{"id":8548,"date":"2011-07-25T15:56:47","date_gmt":"2011-07-25T15:56:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8548"},"modified":"2011-07-25T15:56:47","modified_gmt":"2011-07-25T15:56:47","slug":"brasil-a-ameaca-do-veneno-que-chega-do-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/07\/america-latina\/brasil-a-ameaca-do-veneno-que-chega-do-campo\/","title":{"rendered":"BRASIL: A amea\u00e7a do veneno que chega do campo"},"content":{"rendered":"<p>Cuiab\u00e1, Brasil, 25\/07\/2011 &ndash; A \u00e1gua pot\u00e1vel no Brasil pode conter 22 tipos de agrot\u00f3xicos, 13 de metais pesados, 13 de solventes e seis de desinfetantes. Essa presen\u00e7a contaminante \u00e9 tolerada at\u00e9 n\u00edveis fixados em uma escala oficial, que \u00e0s vezes \u00e9 ultrapassada por conveni\u00eancias econ\u00f4micas e devido a controles inadequados. <!--more--> At\u00e9 1977 as autoridades determinavam que a \u00e1gua pr\u00f3pria para consumo humano n\u00e3o podia conter res\u00edduos de mais de 12 agrot\u00f3xicos e dez metais. Nada sobre os demais. Desde ent\u00e3o foram feitas duas atualiza\u00e7\u00f5es, em 1990 e 2004, \u201clegalizando\u201d os res\u00edduos de novos insumos qu\u00edmicos usados na agricultura e na ind\u00fastria, lamentou Wanderlei Pignati, m\u00e9dico e professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o, a Uni\u00e3o Europeia s\u00f3 admite cinco agrot\u00f3xicos, com limites inferiores aos previstos no Brasil e um total que impede que cada um chegue ao m\u00e1ximo tolerado, cuidado este tamb\u00e9m n\u00e3o adotado no Brasil. O controle de qualidade da \u00e1gua pot\u00e1vel, ainda baseado em eliminar bact\u00e9rias, n\u00e3o acompanha a crescente contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, que exige equipamentos \u201ccaros e sofisticados\u201d em medi\u00e7\u00f5es complexas, afirmou Pignati, especialista que \u00e9 refer\u00eancia nacional na pesquisa e na luta contra o que se considera abuso de venenos agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>O Brasil se converteu, h\u00e1 tr\u00eas anos, no maior consumidor mundial de defensivos agr\u00edcolas de cultivos, apesar de produzir, por exemplo, menos de um ter\u00e7o de gr\u00e3os do que os Estados Unidos. \u00c9 o custo da lideran\u00e7a em agricultura tropical, alcan\u00e7ado nas \u00faltimas d\u00e9cadas e que lhe permitiu exportar US$ 76,4 bilh\u00f5es em bens deste setor no ano passado. A fa\u00e7anha econ\u00f4mica brasileira se concretizou gra\u00e7as a muita pesquisa agron\u00f4mica e intenso emprego de fertilizantes, inseticidas, herbicidas e fungicidas, al\u00e9m da aposta nas monoculturas extensivas, especialmente a soja, que se converteu no principal produto das exporta\u00e7\u00f5es, superando de longe os tradicionais caf\u00e9 e a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>O Estado do Mato Grosso, no centro oeste do pa\u00eds e na fronteira sudeste da Amaz\u00f4nia, sintetiza essa mudan\u00e7a ao se constituir no maior produtor nacional de soja e, por extens\u00e3o, tamb\u00e9m o maior consumidor de defensivos agr\u00edcolas, denomina\u00e7\u00e3o para os agroqu\u00edmicos preferidos pelos produtores e camponeses.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de expandir a \u00e1rea plantada, o que ocorre a partir do desmatamento, o setor produtor local intensificou o uso de agrot\u00f3xicos. \u201cH\u00e1 dez anos aplicavam-se oito litros em um hectare de soja, hoje s\u00e3o dez litros\u201d, disse Pignati. \u201cOs agrot\u00f3xicos s\u00e3o uma droga l\u00edcita, como o \u00e1lcool e o tabaco\u201d, acrescentou ao responder uma pergunta da IPS. O modelo de desenvolvimento agr\u00edcola brasileiro estimula seu uso, isentando-os, por exemplo, do imposto comercial que, no entanto, \u00e9 aplicado em medicamentos, em uma prioridade reversa, em detrimento da sa\u00fade, ressaltou o especialista.<\/p>\n<p>Pignati \u00e9 um dos ativistas da Campanha Permanente Contra os Agrot\u00f3xicos e Pela Vida, lan\u00e7ada no Mato Grosso no come\u00e7o de junho, que se dedica a estudar o assunto e divulgar seus conhecimentos desde que chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que \u00e9 mais eficiente atacar as causas das enfermidades do que formar m\u00e9dicos para tratamentos individuais. Na universidade, vinculou-se ao Departamento de Sa\u00fade Coletiva. O Mato Grosso consome cerca de 150 milh\u00f5es de litros de agrot\u00f3xicos por ano, equivalente a 50 litros por habitante, contra a m\u00e9dia nacional de 5,2 litros, segundo Pignati.<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel contaminar as \u00e1guas em um Estado que possui milhares de nascentes fluviais que alimentam as bacias do Rio da Prata e outras quatro amaz\u00f4nicas, alertou Pignati. O sistema de tratamento da \u00e1gua para consumo da popula\u00e7\u00e3o data de \u201ccem anos atr\u00e1s\u201d e busca retirar contaminantes por decanta\u00e7\u00e3o, mas muitos produtos qu\u00edmicos escapam desse m\u00e9todo e ficam dissolvidos na \u00e1gua, explicou. Seus efeitos n\u00e3o s\u00e3o apenas as diarreias, mas neurol\u00f3gicos, cancer\u00edgenos, endocrinol\u00f3gicos, psiqui\u00e1tricos e sua presen\u00e7a persiste durante d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A \u201cdisfun\u00e7\u00e3o end\u00f3crina\u201d, um tema recente evidenciado pela prolifera\u00e7\u00e3o de diabetes, hipotireoidismo e outros dist\u00farbios, servem de alerta para esse problema, alerta o m\u00e9dico. O risco sanit\u00e1rio no Brasil aumenta pelo uso de venenos que h\u00e1 muito tempo foram proibidos em outros pa\u00edses, especialmente na Europa. O caso emblem\u00e1tico \u00e9 o Endosulfan, um inseticida respons\u00e1vel por intoxica\u00e7\u00f5es fatais, abortos, m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o fetal e danos aos sistemas nervoso e imunol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Uma resolu\u00e7\u00e3o governamental de 2010 determina sua aboli\u00e7\u00e3o gradual no Brasil. O Endosulfan estar\u00e1 proibido somente a partir de 2013, e nas pr\u00f3ximas semeaduras ainda ser\u00e1 permitida a utiliza\u00e7\u00e3o de 14,8 milh\u00f5es de litros. Outros 13 produtos est\u00e3o sendo avaliados pela Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa). A aplica\u00e7\u00e3o desses venenos por meio de avi\u00f5es, o que agrava a contamina\u00e7\u00e3o de pessoas, \u00e1gua e biodiversidade devido \u00e0 dispers\u00e3o incontrolada, \u00e9 um alvo priorit\u00e1rio dos ambientalistas.<\/p>\n<p>Uma \u201cchuva de agrot\u00f3xicos\u201d, lan\u00e7ada por um avi\u00e3o pulverizador, caiu em mar\u00e7o de 2006 sobre Lucas do Rio Verde, cidade de 45 mil habitantes no norte do Mato Grosso, rodeada de soja em uma \u00e9poca ou de milho e algod\u00e3o, em outra. A intoxica\u00e7\u00e3o de pessoas, animais e planta\u00e7\u00f5es provocou condena\u00e7\u00f5es e amplos debates. Outro grande impacto teve a divulga\u00e7\u00e3o em mar\u00e7o de um estudo feito por Danielly Palma, coordenado por Pignati, que identificou a presen\u00e7a residual de agrot\u00f3xicos no leite materno de 62 mulheres examinadas no ano passado em Lucas de Rio Verde em 2010.<\/p>\n<p>Em todas havia DDE, que \u00e9 no que se transforma o DDT (dicloro difenil tricoloroetano), e em 44% delas foram encontrados res\u00edduos de Endosulfan. Mas estas cr\u00edticas e pesquisas s\u00e3o relativizadas por dirigentes pol\u00edticos do mundo dos grandes neg\u00f3cios agropecu\u00e1rios. A compara\u00e7\u00e3o com a Europa \u00e9 indevida, devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es distintas. Os agricultores brasileiros cumprem as regras fixadas pela Anvisa, o \u00f3rg\u00e3o regulador do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, afirmou Seneri Paludo, diretor-executivo da Federa\u00e7\u00e3o da Agricultura de Mato Grosso.<\/p>\n<p>A quantidade de consumo de defensivos agr\u00edcolas por quantidade de habitantes tampouco \u00e9 uma medida leg\u00edtima, acrescentou Paludo. Os agricultores tendem a usar \u201cuma dose inferior \u00e0 necess\u00e1ria, o que \u00e0s vezes agrava as pragas\u201d, porque os defensivos representam maiores custos, afirmou. Sua disposi\u00e7\u00e3o em proteger o meio ambiente se comprova pelo fato de Mato Grosso ser l\u00edder nacional em coleta de embalagens de agroqu\u00edmicos usados, ressaltou o dirigente.<\/p>\n<p>Por sua vez, Edu Pascoski, secret\u00e1rio de Agricultura e Meio Ambiente de Lucas do Rio Verde, argumenta que os res\u00edduos identificados nas pesquisas em seu Munic\u00edpio \u201cest\u00e3o dentro dos n\u00edveis aceit\u00e1veis\u201d, fixados pela Anvisa. Tamb\u00e9m justificou que o DDT e o DDE permanecem nos seres humanos por mais de 60 anos, por isso o que foi encontrado nos estudos de Danielly Palma pode refletir o uso do produto em etapas muito anteriores \u00e0 sua proibi\u00e7\u00e3o em 1998.<\/p>\n<p>Contudo, se forem verificados \u201cabusos no uso de agroqu\u00edmicos\u201d, isso ser\u00e1 devido a permiss\u00f5es dadas por autoridades nacionais, afirmou Pascoski, ap\u00f3s garantir que sua cidade apresenta bom desempenho ambiental, com um acompanhamento constante da qualidade da \u00e1gua pot\u00e1vel, \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o preservadas ou em recupera\u00e7\u00e3o e abundante vegeta\u00e7\u00e3o. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cuiab\u00e1, Brasil, 25\/07\/2011 &ndash; A \u00e1gua pot\u00e1vel no Brasil pode conter 22 tipos de agrot\u00f3xicos, 13 de metais pesados, 13 de solventes e seis de desinfetantes. 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