{"id":8278,"date":"2011-05-24T17:51:12","date_gmt":"2011-05-24T17:51:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8278"},"modified":"2011-05-24T17:51:12","modified_gmt":"2011-05-24T17:51:12","slug":"reportagem-amazonia-inovacoes-e-dramas-do-subito-progresso-hidreletrico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/05\/america-latina\/reportagem-amazonia-inovacoes-e-dramas-do-subito-progresso-hidreletrico\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Amaz\u00f4nia: Inova\u00e7\u00f5es e dramas do s\u00fabito progresso hidrel\u00e9trico"},"content":{"rendered":"<p>PORTO VELHO, Brasil, 24\/05\/2011 &ndash; (Tierram\u00e9rica).-  As represas que est\u00e3o sendo constru\u00eddas em uma parte do Noroeste brasileiro far\u00e3o desaparecer um modo de vida sob suas \u00e1guas, impondo avan\u00e7os e mudan\u00e7as dolosas.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_8278\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/527_Mutum_Parana_convirtiendose_en_poblado_fantasma_Mario_OsavaIPS.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8278\" class=\"size-medium wp-image-8278\" title=\"Mutum-Paran\u00e1 est\u00e1 perto de se transformar em povoado fantasma - Mario Osava \/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/527_Mutum_Parana_convirtiendose_en_poblado_fantasma_Mario_OsavaIPS.jpg\" alt=\"Mutum-Paran\u00e1 est\u00e1 perto de se transformar em povoado fantasma - Mario Osava \/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8278\" class=\"wp-caption-text\">Mutum-Paran\u00e1 est\u00e1 perto de se transformar em povoado fantasma - Mario Osava \/IPS<\/p><\/div>  O povoado amaz\u00f4nico de Mutum-Paran\u00e1, no Estado brasileiro de Rond\u00f4nia, est\u00e1 desaparecendo. Seus \u00faltimos im\u00f3veis ser\u00e3o desmantelados antes que as \u00e1guas da represa da hidrel\u00e9trica de Jirau, no Rio Madeira, cubra tudo. Um dos habitantes ocasionais de Mutum-Paran\u00e1, Francislei Araujo da Silva, sintetiza um modo de vida local que tamb\u00e9m se extingue diante das mudan\u00e7as radicais e repentinas provocadas pela constru\u00e7\u00e3o de duas hidrel\u00e9tricas no mesmo rio, Jirau e Santo Ant\u00f4nio, distantes 120 quil\u00f4metros uma da outra, no Noroeste do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cVivo nesta \u00e1rea desde 1989\u201d, disse Francislei ao Terram\u00e9rica. Suas fontes de renda s\u00e3o minera\u00e7\u00e3o, pesca e extra\u00e7\u00e3o de frutas amaz\u00f4nicas, como a\u00e7a\u00ed e castanha, quando n\u00e3o est\u00e1 trabalhando como taxista entre cidades e povoados do Oeste de Rond\u00f4nia. Mutum-Paran\u00e1, fundado h\u00e1 um s\u00e9culo quando a borracha natural fazia a Amaz\u00f4nia prosperar, cresceu como ponto de apoio do garimpo, que se desenvolveu nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas. A atividade assegurava passageiros para o t\u00e1xi de Francislei.<\/p>\n<p>Diante de imin\u00eancia da inunda\u00e7\u00e3o, a maioria dos dois mil habitantes do povoado foi reassentada em Nova Mutum, um conjunto de 1.600 casas e pr\u00e9dios p\u00fablicos e comerciais constru\u00eddo pelo cons\u00f3rcio Energia Sustent\u00e1vel do Brasil (ESBR), encarregado da obra em Jirau, que tem como principal acionista a corpora\u00e7\u00e3o francesa GDF Suez. Francislei n\u00e3o foi reconhecido como morador com direito a optar entre uma indeniza\u00e7\u00e3o ou uma nova casa, pois nos dias em que foi feito o levantamento da popula\u00e7\u00e3o \u201cestava fora, com o t\u00e1xi em Porto Velho\u201d, capital de Rond\u00f4nia, a 168 quil\u00f4metros de Mutum-Paran\u00e1, explicou.<\/p>\n<p>Ele reconhece que n\u00e3o tem resid\u00eancia fixa, \u201c\u00e0s vezes dormia no carro ou em uma pousada\u201d, mas reclama na justi\u00e7a o mesmo direito que tiveram outros moradores, j\u00e1 que fez sua vida aqui durante mais de 20 anos. Al\u00e9m disso, quer indeniza\u00e7\u00e3o por um terreno que diz possuir do outro lado do rio e que resultar\u00e1 inundado, e pelo mercado de passageiros que perder\u00e1 como taxista. Quando a represa ficar pronta, o garimpo poder\u00e1 se sustentar somente com novas tecnologias e dragas maiores, disse Luiz Medeiros da Silva, gerente de Socioeconomia da ESBR, que coordena programas para compensar os desalojados e mineradores, de educa\u00e7\u00e3o ambiental, e projetos que ficariam como legado para o futuro.<\/p>\n<p>Jirau e Santo Ant\u00f4nio constituem inova\u00e7\u00f5es no Brasil. Suas turbinas bulbo exigem pouca queda de \u00e1gua para funcionar e, portanto, represas menores. Jirau inundar\u00e1 258 quil\u00f4metros quadrados, uma superf\u00edcie pequena se comparada com represas semelhantes, pois ter\u00e1 capacidade para gerar entre 3.300 e 3.750 megwatts. Para desalojar os moradores, houve 316 processos, pela baixa densidade populacional. A maioria optou por indeniza\u00e7\u00f5es, enquanto 30 preferiram o reassentamento. A central Foz do Chapec\u00f3, que inundou 79,2 quil\u00f4metros quadrados no sul do pa\u00eds, implicou o deslocamento de quase 2.500 fam\u00edlias, comparou Anderson Imolesi, encarregado de reassentamento rural de Jirau.<\/p>\n<p>Os afetados na zona do Rio Madeira, al\u00e9m de serem poucos, \u201cn\u00e3o t\u00eam perfil agr\u00edcola, s\u00e3o ribeirinhos\u201d que tamb\u00e9m praticam garimpo e pesca, acrescentou. Em sua opini\u00e3o, os assistidos podem se considerar privilegiados. Al\u00e9m de uma casa em Nova Mutum, cada fam\u00edlia recebeu 15 hectares para plantar e uma reserva florestal de 60 hectares de onde \u00e9 poss\u00edvel extrair frutas, cumprindo uma exig\u00eancia legal. Al\u00e9m disso, a ESBR promove uma experi\u00eancia-piloto, combinando piscicultura e horticultura org\u00e2nica, que pode abrir alternativas sustent\u00e1veis e proporcionar renda para os reassentados rurais.<\/p>\n<p>O projeto prev\u00ea dois hectares de tanques para criar o tambaqui (Colossoma macropomum), peixe amaz\u00f4nico, e oito hectares de horta, milho e tub\u00e9rculos, regados com a \u00e1gua residual da piscicultura que \u00e9 rica em nutrientes. A meta \u00e9 produzir 20 toneladas de pescado no primeiro ano, 30 no segundo e 40 no terceiro ano, disse Olga Torres, t\u00e9cnica do Instituto Pr\u00f3-Natura que conduz a iniciativa para Jirau. A unidade est\u00e1 planejada para 15 fam\u00edlias que poder\u00e3o dessa forma ampliar sua renda.<\/p>\n<p>A capacita\u00e7\u00e3o e a execu\u00e7\u00e3o, em ciclos de seis a oito meses, pretendem desenvolver um modelo que seja poss\u00edvel aplicar em outras comunidades, disse Olga. Al\u00e9m disso, o grupo far\u00e1 reflorestamento, recuperando especialmente a vegeta\u00e7\u00e3o nas margens dos rios. Este e outros projetos t\u00eam o objetivo de deixar algum legado econ\u00f4mico quando terminarem as obras da hidrel\u00e9trica, levando ao desaparecimento milhares de empregos na constru\u00e7\u00e3o da usina.<\/p>\n<p>Com esse fim, foi encomendado um plano de desenvolvimento local a uma equipe da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas, de S\u00e3o Paulo, que incluiria um polo industrial vizinho a Nova Mutum, para o qual se disp\u00f5e de terras, disse Luiz Medeiros. Um fabricante de equipamentos hidromec\u00e2nicos j\u00e1 decidiu instalar-se no local. Apesar dos esfor\u00e7os, n\u00e3o h\u00e1 forma de mitigar os impactos avassaladores de um megaprojeto como Jirau em um ambiente t\u00e3o vulner\u00e1vel. A constru\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea e pr\u00f3xima de duas hidrel\u00e9tricas agrava as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 s\u00e9rios ind\u00edcios\u201d de que os ind\u00edgenas ficar\u00e3o isolados na \u00e1rea de influ\u00eancia das represas, fato que exigia estudos pr\u00e9vios \u00e0s obras, destacou Israel do Vale, coordenador geral da Associa\u00e7\u00e3o de Defesa Etnoambiental Kanindu\u00e9, com sede em Porto Velho. Rond\u00f4nia tem 52 etnias ind\u00edgenas que falam 30 l\u00ednguas diferentes e sofrem os graves efeitos causados pela r\u00e1pida ocupa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola de seu territ\u00f3rio, a partir da d\u00e9cada de 1970. Com Jirau s\u00e3o afetados os territ\u00f3rios dos grupos karitiana e karipuna, acrescentou. \u201cN\u00e3o foram cumpridas as medidas condicionantes que as empresas deveriam executar, tamb\u00e9m antes das obras, para garantir condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia aos ind\u00edgenas\u201d, queixou-se.<\/p>\n<p>O Movimento dos Afetados por Represas (MAB) protesta pela falta de di\u00e1logo por parte da ESBR, contrastando com a atitude dos construtores de Santo Ant\u00f4nio, que aceitaram a negocia\u00e7\u00e3o e as sugest\u00f5es sobre como assentar uma comunidade. De todo modo, os dois cons\u00f3rcios s\u00f3 reconhecem como afetados os que sofrem a inunda\u00e7\u00e3o para formar a represa, e excluem a popula\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada por mudan\u00e7as indiretas, como perda de meios de vida, de acesso ao transporte ou \u00e0s escolas, criticou Ocelio Muniz, coordenador do MAB em Rond\u00f4nia. Ocelio estima que dez mil fam\u00edlias ver\u00e3o alteradas de alguma maneira suas formas de vida pelas duas hidrel\u00e9tricas. Santo Ant\u00f4nio admite que esse impacto chegar\u00e1 a apenas 1.621 fam\u00edlias, e Jirau a muito menos.<\/p>\n<p>* * O autor \u00e9 correspondente da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PORTO VELHO, Brasil, 24\/05\/2011 &ndash; (Tierram\u00e9rica).-  As represas que est\u00e3o sendo constru\u00eddas em uma parte do Noroeste brasileiro far\u00e3o desaparecer um modo de vida sob suas \u00e1guas, impondo avan\u00e7os e mudan\u00e7as dolosas. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/05\/america-latina\/reportagem-amazonia-inovacoes-e-dramas-do-subito-progresso-hidreletrico\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5,10],"tags":[21],"class_list":["post-8278","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-energia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8278","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8278"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8278\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}