{"id":8031,"date":"2011-04-04T17:52:43","date_gmt":"2011-04-04T17:52:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8031"},"modified":"2011-04-04T17:52:43","modified_gmt":"2011-04-04T17:52:43","slug":"brasil-potencial-da-cana-fomenta-a-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/04\/america-latina\/brasil-potencial-da-cana-fomenta-a-ciencia\/","title":{"rendered":"BRASIL: Potencial da cana fomenta a ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Piracicaba, Brasil, 04\/04\/2011 &ndash; Ap\u00f3s quase cinco s\u00e9culos sendo utilizada apenas para produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e alguns produtos menores, como aguardente, \u00e1lcool e mela\u00e7o, a cana-de-a\u00e7\u00facar passou a ser, no Brasil, fonte de infind\u00e1veis derivados e objeto de m\u00faltiplas pesquisas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas <!--more--> O etanol cresceu como outro produto principal nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas, dividindo com o a\u00e7\u00facar a sacarose extra\u00edda nas moendas. E agora s\u00e3o os dejetos, como baga\u00e7o, palha e vinhoto, que ganham protagonismo.<\/p>\n<p>O vinhoto, efluente da destila\u00e7\u00e3o do etanol, alimentar\u00e1 as algas microsc\u00f3picas que produzir\u00e3o biodiesel dentro de alguns anos, segundo um projeto do Centro de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias (CCA) da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos, localizado em Araras, a 170 quil\u00f4metros da cidade de S\u00e3o Paulo. Seus muitos nutrientes acelerar\u00e3o a prolifera\u00e7\u00e3o das algas que s\u00e3o ricas em \u00e1cidos graxos para elaborar biocombust\u00edveis.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ser\u00e3o produzidos fertilizantes, j\u00e1 que \u201cas algas sequestram 64% do pot\u00e1ssio presente no vinhoto\u201d, explicou \u00e0 IPS o chefe do Departamento de Tecnologia Agroindustrial do CCA, Octavio Valsechi. Outra vantagem \u00e9 evitar a monocultura de oleaginosas em grandes extens\u00f5es de terra. A d\u00favida \u00e9 se seu custo n\u00e3o ser\u00e1 superior ao do biodiesel feito a partir de \u00f3leos vegetais.<\/p>\n<p>O baga\u00e7o \u00e9 cada dia melhor aproveitado para gera\u00e7\u00e3o de eletricidade nas mesmas centrais a\u00e7ucareiras. Um Centro de Gaseifica\u00e7\u00e3o de biomassa, a ser constru\u00eddo nos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos em Piracicaba, a 160 quil\u00f4metros de S\u00e3o Paulo, apresenta perspectivas mais promissoras.<\/p>\n<p>Trata-se de uma usina-piloto para produzir g\u00e1s de s\u00edntese, que pode triplicar a eletricidade gerada pelo baga\u00e7o, al\u00e9m de se converter em combust\u00edvel l\u00edquido ou precursor de pl\u00e1sticos, segundo o Instituto de Pesquisas Tecnol\u00f3gicas (IPT), do governo do Estado de S\u00e3o Paulo, que projetou o plano e associou-se a v\u00e1rias entidades p\u00fablicas e privadas para viabiliz\u00e1-lo. No mundo j\u00e1 se gaseifica carv\u00e3o, mas a tecnologia para biomassa s\u00f3 agora ser\u00e1 testada em escala industrial.<\/p>\n<p>O potencial el\u00e9trico do baga\u00e7o ao utilizar a tecnologia atual, de queima direta nas caldeiras, equivale a \u201cuma Itaipu\u201d, em refer\u00eancia ao gigantesco complexo hidrel\u00e9trico compartilhado por Brasil e Paraguai com capacidade de 14 mil megawatts, segundo a Uni\u00e3o da Ind\u00fastria da Cana-de-A\u00e7\u00facar, que re\u00fane as maiores empresas do setor. Mesmo nesse m\u00e9todo tradicional, \u201cestamos perdendo a metade do potencial energ\u00e9tico da cana\u201d, porque o baga\u00e7o \u00e9 queimado com muita umidade, lamentou Octavio.<\/p>\n<p>A crescente mecaniza\u00e7\u00e3o da colheita, que ser\u00e1 total a partir de 2014 no Estado de S\u00e3o Paulo, com 60% da produ\u00e7\u00e3o nacional, permite que a palha da cana deixe de ser queimada. Mas, ainda se estuda a melhor maneira de recolh\u00ea-la no campo. \u201cDe cada cana pode-se retirar tudo o que o petr\u00f3leo produz\u201d, assegurou \u00e0 IPS Tadeu Andrade, diretor do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), criado em 1969 pela Copersucar, uma cooperativa de centrais a\u00e7ucareiras paulistas que se expandiu para outros Estados.<\/p>\n<p>\u00c9 o mais pr\u00f3ximo do \u201cmoto cont\u00ednuo (m\u00e1quina de movimento perp\u00e9tuo), porque se realimenta\u201d, gerando fertilizantes e a energia para seu pr\u00f3prio cultivo e processamento, al\u00e9m de produzir mais biomassas do que outros grandes cultivos, como milho ou soja, acrescentou. Seu vinhoto, rico em pot\u00e1ssio, aduba sua replanta\u00e7\u00e3o, bem como os res\u00edduos que ficam nos filtros da ind\u00fastria e a palha deixada no solo, afirmou, reconhecendo que \u00e9 necess\u00e1ria uma complementa\u00e7\u00e3o com fertilizantes qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>O caldo de cana, antes de ser transformado em a\u00e7\u00facar ou etanol, \u00e9 um substrato que pode ser usado para multiplicar microorganismos que servem a in\u00fameros produtos, desde pol\u00edmeros que regeneram ossos, a alimentos, medicamentos e cosm\u00e9ticos variados, al\u00e9m de plasma sangu\u00edneo, disse Octavio, ap\u00f3s lamentar a escassez de pesquisadores para a enorme demanda canavieira. O caminho para a energia do hidrog\u00eanio pode tamb\u00e9m estar na cana, afirmou.<\/p>\n<p>A \u201calcoolqu\u00edmicia\u201d j\u00e1 avan\u00e7ou muito no Brasil e uma grande ind\u00fastria petroqu\u00edmica produz os pl\u00e1sticos denominados \u201cverdes\u201d, por serem biodegrad\u00e1veis. A cana tamb\u00e9m permite fazer um tipo de combust\u00edvel de avia\u00e7\u00e3o. A Empresa Brasileira de Aeron\u00e1utica (Embraer), uma das grandes fabricantes de avi\u00f5es pequenos e m\u00e9dios de passageiros e outros de uso militar, anunciou para 2012 um voo de teste com um aparelho que utiliza bioquerosene.<\/p>\n<p>Essa diversifica\u00e7\u00e3o dos produtos da cana, impulsionando o conhecimento cient\u00edfico de suas potencialidades, tem origem no Programa Nacional do \u00c1lcool (Pr\u00f3-\u00c1lcool), iniciado em 1975 para substituir a gasolina e reduzir a importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, cujo pre\u00e7o havia quadruplicado em 1973. Desde ent\u00e3o, a colheita brasileira de cana aumentou sete vezes, mitigando a press\u00e3o petroleira, mas gerando outros problemas que exigem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O vinhoto, por exemplo, foi um desastre ambiental no come\u00e7o do Pr\u00f3-\u00c1lcool. Derramado nos rios, matou milh\u00f5es de peixes na d\u00e9cada de 1980 ao retirar-lhes oxig\u00eanio. A amea\u00e7a diminuiu quando come\u00e7ou a ser usado como fertilizante, ao se descobrir que cont\u00e9m muito pot\u00e1ssio.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de etanol de cana continua sendo proibida em muitos pa\u00edses latino-americanos, cujos solos j\u00e1 ricos em pot\u00e1ssio e len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos pouco profundos correm o risco de serem contaminados pela \u201cfertirriga\u00e7\u00e3o\u201d, admitiu Octavio, agr\u00f4nomo especializado em cana-de-a\u00e7\u00facar desde sua gradua\u00e7\u00e3o em 1980. Como cada litro de etanol destilado gera dez litros de efluente, as alternativas para se livrar do vinhoto s\u00e3o muito caras. Por isso as algas que capturam pot\u00e1ssio podem ser uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Argentina, com um solo com muito alum\u00ednio e clima menos favor\u00e1vel do que o do Brasil, \u00e9 ainda mais dif\u00edcil produzir etanol a partir da cana, disse Marcos Vieira, tamb\u00e9m professor do CCA que dirige a brasileira Rede Interuniversit\u00e1ria para o Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (Ridesa), de pesquisadores financiados pelo governo nacional para melhoria gen\u00e9tica da cana.<\/p>\n<p>As variedades desenvolvidas pela Ridesa, identificadas pela sigla RB, cobrem hoje 60% dos canaviais do Brasil e contribu\u00edram para elevar a produtividade em 85% por hectare, havendo casos de at\u00e9 150 toneladas, disse Marcos. H\u00e1 35 anos, n\u00e3o se chegava a 50 toneladas por hectare, em m\u00e9dia. A Ridesa busca \u201cvariedades ecl\u00e9ticas\u201d, que se adaptam a diferentes condi\u00e7\u00f5es de clima e solo do Brasil, mantendo boa produtividade e resist\u00eancia a pragas e secas, explicou.<\/p>\n<p>Por outro lado, o CTC, que atende prioritariamente seus associados da cooperativa, adotou uma orienta\u00e7\u00e3o oposta, de desenvolver variedades espec\u00edficas para diferentes solos e climas. \u201cS\u00e3o 25 combina\u00e7\u00f5es edafo-clim\u00e1ticas\u201d, cujos mapas ajudam os agricultores na escolha da variedade mais produtiva para sua terra, explicou Andrade.<\/p>\n<p>Mas os avan\u00e7os gen\u00e9ticos, que colocaram o Brasil em vantagem em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses produtores de cana, \u201cpor si s\u00f3 n\u00e3o melhoram a produ\u00e7\u00e3o no campo\u201d, reconheceu Tadeu. S\u00e3o necess\u00e1rias tamb\u00e9m pr\u00e1ticas agron\u00f4micas, que se disseminaram em muitos cursos do CTC, e ainda de mecaniza\u00e7\u00e3o. Uma regra adotada nos anos 1980, que define o pre\u00e7o da cana segundo seu \u00edndice de sacarose, obrigou os produtores a usar as melhores variedades de cana e t\u00e9cnicas de cultivo, acrescentou.<\/p>\n<p>Foi \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o\u201d, segundo o professor universit\u00e1rio Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e tamb\u00e9m vinculado ao setor. As pesquisas e o desenvolvimento de novos produtos da cana se estenderam tamb\u00e9m \u00e0s grandes empresas, como a norte-americana Amyris, especializada em biotecnologia, que busca no Brasil garantir o fornecimento de cana para produzir combust\u00edveis para avi\u00f5es, lubrificantes, cosm\u00e9ticos e outros derivados. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Piracicaba, Brasil, 04\/04\/2011 &ndash; Ap\u00f3s quase cinco s\u00e9culos sendo utilizada apenas para produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e alguns produtos menores, como aguardente, \u00e1lcool e mela\u00e7o, a cana-de-a\u00e7\u00facar passou a ser, no Brasil, fonte de infind\u00e1veis derivados e objeto de m\u00faltiplas pesquisas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/04\/america-latina\/brasil-potencial-da-cana-fomenta-a-ciencia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5],"tags":[27],"class_list":["post-8031","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8031","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8031"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8031\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8031"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8031"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8031"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}