{"id":8010,"date":"2011-03-29T16:06:33","date_gmt":"2011-03-29T16:06:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8010"},"modified":"2011-03-29T16:06:33","modified_gmt":"2011-03-29T16:06:33","slug":"exclusao-aerea-confuso-nome-da-guerra-na-libia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/mundo\/exclusao-aerea-confuso-nome-da-guerra-na-libia\/","title":{"rendered":"Exclus\u00e3o a\u00e9rea, confuso nome da guerra na L\u00edbia"},"content":{"rendered":"<p>Cambridge, Gr\u00e3-Bretanha, 29\/03\/2011 &ndash; Os fantasmas balc\u00e2nicos da d\u00e9cada de 1990 est\u00e3o de volta: zonas de exclus\u00e3o a\u00e9rea, guerra humanit\u00e1ria de Washington, Europa e ONU, garantias de que n\u00e3o ser\u00e3o enviadas tropas norte-americanas e uma ofensiva a\u00e9rea que por si s\u00f3 n\u00e3o pode mudar o que ocorre no solo. <!--more--> Com os termos leguleios com os quais a comunidade internacional reconhece, com repugn\u00e2ncia, que uma guerra est\u00e1 em andamento, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) resolveu proteger os civis e criar um \u201ccord\u00e3o sanit\u00e1rio\u201d em torno do pa\u00eds em quest\u00e3o, a L\u00edbia.<\/p>\n<p>No entanto, s\u00e3o muitos os ecos da participa\u00e7\u00e3o nas terr\u00edveis guerras na Iugosl\u00e1via, quando se instaurou a ideia de que se podia bombardear uma popula\u00e7\u00e3o com fins humanit\u00e1rios. A linguagem da guerra liberal pode fluir t\u00e3o suavemente como o petr\u00f3leo leve das jazidas l\u00edbias, mas, desta vez, inclusive os mais crentes parecem ter ficado sem gasolina. Poucos cr\u00edticos se preocuparam sequer em assinalar a seletividade \u00f3bvia da medida tomada contra a L\u00edbia.<\/p>\n<p>Quando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que a comunidade internacional n\u00e3o podia permanecer passiva diante do brutal ataque de um tirano contra seu povo, se referia especificamente a um, o l\u00edder l\u00edbio, Muammar Gadafi. E o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU deu sua ben\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o s\u00f3 para alguns civis l\u00edbios, mas n\u00e3o para os s\u00edrios, iemenitas, palestinos ou barenitas. Muito menos aos que sofrem viol\u00eancia na Costa do Marfim, no Zimb\u00e1bue ou em tantos outros lugares.<\/p>\n<p>A ideia da guerra liberal \u2013 a do uso da for\u00e7a com fins humanit\u00e1rios \u2013 continua confundindo a opini\u00e3o p\u00fablica, sustentando os termos oficiais do debate nos f\u00f3runs internacionais, especialmente na Europa ocidental, e delineando as opera\u00e7\u00f5es militares estrangeiras na L\u00edbia. A guerra liberal \u00e9 \u00fatil, sobretudo para os \u201cbons europeus\u201d, porque desmente que se trate de uma guerra. \u00c9 uma zona de exclus\u00e3o a\u00e9rea para proteger os direitos humanos.<\/p>\n<p>Embora seja \u00f3bvio que os comandantes da coaliz\u00e3o ocidental se somaram aos rebeldes l\u00edbios em sua guerra contra o regime de Gadafi, s\u00e3o obrigados a fingir que n\u00e3o \u00e9 assim. Com boas maneiras, informam \u00e0s for\u00e7as de Gadafi onde devem se reagrupar para evitar serem destru\u00eddas. Em ess\u00eancia, embora sem dizer, a mensagem a Gadafi \u00e9 que deve deixar de se defender dos que querem derrub\u00e1-lo. Mas, permitam perguntar: por que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar com mais franqueza? Por que se deve falar da guerra com eufemismos liberais?<\/p>\n<p>A guerra liberal tem uma contradi\u00e7\u00e3o central entre a grande ret\u00f3rica \u2013 a humanidade, a inoc\u00eancia, a maldade \u2013 e a limitada responsabilidade que se expressa pela aus\u00eancia de tropas terrestres e as pat\u00e9ticas legi\u00f5es de for\u00e7as de paz da ONU. Nas guerras justificadas primordialmente por fins altru\u00edstas, os l\u00edderes eleitos das democracias ocidentais investem sabiamente \u2013 se lhes conv\u00e9m \u2013 o sangue, ou os d\u00f3lares, de seus cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>A arma escolhida \u00e9 o poderio a\u00e9reo e o custo \u00e9 a incoer\u00eancia estrat\u00e9gica. Diante da falta de uma pol\u00edtica sobre o terreno, as for\u00e7as a\u00e9reas limitam-se a explodir coisas, revisar os resultados e dar voltas por a\u00ed. Se outros fatores n\u00e3o se modificam, o resultado mais prov\u00e1vel \u00e9 um beco sem sa\u00edda. Entretanto, o mais pernicioso \u00e9 a forma como a guerra liberal determina o entendimento dos conflitos, mediante uma prestidigita\u00e7\u00e3o digna de admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesta obra, h\u00e1 espa\u00e7o para dois atores protagonistas: o interventor humanit\u00e1rio (quase sempre a comunidade internacional conduzida pelo Ocidente) e o perpetrador b\u00e1rbaro, uma divis\u00e3o vacilante e seleta de l\u00edderes, regimes e grupos \u00e9tnicos. Assim, como em um passe de m\u00e1gica, pa\u00edses e povos reais com hist\u00f3rias sobrepostas se convertem em personagens de uma pe\u00e7a moralizante, estere\u00f3tipos b\u00e1sicos cuja conduta obedece a caracter\u00edsticas inatas.<\/p>\n<p>O melodrama vem em v\u00e1rios sabores, e de modo algum o Ocidente sempre se d\u00e1 bem no final. Mas seus termos se estabelecem de um modo fascinante: interesses e ideais, trag\u00e9dia e pol\u00edtica, paralisia burocr\u00e1tica e carisma. A mem\u00f3ria hist\u00f3rica \u00e9 uma baixa t\u00e3o imediata que ningu\u00e9m a nota. Os Estados Unidos lutaram em 1801 sua primeira guerra no que hoje \u00e9 a L\u00edbia, contra os reinos berberes do Marrocos e Tr\u00edpoli, ent\u00e3o vassalos do Imp\u00e9rio Otomano, tamb\u00e9m tendo por justificativa raz\u00f5es humanit\u00e1rias, bem assentadas em interesses comerciais.<\/p>\n<p>Cegados uma e outra vez pelos contos dos ocidentais bem intencionados e dos nativos violentos, nos resulta imposs\u00edvel ver as hist\u00f3rias compartilhadas e conexas que conduziram ao atual conflito, nas quais se situam os l\u00edbios, os ocidentais e outros povos. A L\u00edbia obteve sua independ\u00eancia como reino h\u00e1 apenas 60 anos, tendo Estados Unidos e Gr\u00e3-Bretanha como patr\u00f5es que forneciam dinheiro e armas em troca de petr\u00f3leo e estabilidade.<\/p>\n<p>A feira de atra\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Como em outros lugares, antes e agora, essa combina\u00e7\u00e3o gerou ressentimento popular e forneceu o caldo de cultivo para que surgissem alternativas pol\u00edticas que Gadafi soube aproveitar. Gadafi, no poder desde 1969, funciona muito bem como personagem de uma feira de atra\u00e7\u00f5es, e suas origens s\u00e3o encontradas nas hist\u00f3rias compartilhadas do Ocidente com o restante do mundo. Nos \u00faltimos anos, a guarda costeira e a pol\u00edcia fronteiri\u00e7a de Gadafi, treinadas e apoiadas pela Uni\u00e3o Europeia, eram muito valorizadas pelos \u201cbons europeus\u201d, pois ajudavam a manter longe os imigrantes africanos.<\/p>\n<p>O \u00faltimo servi\u00e7o da guerra liberal \u00e9 colocar a fonte da viol\u00eancia nos nativos, nos povos atrasados do mundo n\u00e3o-europeu, e n\u00e3o nos ocidentais que os exploram, os invadem, os ocupam e os bombardeiam. Se nos guiarmos pela ret\u00f3rica oficial, o problema do Iraque e do Afeganist\u00e3o tem a ver com preconceitos religiosos e \u00e9tnicos de popula\u00e7\u00f5es que seguem se matando irracionalmente entre si, enquanto os soldados ocidentais tentam amavelmente moderniz\u00e1-las.<\/p>\n<p>O grande custo da guerra liberal \u00e9 a clareza. O Ocidente corre o risco de criar uma situa\u00e7\u00e3o na qual n\u00e3o pode derrotar Gadafi por si mesmo, mas tampouco permite nem habilita os rebeldes para que o fa\u00e7am. Para levar adiante sua luta, Gadafi pode apelar para esquadr\u00f5es da morte e franco-atiradores. Por outro lado, como na B\u00f3snia-Herzegovina e Kosovo, fornecer armas ou permitir o ingresso de combatentes volunt\u00e1rios \u00e1rabes violaria a suposta neutralidade da interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A guerra n\u00e3o \u00e9 um conto moralizante, mas um violento abra\u00e7o m\u00fatuo. Uma reflex\u00e3o s\u00e9ria deve come\u00e7ar por admitir que o Ocidente \u00e9 uma das partes combatentes, e a \u00e9tica da responsabilidade exige ver al\u00e9m das sedu\u00e7\u00f5es do liberalismo. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Tarak Barkawi \u00e9 professor de Estudos Internacionais da Universidade de Cambridge, especializado em guerra, for\u00e7as armadas e sociedade, bem como no conflito entre Ocidente e o Sul global. Publicado sob acordo com a Al Jazeera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cambridge, Gr\u00e3-Bretanha, 29\/03\/2011 &ndash; Os fantasmas balc\u00e2nicos da d\u00e9cada de 1990 est\u00e3o de volta: zonas de exclus\u00e3o a\u00e9rea, guerra humanit\u00e1ria de Washington, Europa e ONU, garantias de que n\u00e3o ser\u00e3o enviadas tropas norte-americanas e uma ofensiva a\u00e9rea que por si s\u00f3 n\u00e3o pode mudar o que ocorre no solo. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/03\/mundo\/exclusao-aerea-confuso-nome-da-guerra-na-libia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":674,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,4,11],"tags":[16],"class_list":["post-8010","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-mundo","category-politica","tag-oriente-medio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/674"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8010"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8010\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}