{"id":8583,"date":"2011-08-01T17:17:19","date_gmt":"2011-08-01T17:17:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8583"},"modified":"2011-08-01T17:17:19","modified_gmt":"2011-08-01T17:17:19","slug":"portugal-de-novos-ricos-a-novos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/08\/economia\/portugal-de-novos-ricos-a-novos-pobres\/","title":{"rendered":"PORTUGAL: De novos ricos a novos pobres"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, Portugal, 01\/08\/2011 &ndash; \u201cA crise \u00e9 s\u00f3 para alguns\u201d. <!--more--> Esta \u00e9 a frase mais ouvida e lida em Portugal ap\u00f3s os ajustes impostos em maio pela Uni\u00e3o Europeia (UE) e pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) para conceder um resgate financeiro de US$ 112 bilh\u00f5es. De fato, enquanto os vendedores de autom\u00f3veis esportivos de luxo se queixam de n\u00e3o poderem atender aos pedidos no prazo desejado pelos clientes, o Banco de Alimenta\u00e7\u00e3o contra a Fome (BAF) enfrenta problema semelhante, por n\u00e3o poder realizar integralmente seu trabalho.<\/p>\n<p>At\u00e9 2009, os usu\u00e1rios exclusivos do BAF eram as fam\u00edlias mais pobres. Atualmente, no entanto, recebe pessoas da classe m\u00e9dia que, rompendo a barreira da vergonha, pedem alimentos e apoios m\u00e9dico e espiritual. A organiza\u00e7\u00e3o Defesa do Consumidor (Deco) recebe diariamente pedidos de ajuda feito por pessoas incapacitadas de cumprirem suas obriga\u00e7\u00f5es junto a bancos e demais entidades financeiras que, somente em junho, retomaram por falta de pagamento as casas de aproximadamente tr\u00eas mil fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A economia de Portugal, que nos \u00faltimos 25 anos conseguiu abandonar a sina de pa\u00eds perif\u00e9rico e apresentava um futuro promissor, caiu no fundo do po\u00e7o da crise em 2009, com o inevit\u00e1vel aparecimento de milhares de novos pobres, antes membros da classe m\u00e9dia, principal v\u00edtima dos aumentos de impostos, das redu\u00e7\u00f5es salariais e dos pr\u00eamios em dinheiro, bem como demiss\u00f5es de um dia para outro.<\/p>\n<p>Desde sua entrada na UE, em 1986, Portugal registrou um claro avan\u00e7o. Por\u00e9m, todos os economistas hoje concordam que este \u00eaxito foi mais virtual do que real. O cr\u00e9dito f\u00e1cil sustentado nos rios de dinheiro proveniente do bloco se refletiu na prolifera\u00e7\u00e3o dos telefones celulares, canais de TV a cabo, rodovias, autom\u00f3veis e casas adquiridas a prazo.<\/p>\n<p>O consumo desenfreado sacrificou o desenvolvimento agr\u00edcola e industrial, para dar lugar a um vasto setor dos chamados \u201cnovos ricos\u201d, orgulhosos do pa\u00eds com mais autopistas por quil\u00f4metro quadrado e os maiores centros comerciais da Europa, modernos est\u00e1dios de futebol e ciclovias, entre outras melhorias id\u00edlicas.<\/p>\n<p>Contudo, esta aparente riqueza era uma miragem. N\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o alguma com a realidade econ\u00f4mica de Portugal, afirmam os analistas. Ap\u00f3s tr\u00eas d\u00e9cadas vivendo muito acima de suas possibilidades, chegou a hora de pagar a conta do consumo desmedido e da falta de vis\u00e3o das classes pol\u00edtica e empresarial sobre o desenvolvimento real do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A crise assumiu tal magnitude que o cr\u00e9dito oferecido at\u00e9 2009 quase automaticamente, sem avalia\u00e7\u00e3o de risco, agora \u00e9 negado sistematicamente \u00e0s mesmas pessoas, pequenas empresas e minif\u00fandios que, como den\u00fancia a Deco, foram v\u00edtimas diante das incessantes campanhas dos bancos para convencer seus clientes a se endividarem sem limites.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias n\u00e3o demoraram. Com os cr\u00e9ditos cortados, centenas de empresas se declararam em bancarrota, arruinando os pequenos propriet\u00e1rios e jogando no desemprego milhares de trabalhadores. Portugal apresenta hoje indicadores negativos, com desemprego de 12,4% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa, a mais alta dos \u00faltimos 30 anos, e infla\u00e7\u00e3o de 3,4% ao ano, a maior em duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, paradoxalmente, a fortuna dos 25 portugueses mais ricos cresceu este ano 17,8%, chegando a US$ 25 bilh\u00f5es, equivalentes a 10% do produto interno bruto deste pa\u00eds de 10,6 milh\u00f5es de habitantes, dos quais 25% est\u00e3o abaixo da linha de pobreza pelos padr\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia. Estes dados, segundo a escala do indicador norte-americano Misery Index, colocam Portugal em quinto lugar no mundo como pa\u00eds mais afetado pela deteriora\u00e7\u00e3o de seu bem-estar econ\u00f4mico, atr\u00e1s apenas de Egito, Nova Zel\u00e2ndia, Irlanda e Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>No primeiro trimestre deste ano, 3.104 empresas declararam insolv\u00eancia, segundo foi divulgado no dia 29 pela sede portuguesa da Companhia Francesa de Seguro para Com\u00e9rcio Exterior (Coface). O governo do primeiro-ministro socialista Jos\u00e9 S\u00f3crates (2005-junho de 2011) imp\u00f4s medidas dr\u00e1sticas para conter o alto d\u00e9ficit, redobradas agora por seu sucessor, o conservador Pedro Passos Coelho, que dessa forma responde com um brutal pacote de austeridade. A isto se soma a elimina\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos fiscais para aumento da demanda, o que pressup\u00f5e que ser\u00e1 o setor privado que dever\u00e1 fornec\u00ea-los.<\/p>\n<p>\u201cEsta \u00e9 uma teoria econ\u00f4mica simples, uma vis\u00e3o monetarista, de deixar que o dinheiro v\u00e1 para quem sabe usar, ou seja, empres\u00e1rios e bancos\u201d, disse \u00e0 IPS o professor de economia Mario Gomes, da Universidade de Lisboa. A direita agora no poder \u201ccome\u00e7ou em curto tempo a mostrar suas inten\u00e7\u00f5es profundas: eliminar radicalmente parte do Estado Social, baixar os sal\u00e1rios e desarmar as empresas estatais vitais que d\u00e3o estabilidade \u00e0 economia\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Um modelo semelhante ao colocado em pr\u00e1tica na Gr\u00e3-Bretanha por Margaret Thatcher (1979-1990), baseado nas teorias da escola de Chicago de Milton Friedman, perguntou Gomes, respondendo que se trata de \u201cum projeto ultraliberal, equivalente ao conjunto de reformas que algumas ditaduras sul-americanas fizeram nos anos 1970 e 1980, mas aqui de forma gradual\u201d.<\/p>\n<p>Portugal, que ap\u00f3s quase dez anos de crescimento econ\u00f4mico muito baixo entrou em recess\u00e3o este ano, e assim estar\u00e1 at\u00e9 2012, segundo as proje\u00e7\u00f5es, \u201cesgotou o ciclo de desenvolvimento que come\u00e7ou com a integra\u00e7\u00e3o europeia, em 1986, e que estendeu o com\u00e9rcio externo aproveitando o diferencial dos sal\u00e1rios\u201d, afirmou o catedr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Com os fundos da UE, \u201cPortugal modernizou e ampliou a infraestrutura, conseguiu resolver o problema da moradia e viu dobrar o setor tur\u00edstico\u201d, disse Gomes. \u201cPor\u00e9m, apesar de ter contado com recursos importantes para modernizar o setor produtivo, sacrificou a ind\u00fastria, a agricultura e a pesca, em um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises da maioria dos economistas coincidem. Afirmam que n\u00e3o basta economizar nos gastos do Estado para encontrar solu\u00e7\u00f5es para a deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds, que precisa urgentemente encontrar formas de expans\u00e3o industrial, desenvolvimento dos servi\u00e7os e racionaliza\u00e7\u00e3o da agricultura. As duas poderosas centrais sindicais anunciam protestos e greves, enquanto os movimentos aut\u00f4nomos asseguram que n\u00e3o dar\u00e3o descanso ao governo de Passos Coelho.<\/p>\n<p>O jovem ativista Jo\u00e3o Martins, do movimento Gera\u00e7\u00e3o em Apertos, recordou \u00e0 IPS que os \u201cindignados\u201d espanh\u00f3is tiveram sua origem \u201ccom nossa organiza\u00e7\u00e3o, que nasceu espontaneamente em Portugal dois meses antes deles na Espanha\u201d. Este movimento conseguiu reunir, no dia 12 de mar\u00e7o, milhares de jovens por meio das redes sociais e dos telefones celulares, aos quais rapidamente uniram-se m\u00e3es, pa\u00eds, av\u00f3s e av\u00f4s.<\/p>\n<p>Em poucas horas, fizeram com que cerca de 300 mil pessoas ocupassem o centro de Lisboa, Porto e outras seis cidades do pa\u00eds com o lema \u201ca rua \u00e9 nossa\u201d. Martins prev\u00ea que \u201ca crueldade, a cegueira e a insensibilidade das medidas tomadas por este governo, inevitavelmente provocar\u00e3o um novo 12 de mar\u00e7o e a rua voltar\u00e1 a ser nossa\u201d. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, Portugal, 01\/08\/2011 &ndash; \u201cA crise \u00e9 s\u00f3 para alguns\u201d. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/08\/economia\/portugal-de-novos-ricos-a-novos-pobres\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":919,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,11],"tags":[18],"class_list":["post-8583","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia","category-politica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8583","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/919"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8583"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8583\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8583"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8583"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8583"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}