{"id":8246,"date":"2011-05-18T16:59:14","date_gmt":"2011-05-18T16:59:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8246"},"modified":"2011-05-18T16:59:14","modified_gmt":"2011-05-18T16:59:14","slug":"brasil-megaconstrucoes-reacendem-a-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/05\/america-latina\/brasil-megaconstrucoes-reacendem-a-luta-de-classes\/","title":{"rendered":"BRASIL: Megaconstru\u00e7\u00f5es reacendem a luta de classes"},"content":{"rendered":"<p>Porto Velho, Brasil, 18\/05\/2011 &ndash; A f\u00faria foi proporcional \u00e0 multid\u00e3o presa entre a selva e a muralha que represar\u00e1 o Rio Madeira, no Noroeste do Brasil.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_8246\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/98202-20110517.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8246\" class=\"size-medium wp-image-8246\" title=\"A obra da represa hidrel\u00e9trica de Jirau. - Mario Osava \/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/98202-20110517.jpg\" alt=\"A obra da represa hidrel\u00e9trica de Jirau. - Mario Osava \/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8246\" class=\"wp-caption-text\">A obra da represa hidrel\u00e9trica de Jirau. - Mario Osava \/IPS<\/p><\/div>  Em tr\u00eas dias, os oper\u00e1rios incendiaram cerca de 50 \u00f4nibus, outros ve\u00edculos, instala\u00e7\u00f5es de trabalho e at\u00e9 seus alojamentos, com capacidade para 16 mil pessoas. A rebeli\u00e3o, que ainda n\u00e3o est\u00e1 aplacada, come\u00e7ou dia 15 de mar\u00e7o e paralisou as obras de Jirau, uma das maiores hidrel\u00e9tricas em constru\u00e7\u00e3o no Estado de Rond\u00f4nia.<\/p>\n<p>O posterior acordo por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, assinado entre l\u00edderes sindicais e o cons\u00f3rcio construtor por si s\u00f3 ainda n\u00e3o conseguiu restabelecer a normalidade. \u00c9 que, devido \u00e0 maioria dos trabalhadores ser oriunda de \u00e1reas muito distantes, s\u00f3 poder\u00e3o reiniciar suas tarefas ap\u00f3s a reconstru\u00e7\u00e3o dos locais onde vivem. Al\u00e9m disso, houve o an\u00fancio de milhares de demiss\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas os inc\u00eandios em Jirau desataram uma sucess\u00e3o de greves em outros grandes projetos, como usinas energ\u00e9ticas, portos, uma refinaria de petr\u00f3leo e um complexo petroqu\u00edmico, que empregam dezenas de milhares de empregados da constru\u00e7\u00e3o em diferentes e distantes lugares, principalmente no Norte e Nordeste, as regi\u00f5es mais pobres do pa\u00eds. \u00c0 greve aderiram em mar\u00e7o cerca de 160 mil trabalhadores, segundo dados do estudo setorial do Departamento Intersindical de Estat\u00edsticas e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese) divulgado no dia 12.<\/p>\n<p>A \u201cexplos\u00e3o\u201d de Jirau tem sua base no fato de milhares de trabalhadores permanecerem \u201cconfinados em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es nesse lugar e serem tratados de forma autorit\u00e1ria\u201d, segundo Jos\u00e9 Dari Krein, diretor do Centro de Estudos Sindicas e de Economia do Trabalho, da Universidade Estadual de Campinas. A obra empregava 22 mil pessoas antes do conflito. As mesmas raz\u00f5es s\u00e3o as que levaram \u00e0 revolta, nove meses antes, em Santo Antonio, outro complexo hidrel\u00e9trico em constru\u00e7\u00e3o no Rio Madeira, este a 120 quil\u00f4metros de Jirau, que deixou como saldo 35 \u00f4nibus destru\u00eddos e paralisou os trabalhos por v\u00e1rios dias. O estopim foi a agress\u00e3o a um oper\u00e1rio, como em Jirau.<\/p>\n<p>Estas revoltas se assemelham \u00e0 greve dos cortadores de cana-de-a\u00e7\u00facar, que em maio de 1984 convulsionaram Guariba, a 350 quil\u00f4metros de S\u00e3o Paulo, onde saquearam pr\u00e9dios p\u00fablicos e um supermercado, incendiaram autom\u00f3veis e canaviais e houve forte repress\u00e3o policial. Os cortadores, tamb\u00e9m imigrantes de outras partes do Brasil em sua maioria, reagiram diante das condi\u00e7\u00f5es degradantes de trabalho. O levante surpreendeu at\u00e9 mesmo dirigentes sindicais e ativistas cat\u00f3licos que apoiavam os boias-frias e assustou governantes e empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u201cA greve foi terr\u00edvel, mas tamb\u00e9m foi uma li\u00e7\u00e3o, mudou a vida de todos os trabalhadores\u201d, recorda Wilson Rodrigues da Silva, que viveu a revolta quanto tinha 18 anos de idade, e quatro como cortador de cana. Falta muito para melhorar, mas nesse per\u00edodo foram conquistados direitos e um processo de negocia\u00e7\u00e3o com as empresas, avaliou Wilson, atual presidente do Sindicato de Empregados Rurais de Guariba.<\/p>\n<p>Precisamente, a cria\u00e7\u00e3o desse sindicato e outros 70 no Estado de S\u00e3o Paulo, que representam cerca de 300 mil trabalhadores, foi um dos principais resultados da Batalha de Guariba, que se estendeu a outros munic\u00edpios vizinhos. O governo federal incentivou, em 1975, a substitui\u00e7\u00e3o da gasolina pelo etanol, for\u00e7ando uma acelerada expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de cana, como resposta \u00e0 alta dos pre\u00e7os internacionais do petr\u00f3leo na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Isso multiplicou a emigra\u00e7\u00e3o de cortadores para munic\u00edpios produtores de cana como Guariba, trazendo consigo maior explora\u00e7\u00e3o e abusos, como obrigar os empregados a se alojarem em locais insalubres e a prolifera\u00e7\u00e3o de enganos para reduzir a remunera\u00e7\u00e3o por tonelada de cana colhida acertada com os trabalhadores, recordou Wilson. A press\u00e3o por produtividade tornou explosiva a situa\u00e7\u00e3o trabalhista justamente no setor rec\u00e9m-valorizado como estrat\u00e9gico para reduzir a depend\u00eancia energ\u00e9tica e equilibrar a balan\u00e7a de pagamentos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Algo semelhante ocorre agora com os grandes projetos de infraestrutura e habita\u00e7\u00e3o, priorizados com altos investimentos do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC) do governo de Dilma Rousseff. Em consequ\u00eancia, o setor da constru\u00e7\u00e3o cresceu 11,6% em seu produto e 1% em empregos formais no ano passado.<\/p>\n<p>Na constru\u00e7\u00e3o civil, como antes no setor canavieiro, s\u00e3o prec\u00e1rias as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas, agravadas por uma fraca organiza\u00e7\u00e3o sindical, favorecendo \u201cmobiliza\u00e7\u00f5es com um grau de agress\u00e3o maior do que em outras categorias melhor estruturadas\u201d, disse Krein. Os trabalhadores sem carteira assinada e que trabalham por conta pr\u00f3pria totalizavam mais de 4,3 milh\u00f5es em 2009, enquanto os empregados com todos os benef\u00edcios legais n\u00e3o chegavam a dois milh\u00f5es, segundo dados analisados pelo Dieese para real\u00e7ara a informalidade do setor. A rota\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 brutal. No ano passado, foram contratados 2,4 milh\u00f5es de trabalhadores enquanto as demiss\u00f5es chegaram a 2,2 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Tudo se agrava por um \u201cpreconceito tradicional\u201d que considera a constru\u00e7\u00e3o civil \u201cum trabalho menor\u201d, apenas aceit\u00e1vel como \u201c\u00faltima alternativa\u201d. O mesmo ocorre com o emprego rural e o dom\u00e9stico, especialmente entre jovens e gestores, destacou Lilian Marques, assessora t\u00e9cnica do Dieese. O trabalho tempor\u00e1rio, limitado ao per\u00edodo de colheita ou de cada tarefa na obra, dificulta a a\u00e7\u00e3o sindical e sua organiza\u00e7\u00e3o, bem como o s\u00fabito aumento da base oper\u00e1ria, acrescentou.<\/p>\n<p>Em Rond\u00f4nia, por exemplo, o Minist\u00e9rio do Trabalho registrou aumento de 54,4% de empregados formais na constru\u00e7\u00e3o civil em um \u00fanico ano, chegando ao total de 42.751 em 2010, gra\u00e7as basicamente aos projetos hidrel\u00e9tricos. Aumento semelhante foi registrado anteriormente, j\u00e1 que as obras come\u00e7aram em 2008. N\u00e3o por acaso o Sindicato de Trabalhadores da Ind\u00fastria da Constru\u00e7\u00e3o Civil do Estado de Rond\u00f4nia viveu uma crise em 2009, quando a Justi\u00e7a do Trabalho destituiu sua dire\u00e7\u00e3o e nomeou interventores para realizar elei\u00e7\u00f5es das quais saiu a atual dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos atribuem a divis\u00e3o sindical \u00e0 rebeli\u00e3o de mar\u00e7o em Jirau, que para alguns dirigentes foi uma a\u00e7\u00e3o premeditada por um grupo de v\u00e2ndalos. Agiram \u201cencapuzados\u201d e roubaram caixas eletr\u00f4nicos e bens pessoais, disseram oper\u00e1rios ouvidos pela IPS. \u201cN\u00e3o foi vandalismo de poucos, mas um protesto radical de trabalhadores punidos injustamente\u201d, contrap\u00f4s Altair Donizete de Oliveira, vice-presidente do Sindicato.<\/p>\n<p>A construtora Camargo Correa, respons\u00e1vel pelas obras de Jirau, \u201c\u00e9 a melhor em que j\u00e1 trabalhei\u201d, mas em Jirau colocou oper\u00e1rios em excesso para \u201cuma pequena equipe administrativa\u201d, afirmou. A essa \u201cfalha\u201d Altair acrescentou uma dezena de medidas de press\u00e3o com as quais a empresa provocou uma forte tens\u00e3o entre os oper\u00e1rios. Entre elas, a que causou maior indigna\u00e7\u00e3o geral foi a redu\u00e7\u00e3o de horas extras, destacou o sindicalista.<\/p>\n<p>O oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil \u201c\u00e9 diferente\u201d, quer trabalhar o m\u00e1ximo durante seu contrato para voltar com dinheiro para casa, explicou Altair. Sem as horas extras se ganha menos, e com tempo livre se gasta mais, o que vai contra o principal objetivo dos oper\u00e1rios que est\u00e3o longe de seus lares. Apesar de tudo, a forte expans\u00e3o do emprego que faz escassear a m\u00e3o de obra e inibe a outrora emigra\u00e7\u00e3o para as fontes de trabalho, \u201cfortaleceu o poder de negocia\u00e7\u00e3o\u201d dos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o, constatou Dario Carneiro, assessor da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Sindicatos do setor.<\/p>\n<p>\u201cNada mais justo reclamarem contrapartidas sociais, salariais e condi\u00e7\u00f5es decentes de trabalho para superar aspectos arcaicos\u201d do setor, que se refletem em baixa renda e maior \u00edndice de mortes por acidentes entre todos os setores trabalhistas no Brasil. Isto se deve ao descumprimento das normas m\u00ednimas de seguran\u00e7a, acrescentou Dario. A revolta em Jirau, por sua repercuss\u00e3o, e grandes concentra\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias em torno de projetos do PAC, representa uma boa oportunidade para se negociar um contrato nacional e condi\u00e7\u00f5es adequadas de trabalho na constru\u00e7\u00e3o civil, concluiu Krein. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Velho, Brasil, 18\/05\/2011 &ndash; A f\u00faria foi proporcional \u00e0 multid\u00e3o presa entre a selva e a muralha que represar\u00e1 o Rio Madeira, no Noroeste do Brasil. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/05\/america-latina\/brasil-megaconstrucoes-reacendem-a-luta-de-classes\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,5],"tags":[27],"class_list":["post-8246","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-economia","tag-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8246","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8246"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8246\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}