{"id":8136,"date":"2011-04-27T17:48:14","date_gmt":"2011-04-27T17:48:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8136"},"modified":"2011-04-27T17:48:14","modified_gmt":"2011-04-27T17:48:14","slug":"a-onda-de-capitais-para-os-paises-emergentes-pode-ser-um-bumerangue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/04\/mundo\/a-onda-de-capitais-para-os-paises-emergentes-pode-ser-um-bumerangue\/","title":{"rendered":"A onda de capitais para os pa\u00edses emergentes pode ser um bumerangue"},"content":{"rendered":"<p>Genebra, Su\u00ed\u00e7a, 27\/04\/2011 &ndash; Uma caracter\u00edstica incomum da crise financeira global \u00e9 que, para os pa\u00edses em desenvolvimento (PD), a orquestra financeira parece ter recuperado o ritmo da m\u00fasica. <!--more--> Enquanto muitas economias avan\u00e7adas (EA) continuam trope\u00e7ando com o aumento da d\u00edvida, estreiteza financeira e riscos de insolv\u00eancia ou defla\u00e7\u00e3o, o problema financeiro para a maioria dos PD \u00e9 a infla\u00e7\u00e3o de ativos, expans\u00e3o do cr\u00e9dito e valoriza\u00e7\u00e3o de suas moedas.<\/p>\n<p>Exceto por uma breve interrup\u00e7\u00e3o em 2008, os PD continuam recebendo amplas entradas de capitais enquanto as mais importantes EA respondem \u00e0 crise causada pela liquidez e pelas d\u00edvidas excessivas mediante ainda mais quantias de liquidez para o resgate de bancos e governos em problemas, e baixando as taxas de juros. A expans\u00e3o monet\u00e1ria e as taxas de juros pr\u00f3ximas de zero est\u00e3o impulsionando uma onda de fluxos de capitais especulativos para os PD, com juros maiores e melhores perspectivas de crescimento, criando-se bolhas nos mercados de c\u00e2mbio, bens, cr\u00e9ditos e mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o quarto boom de inunda\u00e7\u00e3o de capitais para os PD no p\u00f3s-guerra. Os auges econ\u00f4micos anteriores tamb\u00e9m come\u00e7aram sob condi\u00e7\u00f5es de r\u00e1pida expans\u00e3o da liquidez e excepcionalmente baixas taxas de juros nos Estados Unidos e todos terminaram com quebras. O primeiro boom finalizou com uma crise da d\u00edvida na Am\u00e9rica Latina nos anos 1980, quando a pol\u00edtica monet\u00e1ria norte-americana endureceu. O segundo acabou com uma s\u00fabita retirada dos prestamistas na \u00c1sia do Leste, quando endureceram as condi\u00e7\u00f5es financeiras nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, se deterioraram as posi\u00e7\u00f5es macroecon\u00f4micas e externas dos pa\u00edses receptores. O terceiro per\u00edodo de auge foi paralelo \u00e0 bolha dos cr\u00e9ditos hipotec\u00e1rios de risco (subprime) e acabou no colapso da Lehman Brohters e na fuga de capitais no final de 2008, mas foi seguido por uma r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o em 2009.<\/p>\n<p>Como nesses epis\u00f3dios, a atual onda de capitais est\u00e1 criando fragilidade nos PD. Pa\u00edses com d\u00e9ficit, como Brasil, \u00cdndia, \u00c1frica do Sul e Turquia, est\u00e3o experimentando uma valoriza\u00e7\u00e3o de suas moedas mais rapidamente do que as economias com super\u00e1vit e contam com a entrada de capital para enfrentar o crescente d\u00e9ficit externo. Aqueles que mant\u00eam boa posi\u00e7\u00e3o financeira, agora se deparam com bolhas de cr\u00e9dito e ativos. Os dois tipos de pa\u00edses agora est\u00e3o expostos ao risco de instabilidade em maior medida do que durante a d\u00e9b\u00e2cle dos subprime, embora de maneiras diferentes.<\/p>\n<p>\u00c9 quase imposs\u00edvel prever o rumo que seguir\u00e1 o capital, mas \u00e9 vis\u00edvel que as condi\u00e7\u00f5es que empurram o boom s\u00e3o claramente insustent\u00e1veis. Pode-se presumir que as historicamente baixas taxas de juros nas EA n\u00e3o podem ser mantidas indefinidamente, e que o auge terminar\u00e1 quando as taxas de juros nos Estados Unidos come\u00e7arem a subir pouco a pouco. Tamb\u00e9m pode terminar como resultado de uma crise de balan\u00e7a de pagamentos ou uma desordem financeira em uma das principais economias emergentes que possa produzir cont\u00e1gios atrav\u00e9s do mundo em desenvolvimento, inclusive sem o endurecimento das condi\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias norte-americanas.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, h\u00e1 agora um risco de defla\u00e7\u00e3o e o Federal Reserve aponta para criar infla\u00e7\u00e3o nos mercados de bens e ativos. Por\u00e9m, suas pol\u00edticas est\u00e3o incentivando o boom das mat\u00e9rias-primas, a expans\u00e3o do cr\u00e9dito e os fluxos de capitais para os PD. Se os pre\u00e7os das commodities forem sustentados por um forte crescimento na China, o maior importador de mat\u00e9rias-primas, a continuada pol\u00edtica de expans\u00e3o monet\u00e1ria dos Estados Unidos, junto com a especula\u00e7\u00e3o e a inquieta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos pa\u00edses \u00e1rabes, o Federal Reserve pode acabar adotando uma pol\u00edtica anti-inflacion\u00e1ria. Neste caso, os auges do capital e das mat\u00e9rias-primas podem terminar da mesma maneira que o primeiro boom do p\u00f3s-guerra no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980, ou seja, por um r\u00e1pido endurecimento monet\u00e1rio nos Estados Unidos, mesmo antes de a economia se recuperar completamente da crise dos subprime.<\/p>\n<p>O auge tamb\u00e9m pode acabar por uma forte redu\u00e7\u00e3o do ritmo econ\u00f4mico na China. Como resultado de um programa de est\u00edmulos maci\u00e7os, financiado por cr\u00e9ditos baratos, ampla entrada de capital e alta nos pre\u00e7os das commodities, a economia chinesa est\u00e1 aquecendo. As medidas monet\u00e1rias aplicadas para controlar a infla\u00e7\u00e3o podem reduzir consideravelmente o crescimento, particularmente se furar a bolha imobili\u00e1ria. A consequente queda nos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas poderia ser agravada pela fuga de investimentos em futuros de commodities, criando dificuldades de pagamentos em economias ricas em mat\u00e9rias-primas e uma avers\u00e3o ao risco e a consequente fuga para investimentos seguros.<\/p>\n<p>Independentemente de como a atual conjuntura possa acabar, \u00e9 prov\u00e1vel que coincida com um retrocesso dos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas. Os pa\u00edses mais vulner\u00e1veis s\u00e3o os que desfrutam dos duplos benef\u00edcios da expans\u00e3o da liquidez \u2013 o boom nos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas e a entrada de capital. A maior parte deles fica na Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica e alguns sofrem crescente d\u00e9ficit apesar da bonan\u00e7a dos pre\u00e7os. Assim, a atual situa\u00e7\u00e3o traz \u00e0 mem\u00f3ria o ocorrido nos anos 1980, quando o M\u00e9xico, que havia desfrutado dos dois booms no per\u00edodo que antecede a subida dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e da expans\u00e3o dos cr\u00e9ditos banc\u00e1rios internacionais, foi o primeiro a entrar em crise.<\/p>\n<p>Quando as pol\u00edticas vacilam em manejar os fluxos de capital n\u00e3o h\u00e1 limites para o dano que as finan\u00e7as internacionais podem infligir a uma economia. Os acordos multilaterais carecem de mecanismos efetivos para restringir as pol\u00edticas competitivas dos emissores de reservas ou para controlar as sa\u00eddas em sua origem. A tarefa recai nos pa\u00edses receptores. Mas muitos PD ainda adotam um enfoque de n\u00e3o intervir na entrada de capitais, enquanto outros fazem tentativas t\u00edbias de control\u00e1-los mediante impostos que s\u00e3o muito baixos para igualar os amplos ganhos de arbitragem prometidos pelos diferenciais dos juros e da valoriza\u00e7\u00e3o da moeda. Em todo caso, levar mais a s\u00e9rio os controles do capital est\u00e1 na ordem do dia. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Imaz Akyuz \u00e9 economista-chefe do South Center de Genebra. Este artigo \u00e9 um resumo do autor do estudo \u201cCapital Flows to Developing Countries in a Historical Perspective: Will the Current Boom End With a Bust?\u201d (ver paper 37 www.southcentre.org). (IPS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genebra, Su\u00ed\u00e7a, 27\/04\/2011 &ndash; Uma caracter\u00edstica incomum da crise financeira global \u00e9 que, para os pa\u00edses em desenvolvimento (PD), a orquestra financeira parece ter recuperado o ritmo da m\u00fasica. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/04\/mundo\/a-onda-de-capitais-para-os-paises-emergentes-pode-ser-um-bumerangue\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1621,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,12,5,4],"tags":[],"class_list":["post-8136","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-desenvolvimento","category-economia","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1621"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8136"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8136\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}