{"id":859,"date":"2005-08-02T00:00:00","date_gmt":"2005-08-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=859"},"modified":"2005-08-02T00:00:00","modified_gmt":"2005-08-02T00:00:00","slug":"urbanismo-o-grande-dilema-do-presidente-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/mundo\/urbanismo-o-grande-dilema-do-presidente-lula\/","title":{"rendered":"Urbanismo: O grande dilema do Presidente Lula"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 02\/08\/2005 &ndash; J&aacute; se passaram dois anos e meio do governo do Presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva e &eacute; poss&iacute;vel fazer um primeiro balan&ccedil;o de sua administra&ccedil;&atilde;o. Neste momento, setores dirigentes do Partido dos Trabalhadores est&atilde;o envolvidos em graves acusa&ccedil;&otilde;es de corrup&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se trata da corrup&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica da classe pol&iacute;tica que enriquece a si mesma atrav&eacute;s do manejo de mecanismos do Estado e de grandes empresas estatais. Esta corrup&ccedil;&atilde;o n&atilde;o visa a beneficiar pessoalmente os pol&iacute;ticos, mas acumular fundos para futuras campanhas eleitorais e, com se diz, ocupar todo aparelho do Estado para perpetuar o PT no poder pelo menos durante 20 anos (fala-se de mexicaniza&ccedil;&atilde;o do Estado). Assim se pretende inaugurar outro estilo de pol&iacute;tica e dar ao Estado um rosto mais social e voltado para os milhares de pobres da sociedade.<br \/> <!--more--> <br \/> Os bons fins n&atilde;o justificam os meios ruins. A corrup&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre anti&eacute;tica e n&atilde;o se justifica jamais. Neste contexto, a oposi&ccedil;&atilde;o tenta envolver a figura do Presidente, sem ainda consegui-lo. Aparte desta crise conjuntural, cabe uma vis&atilde;o sum&aacute;ria do que significa um governo de esquerda no Brasil. A chegada de Lula ao poder coincide com a crise do modelo neoliberal. Lula herda de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, uma grave crise econ&ocirc;mica, com um esgotamento quase total das reservas monet&aacute;rias e uma amea&ccedil;a real de infla&ccedil;&atilde;o generalizada. Como dizia Lula: &quot;Herdei um Titanic que afundava e minha primeira tarefa era blind&aacute;-lo para evitar um caos econ&ocirc;mico e poder depois realizar minha promessa eleitoral de republicanizar o poder com crescimento sustent&aacute;vel, inclus&atilde;o social e redistribui&ccedil;&atilde;o da renda&quot;.<\/p>\n<p> Para realizar esta agenda audaz se concebe uma etapa de transi&ccedil;&atilde;o. Este conceito &eacute; fundamental se queremos ser justos com o governo de Lula e entender o sentido de suas pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas e sociais. Como em toda transi&ccedil;&atilde;o, h&aacute; uma parte de continuidade e outra de inova&ccedil;&atilde;o. A transi&ccedil;&atilde;o &eacute; de onde? Para onde? De um Estado neoliberal, altamente concentrador e sem pol&iacute;ticas p&uacute;blicas consistentes para um Estado republicano, isto &eacute;, um Estado que se prop&otilde;e conferir centralismo ao social, criar a simetria entre direitos e deveres, incentivar em todo o Pa&iacute;s o ideal c&iacute;vico da cidadania ativa e de uma democracia participativa.<\/p>\n<p> Para realizar este projeto, o governo Lula se imp&ocirc;s a seguinte estrat&eacute;gia: manter inalterado no plano da continuidade o projeto macroecon&ocirc;mico neoliberal e at&eacute; radicaliz&aacute;-lo com um super&aacute;vit prim&aacute;rio do or&ccedil;amento federal ainda maior do que o precedente (4,75% do PIB); e, no plano da inova&ccedil;&atilde;o, inaugurar uma pol&iacute;tica social centrada nos projetos Fome Zero e Bolsa Fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Com a continuidade do projeto macroecon&ocirc;mico o governo conseguiu acalmar os mercados e ganhar os aplausos do FMI e do Banco Mundial, p&ocirc;de controlar significativamente a infla&ccedil;&atilde;o e garantir a estabilidade monet&aacute;ria. Com a inova&ccedil;&atilde;o social beneficiou cerca de sete milh&otilde;es de fam&iacute;lias, o que corresponde a aproximadamente 30 milh&otilde;es de pessoas. Para estas multid&otilde;es que antes quase n&atilde;o comiam e viviam em grande mis&eacute;ria, esta pol&iacute;tica p&uacute;blica significou uma esp&eacute;cie de entrada no para&iacute;so terrestre poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Onde est&aacute; o problema fundamental desta estrat&eacute;gia de transi&ccedil;&atilde;o de um Estado neoliberal para um Estado republicano? Na imensa despropor&ccedil;&atilde;o entre as partes. A parte leonina corresponde ao projeto macroecon&ocirc;mico, que ultrapassa o sistema econ&ocirc;mico-financeiro em cerca de US$ 10 bilh&otilde;es mensais em forma de pagamento de juros, restando somente US$ 1 bilh&atilde;o para os projetos sociais. A quest&atilde;o que se apresenta &eacute;: com esta engenharia pol&iacute;tico-social pode-se fazer uma transi&ccedil;&atilde;o que alcance a meta de republicanizar o Estado, criar um crescimento sustent&aacute;vel com inclus&atilde;o social e redistribui&ccedil;&atilde;o da renda?<\/p>\n<p> Dia a dia cresce a convic&ccedil;&atilde;o de que esta pol&iacute;tica econ&ocirc;mica &eacute; inadequada para a pol&iacute;tica social. Chovem cr&iacute;ticas e h&aacute; decep&ccedil;&atilde;o nos movimentos sociais. Lula est&aacute; consciente desta despropor&ccedil;&atilde;o, se sente pressionado e com urg&ecirc;ncia para decidir. O que far&aacute;? Dar&aacute; &ecirc;nfase no projeto macroecon&ocirc;mico neoliberal ou no projeto social popular? Se optar pelo projeto macroecon&ocirc;mico ter&aacute; de sacrificar poderosamente o projeto social. E se optar pelo projeto social, ter&aacute; de mudar substancialmente o projeto macroecon&ocirc;mico.<\/p>\n<p> Cada op&ccedil;&atilde;o ter&aacute; conseq&uuml;&ecirc;ncias n&atilde;o menos graves do que a oposta: ou mobiliza&ccedil;&otilde;es de milhares e milhares de pessoas dos movimentos sociais nas ruas reclamando mais pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, ou press&otilde;es do mercado e do sistema econ&ocirc;mico-financeiro capaz de produzir uma grave desestabiliza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica.<\/p>\n<p> Neste momento &eacute; dif&iacute;cil saber a dire&ccedil;&atilde;o que Lula ir&aacute; tomar. Talvez, devido &agrave; gravidade da crise pol&iacute;tica por causa da corrup&ccedil;&atilde;o que coloca sob suspeita partes importantes de seu partido, decida aproximar-se mais de sua base de apoio social e atenda reclama&ccedil;&otilde;es de mudan&ccedil;as na &aacute;rea econ&ocirc;mica. Os pr&oacute;ximos meses ser&atilde;o decisivos para o governo Lula inclusive na perspectiva da reelei&ccedil;&atilde;o no final de 2006, que o Presidente busca ardorosamente.<\/p>\n<p> (*) Leonardo Boff, escritor e te&oacute;logo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 02\/08\/2005 &ndash; J&aacute; se passaram dois anos e meio do governo do Presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva e &eacute; poss&iacute;vel fazer um primeiro balan&ccedil;o de sua administra&ccedil;&atilde;o. Neste momento, setores dirigentes do Partido dos Trabalhadores est&atilde;o envolvidos em graves acusa&ccedil;&otilde;es de corrup&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se trata da corrup&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica da classe pol&iacute;tica que enriquece a si mesma atrav&eacute;s do manejo de mecanismos do Estado e de grandes empresas estatais. Esta corrup&ccedil;&atilde;o n&atilde;o visa a beneficiar pessoalmente os pol&iacute;ticos, mas acumular fundos para futuras campanhas eleitorais e, com se diz, ocupar todo aparelho do Estado para perpetuar o PT no poder pelo menos durante 20 anos (fala-se de mexicaniza&ccedil;&atilde;o do Estado). Assim se pretende inaugurar outro estilo de pol&iacute;tica e dar ao Estado um rosto mais social e voltado para os milhares de pobres da sociedade.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/mundo\/urbanismo-o-grande-dilema-do-presidente-lula\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":241,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-859","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/859","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/241"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=859"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/859\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=859"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=859"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=859"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}