{"id":8571,"date":"2011-07-28T16:38:45","date_gmt":"2011-07-28T16:38:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8571"},"modified":"2011-07-28T16:38:45","modified_gmt":"2011-07-28T16:38:45","slug":"coluna-alemanha-marca-o-caminho-verde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/07\/ambiente\/coluna-alemanha-marca-o-caminho-verde\/","title":{"rendered":"COLUNA: Alemanha marca o caminho verde"},"content":{"rendered":"<p>Berlim, Alemanha, 28\/07\/2011 &ndash; A decis\u00e3o era esperada, mesmo assim sacudiu a ind\u00fastria nuclear. <!--more--> No dia 29 de maio, cerca de dois meses e meio ap\u00f3s o desastre na central japonesa de Fukushima-Daiichi, a Alemanha anunciava que abandonava a energia at\u00f4mica. Embora at\u00e9 agora este pa\u00eds tenha dependido da produ\u00e7\u00e3o nuclear para cobrir cerca de 27% de suas necessidades el\u00e9tricas, dentro de 11 anos ter\u00e1 posto fim a todo uso de centrais at\u00f4micas.<\/p>\n<p>Dos 17 reatores existentes, foram canceladas as opera\u00e7\u00f5es em oito deles, incluindo os sete mais antigos, imediatamente ap\u00f3s a cat\u00e1strofe no Jap\u00e3o. Na \u00e9poca, a chefe de governo, Angela Merkel \u2013 enfrentando a oposi\u00e7\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es de energia alem\u00e3s \u2013 anunciou que todas as demais usinas tamb\u00e9m seriam fechadas no m\u00e1ximo at\u00e9 2022.<\/p>\n<p>Isto significou uma dr\u00e1stica mudan\u00e7a na pol\u00edtica alem\u00e3, j\u00e1 que o governo direitista de Merkel anteriormente previra aumentar sua depend\u00eancia da energia nuclear. Cr\u00edticos da chanceler a acusam de ter cedido \u00e0 press\u00e3o popular. E n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a mudan\u00e7a \u00e9 resultado da mobiliza\u00e7\u00e3o popular contra as oportunistas pol\u00edticas de energia do governo.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es regionais, realizadas em maio, foram acompanhadas por manifesta\u00e7\u00f5es maci\u00e7as em v\u00e1rias cidades contra a energia nuclear. Nessas elei\u00e7\u00f5es, o Partido Verde, contr\u00e1rio \u00e0s usinas at\u00f4micas, surgiu como principal vencedor. A sa\u00edda da Alemanha da era at\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 um passo isolado. Representa uma tend\u00eancia que, se n\u00e3o inclui toda a Europa, o \u00e9 em grande parte. Pelo menos dois governos da Europa ocidental tomaram decis\u00f5es semelhantes sob a press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>A Su\u00ed\u00e7a, que havia planejado a constru\u00e7\u00e3o de novas centrais, agora abandonou oficialmente essa iniciativa, enquanto na It\u00e1lia, governada pelo direitista Silvio Berlusconi, ressurgiram com mais for\u00e7a os sentimentos antinucleares. Em 2008, Berlusconi anunciava planos para construir quatro novas centrais at\u00f4micas, pondo fim, assim, \u00e0 suspens\u00e3o de todos os programas nucleares adotada depois da cat\u00e1strofe de Chernobil, na Ucr\u00e2nia, de 1986, que comoveu o mundo.<\/p>\n<p>No entanto, em maio passado, o governo italiano voltou a congelar as iniciativas para construir as centrais e agora n\u00e3o est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de reiniciar os programas. Em um referendo de 15 de junho, uma esmagadora maioria de 94% a 96% expressou sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de novos reatores. A participa\u00e7\u00e3o no referendo, de 57%, n\u00e3o parece alta, mas o resultado foi considerado um forte golpe contra o governo de Berlusconi.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de Merkel foi o resultado de um longo processo iniciado no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1990. H\u00e1 20 anos, uma parte da elite pol\u00edtica e empresarial da Alemanha j\u00e1 visualizara a necessidade de uma transi\u00e7\u00e3o da energia nuclear e dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, como carv\u00e3o e petr\u00f3leo, para fontes alternativas, como as energias hidrel\u00e9trica, e\u00f3lica e solar.<\/p>\n<p>Em 1991, o governo alem\u00e3o aprovou uma lei que obrigou as empresas fornecedoras de energia a adotarem as fontes e\u00f3licas e solar junto com os combust\u00edveis f\u00f3sseis. A lei tamb\u00e9m estabelece o pre\u00e7o que deve ser pago aos fornecedores de energia alternativa. O sistema foi aperfei\u00e7oado em 2000, quando da ado\u00e7\u00e3o de um segundo texto oferecendo aos fornecedores de energias alternativas uma garantia de 20 anos. Alguns cr\u00edticos dizem que o regime tem v\u00e1rias lacunas importantes, e n\u00e3o \u00e9 o setor corporativo, mas os lares alem\u00e3es, que sofrem a carga das prote\u00e7\u00f5es ao setor alternativo.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que o contexto legal facilitou uma significativa transi\u00e7\u00e3o. As fontes de energia renov\u00e1veis forneciam n\u00e3o mais do que 3,1% da eletricidade da Alemanha em 1990, mas no ano passado chegaram a 17%. Al\u00e9m disso, este pa\u00eds \u00e9 respons\u00e1vel por 25% de toda eletricidade gerada no mundo com moinhos.<\/p>\n<p>Os defensores da energia nuclear na Alemanha lan\u00e7aram uma vigorosa contraofensiva: questionam as repercuss\u00f5es da decis\u00e3o de Merkel nos esfor\u00e7os internacionais contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. O governo criou uma comiss\u00e3o \u00e9tica, e o resultado de seu trabalho n\u00e3o apoia essas acusa\u00e7\u00f5es. Em linha com as recomenda\u00e7\u00f5es dessa comiss\u00e3o, o governo alem\u00e3o continua comprometido tanto com a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono (40% abaixo dos n\u00edveis de 1990, at\u00e9 2020) como para uma r\u00e1pida expans\u00e3o na gera\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica.<\/p>\n<p>No curto prazo, a Alemanha prev\u00ea construir novas centrais de energia \u00e0 base de g\u00e1s e do contaminante carv\u00e3o. Isto parece, no m\u00ednimo, contradit\u00f3rio. Mas acontece que todo o debate na Europa sobre os futuros fornecimentos de energia ainda est\u00e1 reduzido \u00e0 suposi\u00e7\u00e3o de que o crescimento exponencial na produ\u00e7\u00e3o de energia continuar\u00e1 para sempre.<\/p>\n<p>Este \u00e9 justamente o ponto que deve ser urgentemente questionado, pois s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel evitar tanto uma cat\u00e1strofe clim\u00e1tica quanto uma nuclear, ou uma combinada, se forem adotadas severas restri\u00e7\u00f5es ao uso da energia por parte dos consumidores ocidentais. No entanto, a decis\u00e3o da Alemanha de abandonar a ind\u00fastria at\u00f4mica \u00e9 saud\u00e1vel do ponto de vista ambiental.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do setor nuclear durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com o Projeto Manhattan do governo norte-americano, teve um duplo impacto negativo. Por um lado, a humanidade entrou na era das armas at\u00f4micas. Por outro, o come\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o nuclear (primeiro com fins militares e depois civis) tamb\u00e9m marcou ou coincidiu com o come\u00e7o da crise ecol\u00f3gica global. Esta crise ainda se agrava e foge ao controle humano. \u00c9 neste contexto que a decis\u00e3o de Merkel, de atender as demandas da popula\u00e7\u00e3o, parece indicar o in\u00edcio de uma nova tend\u00eancia.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 verdade: a Alemanha n\u00e3o est\u00e1 neste momento construindo uma economia \u201cverde\u201d. Estamos longe disso. E tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o sistema deste pa\u00eds para promover a energia alternativa n\u00e3o \u00e9 mais do que um elemento keynesiano em uma pol\u00edtica claramente neoliberal. Tamb\u00e9m \u00e9 certo que a pol\u00eamica sobre a energia agora passa por outros eixos. Por exemplo, se a produ\u00e7\u00e3o com moinhos e pain\u00e9is solares deve ficar nas m\u00e3os das corpora\u00e7\u00f5es ou ser descentralizada.<\/p>\n<p>Entretanto, as decis\u00f5es dos governos da Europa ocidental de recha\u00e7ar a ideia de um renascimento nuclear t\u00eam impacto al\u00e9m da pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. Pelo menos uma parte da humanidade decidiu conscientemente rejeitar uma tecnologia que \u00e9 claramente destrutiva e que prejudica severamente a vida na Terra. Isto mostra que um futuro ecol\u00f3gico para o mundo \u00e9 poss\u00edvel. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Peter Custers \u00e9 especialista em dejetos nucleares.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Berlim, Alemanha, 28\/07\/2011 &ndash; A decis\u00e3o era esperada, mesmo assim sacudiu a ind\u00fastria nuclear. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/07\/ambiente\/coluna-alemanha-marca-o-caminho-verde\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":176,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,10],"tags":[18],"class_list":["post-8571","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-energia","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8571","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/176"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8571"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8571\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8571"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8571"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}