satisfat\u00f3rio at\u00e9 1998. Por\u00e9m, remediar as piscinas \u2013 segundo o Terram\u00e9rica comprovou \u2013 consistiu em jogar sobre elas madeira, tanques de armazenamento e mato, e tapar tudo com terra. Em 15 anos, a natureza amaz\u00f4nica fez crescer sobre elas vegeta\u00e7\u00e3o e inclusive \u00e1rvores, que se movem a cada passo dado pr\u00f3ximo a elas. Contudo, basta perfurar apenas um metro e meio ou dois para encontrar a lama.<\/p>\n<p>Dois membros da Frente de Defesa da Amaz\u00f4nia, a organiza\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas e camponeses que apoia a demanda da AAT, fizeram essas perfura\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios locais visitados pelo Terram\u00e9rica, inclusive na antiga piscina do po\u00e7o Sacha 53, do qual a Chevron se orgulha de ter informes favor\u00e1veis. A Texaco disse que construiu no total 326 piscinas como estas enquanto esteve no pa\u00eds, mas as inspe\u00e7\u00f5es judiciais e as per\u00edcias estabeleceram a exist\u00eancia de, pelo menos, 956.<\/p>\n<p>Antes de 1995, a Texaco j\u00e1 havia tapado outras fossas que a Frente de Defesa da Amaz\u00f4nia chama de \u201cpiscinas ocultas\u201d. Quando estes dep\u00f3sitos foram cavados, n\u00e3o receberam nenhum revestimento protetor. Assim, os res\u00edduos petroleiros vazaram pelo solo at\u00e9 os cursos de \u00e1gua. A maioria das piscinas contava com algumas sa\u00eddas, chamadas \u201cpesco\u00e7o de ganso\u201d, instaladas sob o n\u00edvel da lama petrol\u00edfera, com o suposto fim de permitir a sa\u00edda de \u00e1gua limpa para as correntes pr\u00f3ximas quando a chuva elevava o n\u00edvel do l\u00edquido depositado.<\/p>\n<p>A tese que sustentava tal pr\u00e1tica era que o petr\u00f3leo flutua sobre a \u00e1gua. No entanto, os \u201cpesco\u00e7os de ganso\u201d se converteram imediatamente em dutos para espalhar ainda mais o vazamento venenoso, que continua fluindo por eles at\u00e9 hoje. Um dos paradoxos desta selva \u00famida tropical onde a \u00e1gua \u00e9 abundante \u00e9 que muitas aldeias e comunidades carecem dela para beber, cozinhar, se lavar, porque riachos e rios em cujas margens assentaram suas casas est\u00e3o arruinados.<\/p>\n<p>\u201cEsta \u00e9 a casa de Mar\u00eda Aguinda, uma das signat\u00e1rias da demanda original contra a Texaco, de 1993. Assinou porque este rio ao p\u00e9 de sua casa foi contaminado por petr\u00f3leo e ela precisava buscar \u00e1gua em outro rio, distante duas horas de caminhada\u201d, disse ao Terram\u00e9rica a ind\u00edgena qu\u00edchua Rosa Tanguila, da comunidade Rumipamba, em Orellana. Aqui a contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 causada pelo po\u00e7o Auca 1, supostamente remediado pela Texaco, cujos vazamentos envenenaram o rio muito cedo.<\/p>\n<p>Diante dos protestos e da movimenta\u00e7\u00e3o dos moradores, a empresa estatal Petroecuador realiza trabalhos de limpeza pontuais, e claramente insuficientes, em uma bacia onde cabem v\u00e1rios est\u00e1dios de futebol. Rosa faz parte da equipe formada por ind\u00edgenas da comunidade e contratado pela companhia para limpar o lugar. O trabalho consiste em lan\u00e7ar fortes jatos de \u00e1gua no fundo do rio para remover uma viscosa massa negra que \u00e9 dirigida para uma esp\u00e9cie de armadilha onde Rosa a retira com uma raquete triangular e a coloca em um tanque de metal.<\/p>\n<p>\u201cLimpamos o que a Texaco disse que deixou bem\u201d, ironiza Rosa. Os trabalhadores usam uma roupa de borracha para mergulhar na lama cinza e negra, mas carecem de luvas e \u00f3culos protetores, por isso est\u00e3o expostos \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o. V\u00e1rias crian\u00e7as brincam na margem do mesmo rio, se molhando com a mesma \u00e1gua. Para outro morador da regi\u00e3o, Donald Moncayo, da empresa Selva Viva, \u201ca primeira coisa que a Petroecuador deveria ter feito, ao receber o controle da \u00e1rea, \u00e9 um levantamento dos passivos ambientais ou dos danos ambientais que a Texaco deixava aqui na Amaz\u00f4nia, coisa que n\u00e3o fez\u201d.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o?. \u201cTalvez porque muitos funcion\u00e1rios da Texaco passaram a ser parte da Petroecuador e j\u00e1 tinham calculado o que iriam fazer: que o Estado equatoriano carregue o morto e libere a Texaco\u201d, acrescentou Donald. A Selva Viva, criada pela Frente de Defesa da Amaz\u00f4nia, tenta proteger uma \u00e1rea de selva, resgatar esp\u00e9cies em perigo de extin\u00e7\u00e3o e promover o ecoturismo, uma tarefa herc\u00falea em meio a tanto \u00f3leo.<\/p>\n<p>Cronologia da Texaco no Equador<\/p>\n<p>1964: A Texaco forma um cons\u00f3rcio com a Gulf Oil Corporation e consegue uma concess\u00e3o para explorar petr\u00f3leo por 28 anos no nordeste equatoriano. O sucesso leva a ampliar a \u00e1rea concedida a milhares de quil\u00f4metros quadrados. O primeiro po\u00e7o de sucesso foi batizado de Lago Agrio 1, para lembrar a descoberta de petr\u00f3leo de 1901 em Sour Lake, no Estado norte-americano do Texas, que deu lugar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da Texaco. Em torno do Lago Agrio surge um povoado que mais tarde, com o nome de Nueva Loja, se converte na capital de Sucumb\u00edos.<\/p>\n<p>1977: A Corpora\u00e7\u00e3o Estatal Petroleira Equatoriana (Cepe), antecessora da Petroecuador, adquire 62,5% do cons\u00f3rcio, que segue administrado e operado pela Texaco.<\/p>\n<p>1990: O Estado equatoriano passa a administrar e operar o cons\u00f3rcio, encarregando da opera\u00e7\u00e3o a Petroecuador, substituta da Cepe. A Texaco se mant\u00e9m como s\u00f3cia e recebendo dividendos.<\/p>\n<p>1992: A Texaco se retira do Equador ao terminar o contrato.<\/p>\n<p>1993: Uma demanda de a\u00e7\u00e3o coletiva \u00e9 apresentada contra a Texaco na justi\u00e7a dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>1995-1998: A Texaco realiza trabalhos de remedi\u00e7\u00e3o pendentes. O Estado equatoriano se declara satisfeito, mas deixa aberta a possibilidade de reclama\u00e7\u00e3o por terceiros.<\/p>\n<p>* * O autor \u00e9 correspondente da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NUEVA LOJA, Equador, 29\/03\/2011 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- A limpeza dos dep\u00f3sitos de lama petrol\u00edfera, realizada pela Texaco na selva equatoriana, consistiu em jogar sobre eles madeira, tanques de armazenamento e mato, e tapar tudo com terra. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/america-latina\/reportagem-as-arvores-balancam-na-selva-da-texaco\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5,10,11],"tags":[],"class_list":["post-8006","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-energia","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8006","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8006"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8006\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}