{"id":856,"date":"2005-08-02T00:00:00","date_gmt":"2005-08-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=856"},"modified":"2005-08-02T00:00:00","modified_gmt":"2005-08-02T00:00:00","slug":"direitos-humanos-o-sul-da-colmbia-vai-explodir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/mundo\/direitos-humanos-o-sul-da-colmbia-vai-explodir\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos: &quot;O sul da Col&ocirc;mbia vai explodir&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Bogot&aacute;, 02\/08\/2005 &ndash; Camponeses de quatro departamentos do centro e sul da Col&ocirc;mbia anunciaram a cria&ccedil;&atilde;o de um movimento civil contra o Plano Patriota, a ofensiva militar governamental financiada pelos Estados Unidos contra a guerrilha esquerdista. &quot;O sul do pa&iacute;s vai explodir&quot;, advertiu H&eacute;ctor Torres, delegado das 29 juntas de a&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria na Comiss&atilde;o de Direitos Humanos do Baixo Ariari, no departamento de Meta, centro do Pa&iacute;s, durante entrevista coletiva em Bogot&aacute;. &quot;Com todas as viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos que o Estado colombiano vem cometendo, as comunidades decidiram que n&atilde;o devem ficar caladas&quot;, afirmou Luis Antonio Valencia, do departamento de Caquet&aacute;, ao sul de Meta.<br \/> <!--more--> <br \/> Em uma declara&ccedil;&atilde;o divulgada na sexta-feira por comunidades dos departamentos de Caquet&aacute;, Guaviare, Meta e Putumayo, os camponeses acusam a insurg&ecirc;ncia das For&ccedil;as Armadas Revolucion&aacute;rias da Col&ocirc;mbia (Farc) e seus inimigos, os ultradireitistas paramilitares, de semearem minas terrestres, violando o direito internacional humanit&aacute;rio. &quot;Devemos defender nossa terra e nos pronunciarmos perante as organiza&ccedil;&otilde;es sociais e os organismos nacionais e internacionais. Por isso nos unimos &agrave;s 131 juntas de a&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria e os sindicatos regionais do munic&iacute;pio&quot;, de Cartagena Del Chair&aacute;, departamento de Caquet&aacute;, que se negam a abandonar suas terras apesar da press&atilde;o militar, acrescentou Valencia.<\/p>\n<p> A proposta &eacute; &quot;um movimento nacional, campon&ecirc;s, que v&aacute; caminhando para a defesa dos camponeses do sul do pa&iacute;s do famoso Plano Col&ocirc;mbia (antidrogas), do Plano Patriota (contra-insurgente) e da inger&ecirc;ncia norte-americana em nossos assuntos internos&quot;, afirma um l&iacute;der local em um v&iacute;deo amador feito pelas juntas de a&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria de Cartagena Del Chair&aacute;. A declara&ccedil;&atilde;o acusa a for&ccedil;a p&uacute;blica de &quot;pris&otilde;es arbitr&aacute;rias, desaparecimentos for&ccedil;ados, torturas, tratamento desumano degradante, maus-tratos verbais e execu&ccedil;&otilde;es extrajudiciais&quot;, entre outros atos.<\/p>\n<p> O movimento contra o Plano Patriota foi lan&ccedil;ado com testemunhos diretos de v&iacute;timas simultaneamente em Bogot&aacute; e Flor&ecirc;ncia, capital de Caquet&aacute;, e em meio a uma marcha no parque central de Cartagena Del Chair&aacute;, cabeceira militarizada desse extenso munic&iacute;pio. Segundo os delegados de Del Chair&aacute;, o ex&eacute;rcito advertiu contra a marcha atrav&eacute;s de panfletos n&atilde;o assinados. &quot;Camponeses, se voc&ecirc;s realizarem a marcha &eacute; porque est&atilde;o se deixando utilizar pela guerrilha, para que realizam diferentes atentados terroristas (sic)&quot;, diz o texto, que tamb&eacute;m adverte para as &quot;conseq&uuml;&ecirc;ncias&quot; que a marcha pode representar para eles.<\/p>\n<p> O Plano Patriota &eacute; o maior esfor&ccedil;o contra-insurgente empreendido por algum governo na hist&oacute;ria da longa guerra colombiana, e se distingue de campanhas anteriores por sua dura&ccedil;&atilde;o, j&aacute; tem 16 meses, e por n&atilde;o tornar p&uacute;blico muitos detalhes sobre o mesmo. N&atilde;o &eacute; pouco anunciar uma oposi&ccedil;&atilde;o ativa ao Plano quando as Farc parecem ter posto fim ao seu aparente sumi&ccedil;o de mais de dois anos, e quando se habilita nesses cen&aacute;rios de rala presen&ccedil;a estatal e sem acesso para a imprensa. As Farc reativaram o assassinato de conselheiros (vereadores) em suas regi&otilde;es de influ&ecirc;ncia no sul, e em julho conseguiram paralisar Putumayo sabotando estradas e o fornecimento el&eacute;trico. A ofensiva guerrilheira gerou uma crise que obrigou o governo a enviar ajuda humanit&aacute;ria.<\/p>\n<p> A sabotagem estaria come&ccedil;ando a ser superada nesta segunda-feira, disse &agrave; IPS o especialista em assuntos militares Alfredo Rangel, diretor da n&atilde;o-governamental Funda&ccedil;&atilde;o Seguran&ccedil;a e Democracia. Devido ao bloqueio, somente chegaram a Bogot&aacute; quatro dos 70 camponeses de Putumayo enviados para apoiar o movimento contra o Plano Patriota. Com este Plano, o governo tenta enfraquecer as Farc para conseguir uma correla&ccedil;&atilde;o favor&aacute;vel no caso de uma hipot&eacute;tica negocia&ccedil;&atilde;o de paz. &quot;Nunca haver&aacute; solu&ccedil;&atilde;o militar para o problema interno colombiano. Isso requer uma reforma pol&iacute;tica sustentada&quot;, reconheceu em outubro de 2004 ao jornal equatoriano El Comercio o general James Hill, antes de deixar a chefia do Comando Sul do Ex&eacute;rcito dos Estados Unidos, com jurisdi&ccedil;&atilde;o sobre as Am&eacute;ricas Central e do Sul.<\/p>\n<p> A Col&ocirc;mbia &eacute; o terceiro pa&iacute;s com maior ajuda militar norte-americana, depois de Israel e Egito. O Plano Patriota concentra 18 mil soldados apoiados pelas for&ccedil;as a&eacute;rea e naval, e seu centro de opera&ccedil;&otilde;es &eacute; a base de Tres Esquinas, no departamento de Meta, fortemente restrita &agrave; imprensa, com alta tecnologia de intelig&ecirc;ncia e pessoal militar dos Estados Unidos. O Plano come&ccedil;ou &quot;com um ataque sobre &aacute;reas rurais onde residem os camponeses locais que ap&oacute;iam as Farc&quot;, disse Hill, ao admitir a exist&ecirc;ncia da opera&ccedil;&atilde;o, em meados do ano passado. O governo parte do pressuposto de que a retaguarda das Farc est&aacute; nos quatro departamentos que, com cerca de 260 mil quil&ocirc;metros quadrados, somam quase a quarta parte do territ&oacute;rio colombiano.<\/p>\n<p> O Plano prev&ecirc; que o ex&eacute;rcito equatoriano sirva de barreira fronteiri&ccedil;a, ou &quot;yunque&quot; (em termos militares), contra a guerrilha. O Banco de Dados do jesu&iacute;ta Centro de Pesquisa e Educa&ccedil;&atilde;o Popular apresentou na &uacute;ltima sexta-feira uma lista de 594 atos de agress&atilde;o contra civis no contexto do Plano Patriota cometidos em Cartagena Del Chair&aacute; entre janeiro de 2004 e 5 de julho deste ano. A organiza&ccedil;&atilde;o responsabiliza em 579 dos casos o Estado, em 10 as Farc, em um os dois lados e deixa quatro casos sem esclarecer a autoria. As autoridades esperam prender ou matar algum &quot;peixe gordo&quot; das Farc, para gerar um impacto psicol&oacute;gico e refor&ccedil;ar a pol&iacute;tica de &quot;seguran&ccedil;a democr&aacute;tica&quot; do presidente &Aacute;lvaro Uribe.<\/p>\n<p> O presidente busca fazer com que toda a sociedade se levante contra os &quot;terroristas&quot;, como qualifica a guerrilha rural surgida em 1964 em resposta a outra campanha que teve ajuda norte-americana, o chamado Plano LASO (Latin American Security Operation) que enfileiraram unidades de artilharia contra setores camponeses. Assim, se habilita o pagamento de informantes civis e se mant&ecirc;m unidades de soldados camponeses recrutados na pr&oacute;pria regi&atilde;o para golpear mais eficazmente a guerrilha, cujos membros costumam sair das comunidades. Por sua vez, o Plano Col&ocirc;mbia foi projetado pelo Departamento de Estado norte-americano para garantir a continuidade da produ&ccedil;&atilde;o de petr&oacute;leo e combater as planta&ccedil;&otilde;es de coca, mat&eacute;ria-prima da coca&iacute;na, cujo com&eacute;rcio &eacute; estrat&eacute;gico para as finan&ccedil;as das Farc.<\/p>\n<p> O Plano Col&ocirc;mbia continua com caras campanhas de fumiga&ccedil;&atilde;o a&eacute;rea sobre planta&ccedil;&otilde;es de coca, utilizando uma mistura de produtos qu&iacute;micos produzidos por empresas norte-americanas, como a gigante Monsanto. Em 2003, outras 16 companhias dos Estados Unidos receberam contratos superiores a US$ 150 milh&otilde;es no contexto do Plano Col&ocirc;mbia, afirma Ricardo Vargas, diretor da A&ccedil;&atilde;o Andina e pesquisador associado do Instituto Transnacional, com sede em Amsterd&atilde;, em seu livro &quot;Narcotr&aacute;fico, guerra e pol&iacute;tica antidrogas&quot;, publicado em meados de julho.<\/p>\n<p> As fumiga&ccedil;&otilde;es s&atilde;o acompanhadas de cinco helic&oacute;pteros equipados com artilharia em estado de combate, e muitas vezes &eacute; feito desembarque de tropas nas terras dos camponeses, os quais tamb&eacute;m denunciam a destrui&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica de seus cultivos de alimentos. No departamento de Cagu&aacute;n, segundo constatou a IPS em uma viagem feita em mar&ccedil;o, os militares se comportam como ex&eacute;rcito de ocupa&ccedil;&atilde;o e tratam a popula&ccedil;&atilde;o como inimigo potencial. A guerrilha obstrui, inclusive, a miss&atilde;o m&eacute;dica e coloca suspeita sobre as alternativas legais de sustento para os camponeses, promovidas por organiza&ccedil;&otilde;es civis.<\/p>\n<p> Desde setembro, os narcotraficantes deixaram de comprar a pasta base (primeira fase de elabora&ccedil;&atilde;o da coca&iacute;na) em Cagu&aacute;n, o dinheiro circula cada vez menos e a maioria dos &quot;cocaleros&quot; (plantadores de coca) partiu para estabelecer planta&ccedil;&otilde;es em outras regi&otilde;es da Col&ocirc;mbia. Permanecem na regi&atilde;o sobretudo camponeses que, embora tenham semeado coca em tempos de bonan&ccedil;a, n&atilde;o chegaram &agrave; regi&atilde;o atra&iacute;dos por esse cultivo ilegal. A declara&ccedil;&atilde;o manifesta alarme diante da &quot;fome&quot; por causa das fumiga&ccedil;&otilde;es e do bloqueio de alimentos, e tamb&eacute;m destaca as barreiras &agrave; passagem de rem&eacute;dios e pessoal m&eacute;dico, a restri&ccedil;&atilde;o &agrave; livre locomo&ccedil;&atilde;o e a &quot;constante acusa&ccedil;&atilde;o&quot; de cumplicidade com a guerrilha contra os moradores dos quatro departamentos.<\/p>\n<p> Os camponeses pediram &agrave; Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas uma verifica&ccedil;&atilde;o de suas den&uacute;ncias e uma &quot;recomenda&ccedil;&atilde;o urgente&quot; ao governo. Haver&aacute; marchas na capital &quot;se n&atilde;o existir solidariedade nacional&quot; com as reclama&ccedil;&otilde;es, disse o campon&ecirc;s Torres, sem dar maiores detalhes. &quot;E n&atilde;o venham nos chamar de cocaleros, porque n&atilde;o somos!&quot;, advertiu, energicamente, aos jornalistas. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bogot&aacute;, 02\/08\/2005 &ndash; Camponeses de quatro departamentos do centro e sul da Col&ocirc;mbia anunciaram a cria&ccedil;&atilde;o de um movimento civil contra o Plano Patriota, a ofensiva militar governamental financiada pelos Estados Unidos contra a guerrilha esquerdista. &quot;O sul do pa&iacute;s vai explodir&quot;, advertiu H&eacute;ctor Torres, delegado das 29 juntas de a&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria na Comiss&atilde;o de Direitos Humanos do Baixo Ariari, no departamento de Meta, centro do Pa&iacute;s, durante entrevista coletiva em Bogot&aacute;. &quot;Com todas as viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos que o Estado colombiano vem cometendo, as comunidades decidiram que n&atilde;o devem ficar caladas&quot;, afirmou Luis Antonio Valencia, do departamento de Caquet&aacute;, ao sul de Meta.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/mundo\/direitos-humanos-o-sul-da-colmbia-vai-explodir\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-856","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/856","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=856"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/856\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=856"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=856"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=856"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}