{"id":8367,"date":"2011-06-13T18:27:22","date_gmt":"2011-06-13T18:27:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8367"},"modified":"2011-06-13T18:27:22","modified_gmt":"2011-06-13T18:27:22","slug":"coluna-os-dois-idiomas-da-revolucao-religiosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/06\/mundo\/coluna-os-dois-idiomas-da-revolucao-religiosa\/","title":{"rendered":"COLUNA: Os dois idiomas da revolu\u00e7\u00e3o religiosa"},"content":{"rendered":"<p>Nova York, Estados Unidos, 13\/06\/2011 &ndash; Em nosso mundo globalizado e pluralista, as comunidades religiosas devem poder falar a mesma l\u00edngua de seus fieis, mas tamb\u00e9m a do p\u00fablico em geral. <!--more--> Tep Vong, patriarca supremo da comunidade budista do Camboja, viajou \u00e0 cidade de Jaffna, no Sri Lanka, em meio \u00e0 guerra civil (1983-2009) e, apesar do estado de s\u00edtio, uniu-se a outros \u2013 budistas, hindus, mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os \u2013 para colocar um fim pac\u00edfico ao violento conflito entre cingaleses e tamis.<\/p>\n<p>A for\u00e7a de sua tranquila determina\u00e7\u00e3o budista foi inconfund\u00edvel. Mas ele nunca citou uma s\u00f3 escritura budista. O que fez foi falar com a linguagem mais simples. Quem pensasse em falar claramente, com palavras comuns, era revolucion\u00e1rio? Para muitas comunidades religiosas, sim. A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 o cultivo de uma a\u00e7\u00e3o multirreligiosa baseada em significados religiosos ancestrais, com o uso de novas maneiras de se comunicar entre religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m prestar aten\u00e7\u00e3o, encontrar\u00e1 evid\u00eancias em todas as partes: zonas de guerra, lugares onde h\u00e1 extrema pobreza, escolas e bairros comuns. As for\u00e7as de fan\u00e1ticos religiosos dominam as manchetes dos jornais, mas a grande not\u00edcia \u00e9 que as comunidades religiosas cooperam ativamente em um n\u00edvel at\u00e9 h\u00e1 pouco inimagin\u00e1vel. Operando lado a lado na primeira linha dos desafios atuais, a coopera\u00e7\u00e3o multirreligiosa se tornou dominante e est\u00e1 aumentando.<\/p>\n<p>O que acontece? Por acaso as comunidades religiosas decidiram se desfazer das identidades que as distinguem, abandonar as diferen\u00e7as doutrin\u00e1rias ignorar o transcendente para achatar-se at\u00e9 se converterem em simples organiza\u00e7\u00f5es human\u00edsticas? Provavelmente, n\u00e3o. Aferram-se \u00e0s diferen\u00e7as que as definem em rela\u00e7\u00e3o ao transcendental, mas tamb\u00e9m est\u00e3o trabalhando juntas.<\/p>\n<p>Revolucion\u00e1rio \u00e9 a exitosa combina\u00e7\u00e3o destes dois aspectos: as diferen\u00e7as religiosas reais e a coopera\u00e7\u00e3o positiva, em um n\u00edvel sem precedentes. Uma chave para entender a revolu\u00e7\u00e3o subjacente \u00e9 o fato de as comunidades religiosas de hoje serem cada vez mais \u201cbil\u00edngues\u201d.<\/p>\n<p>Uma dupla imagem ilustra o novo bilinguismo. Nos anos 1960, Martin Luther King (1929-1968), pregou em uma pequena igreja crist\u00e3 sobre o flagelo do racismo. Usou o idioma da cristandade: suas escrituras, suas imagens, sua teologia, suas ora\u00e7\u00f5es e outras tradi\u00e7\u00f5es. Falou aos crist\u00e3os como crist\u00e3o, utilizando sua pr\u00f3pria linguagem religiosa.<\/p>\n<p>Depois, King dirigiu-se ao Monumento a Abraham Lincoln em Washington, onde falou com convic\u00e7\u00e3o sobre o racismo para centenas de milhares de pessoas, algumas delas professando diferentes cren\u00e7as religiosas ou, diretamente, nenhuma. Nessa ocasi\u00e3o, King continuou sendo o mesmo homem religioso. N\u00e3o mudou enquanto caminhava da igreja at\u00e9 o monumento. No entanto, n\u00e3o podia simplesmente repetir o serm\u00e3o pronunciado no templo.<\/p>\n<p>Muitas das pessoas ali reunidas n\u00e3o compartilhavam o idioma de sua igreja. Portanto, King falou o idioma da pra\u00e7a p\u00fablica. Nunca deixou de ser um crente, mas nas diferentes circunst\u00e2ncias expressou seu ponto de vista, religiosamente arraigado, de duas maneiras diferentes. Foi bil\u00edngue em mat\u00e9ria religiosa.<\/p>\n<p>Muitas comunidades religiosas adquirem rapidamente esse mesmo bilinguismo. Mant\u00eam seu pr\u00f3prio idioma religioso na hora do interc\u00e2mbio e da a\u00e7\u00e3o dentro de si mesmas, mas usam uma linguagem corrente com o mesmo fim no espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Mustafa Ceric, grande mufti da B\u00f3snia-Herzegovina, conduziu sua comunidade isl\u00e2mica para a reconcilia\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o amargo trauma da guerra civil dos anos 1990. Para isso, primeiro trabalhou como mu\u00e7ulmano entre os mu\u00e7ulmanos, usando a riqueza da linguagem isl\u00e2mica, incluindo suas escrituras e tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E, junto com o cardeal cat\u00f3lico apost\u00f3lico romano Vinko Puljic; o bispo ortodoxo s\u00e9rvio Nikolai, e o l\u00edder judeu Jacob Finci, tamb\u00e9m trabalhou em uma linguagem p\u00fablica compartilhada para oferecer \u00e0 exausta na\u00e7\u00e3o uma vis\u00e3o comum da unidade que chamou todos para a a\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a dor da guerra, o bilinguismo ajudou a aproveitar o poder de cada comunidade religiosa para cooperar na constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em nosso mundo globalizado, tanto o idioma religioso sect\u00e1rio como o p\u00fablico t\u00eam uma import\u00e2ncia insubstitu\u00edvel para as comunidades religiosas. No mundo pluralista de hoje, nenhum dos dois pode colapsar no outro sem empobrecer a capacidade de uma comunidade religiosa de conhecer a si mesma e tamb\u00e9m fazer o m\u00e1ximo poss\u00edvel pelos demais.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o em marcha porque cada vez mais comunidades religiosas adquirem a destac\u00e1vel capacidade de passar da linguagem do templo para o da pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>As duas formas s\u00e3o necess\u00e1rias para que tenhamos comunidades religiosas diversas, compostas por membros informados e com uma sensibilidade moral duradoura, que possam encontrar um meio de colaborar com quem professa outra cren\u00e7a ou nenhuma, na hora de enfrentar os desafios mundiais de nosso tempo. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* William F. Vendley \u00e9 secret\u00e1rio-geral da Religions for Peace.<\/p>\n<p>** Este artigo \u00e9 parte da s\u00e9rie \u201cReligi\u00e3o, Pol\u00edtica e Espa\u00e7o P\u00fablico\u201d, que acontece em colabora\u00e7\u00e3o com a Alian\u00e7a de Civiliza\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas e seu projeto de Especialistas Mundiais (www.theglobalexperts.org). Os pontos de vista expressos nestes artigos s\u00e3o dos autores e n\u00e3o necessariamente refletem os da Alian\u00e7a de Civiliza\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas ou das institui\u00e7\u00f5es \u00e0s quais est\u00e3o filiados os autores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova York, Estados Unidos, 13\/06\/2011 &ndash; Em nosso mundo globalizado e pluralista, as comunidades religiosas devem poder falar a mesma l\u00edngua de seus fieis, mas tamb\u00e9m a do p\u00fablico em geral. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/06\/mundo\/coluna-os-dois-idiomas-da-revolucao-religiosa\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,11],"tags":[],"class_list":["post-8367","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8367"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8367\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}