{"id":860,"date":"2005-08-02T00:00:00","date_gmt":"2005-08-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=860"},"modified":"2005-08-02T00:00:00","modified_gmt":"2005-08-02T00:00:00","slug":"urbanismo-reflexes-sobre-o-terrorismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/america-latina\/urbanismo-reflexes-sobre-o-terrorismo\/","title":{"rendered":"Urbanismo: Reflex&otilde;es sobre o terrorismo"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 02\/08\/2005 &ndash; &Eacute; &oacute;bvio que o terrorismo &eacute; um flagelo global intoler&aacute;vel neste perturbado in&iacute;cio de s&eacute;culo que vivemos e que devemos enfrentar com determina&ccedil;&atilde;o e coragem onde se manifestar. Mas como sempre afirmo, n&atilde;o se trata de fazer a &quot;guerra contra o terrorismo&quot;, express&atilde;o que considero incorreta pelas compara&ccedil;&otilde;es ileg&iacute;timas que provoca. Trata-se de combater com intelig&ecirc;ncia, efic&aacute;cia e em um contexto de legalidade os atos criminosos terr&iacute;veis e indefens&aacute;veis, que das sombras golpeiam inocentes. Este tipo de amea&ccedil;a j&aacute; havia se manifestado antes de 11 de novembro de 2001, mas somente depois o mundo adquiriu consci&ecirc;ncia do imenso perigo que representava o terrorismo global. Nessa ocasi&atilde;o houve um movimento quase universal de solidariedade com os Estados Unidos, que at&eacute; ent&atilde;o parecia invulner&aacute;vel.<br \/> <!--more--> <br \/> Lamentavelmente, a pol&iacute;tica unilateral e de marginaliza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas conduzida por Bush pulverizou em pouco tempo esse capital de solidariedade. A causa foi, sobretudo, a invas&atilde;o do Iraque, que hoje a maioria dos analistas considera um tremendo erro. Pouco depois do 11 de setembro a &Iacute;ndia prop&ocirc;s &agrave; Assembl&eacute;ia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas a busca de uma defini&ccedil;&atilde;o da palavra terrorismo a fim de enquadrar o combate contra esse flagelo. Mas o que &agrave; primeira vista parecia simples se tornou extremamente dif&iacute;cil e n&atilde;o foi poss&iacute;vel conseguir um acordo. O secret&aacute;rio-geral da ONU, Kofi Annan, n&atilde;o desistiu e nomeou um comit&ecirc; de &quot;s&aacute;bios&quot; com a miss&atilde;o de encontrar uma defini&ccedil;&atilde;o aceit&aacute;vel para todos os pa&iacute;ses-membros das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Ao que parece, o relat&oacute;rio dos s&aacute;bios ser&aacute; discutido em no pr&oacute;ximo m&ecirc;s de setembro.<\/p>\n<p> A dificuldade fundamental pode ser apresentada da seguinte maneira: como n&atilde;o incluir atos criminosos que matam inocentes e at&eacute; crian&ccedil;as sem justificativa alguma dentro de comportamentos que configuram o chamado &quot;terrorismo de Estado&quot;, ou certos assassinatos cometidos por agentes secretos e mercen&aacute;rios a servi&ccedil;o de Estados organizados que, apesar disso, n&atilde;o deixam de se considerar Estados de Direito? As t&eacute;cnicas utilizadas por Israel contra a popula&ccedil;&atilde;o palestina s&atilde;o um exemplo dessas dificuldades. O tema n&atilde;o &eacute; novo e se apresentou durante a &uacute;ltima guerra mundial, na qual morreram muitos milh&otilde;es de inocentes. Recordemos os bombardeios sobre Londres e depois sobre algumas cidades alem&atilde;s como Dresden, as bombas at&ocirc;micas sobre Hiroshima e Nagasaki e muitas opera&ccedil;&otilde;es secretas criminosas praticadas por um e outro lado. Para n&atilde;o falar do Vietn&atilde; e de tantos genoc&iacute;dios cometidos na &Aacute;frica antes e depois da descoloniza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O terrorismo global contempor&acirc;neo difere do procedente em um aspecto fundamental: &eacute; menos pol&iacute;tico e mais religioso. O fen&ocirc;meno dos terroristas suicidas &eacute; um exemplo terr&iacute;vel dos extremos que o fanatismo religioso pode alcan&ccedil;ar. Por isso, entre os perigos aos quais hoje estamos expostos considero que um dos mais graves &eacute; que nos deixemos levar a novas guerras religiosas. N&atilde;o tenho d&uacute;vidas de que o terrorismo global &eacute; uma pervers&atilde;o da religi&atilde;o isl&acirc;mica. Como escreve Jean Daniel, &quot;representa o rosto demente do Isl&atilde;&quot;. Por isso, ao atacar o terrorismo &eacute; preciso ter cuidado para n&atilde;o ferir o Isl&atilde; e semear &oacute;dios e ressentimentos entre mu&ccedil;ulmanos que condenam e combatem o terrorismo. A prova de que a luta contra o terrorismo &eacute; mal conduzida pelo Ocidente consiste no fato de que passados quase quatro anos desde o 11 de setembro ainda nos sentimos cada vez mais amea&ccedil;ados.<\/p>\n<p> A guerra contra o Iraque transformou esse pa&iacute;s em um campo de treinamento privilegiado do terrorismo global, al&eacute;m de ser um atoleiro suicida para as tropas anglo-americanas. E n&atilde;o se enxerga uma sa&iacute;da f&aacute;cil, j&aacute; que o enfrentamento entre xiitas e sunitas empurra o Iraque &agrave; beira da guerra civil. O Royal Institute of International Affairs, prestigioso centro de pesquisa brit&acirc;nico, apresentou um relat&oacute;rio secreto ao governo de Tony Blair tr&ecirc;s semanas antes dos atentados de 7 de julho, no qual advertia que a situa&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica no Iraque aumentava o risco do terrorismo global, que poderia chegar a atacar Londres. O documento apresentava uma evid&ecirc;ncia contr&aacute;ria &agrave; tese oficial dos anglo-americanos. E por isso n&atilde;o foi considerado.<\/p>\n<p> Os partid&aacute;rios da seguran&ccedil;a a qualquer pre&ccedil;o, mesmo quando s&atilde;o afetadas as liberdades e as garantias individuais, acreditam somente no poder da for&ccedil;a e nas barreiras de prote&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os secretos. A experi&ecirc;ncia ensina que est&atilde;o equivocados. A democracia vivida seriamente &eacute; a melhor e mais eficaz arma contra o terrorismo. Precisamente, o civismo e o sentido de responsabilidade democr&aacute;tica dos londrinos explicam seu comportamento sereno diante dos atentados, incluindo os que mais protestaram nas ruas contra a guerra no Iraque. Porque a verdade sempre vem &agrave; tona. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p> (*) Mario Soares, Presidente de Portugal entre 1986 e 1996.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 02\/08\/2005 &ndash; &Eacute; &oacute;bvio que o terrorismo &eacute; um flagelo global intoler&aacute;vel neste perturbado in&iacute;cio de s&eacute;culo que vivemos e que devemos enfrentar com determina&ccedil;&atilde;o e coragem onde se manifestar. Mas como sempre afirmo, n&atilde;o se trata de fazer a &quot;guerra contra o terrorismo&quot;, express&atilde;o que considero incorreta pelas compara&ccedil;&otilde;es ileg&iacute;timas que provoca. Trata-se de combater com intelig&ecirc;ncia, efic&aacute;cia e em um contexto de legalidade os atos criminosos terr&iacute;veis e indefens&aacute;veis, que das sombras golpeiam inocentes. Este tipo de amea&ccedil;a j&aacute; havia se manifestado antes de 11 de novembro de 2001, mas somente depois o mundo adquiriu consci&ecirc;ncia do imenso perigo que representava o terrorismo global. Nessa ocasi&atilde;o houve um movimento quase universal de solidariedade com os Estados Unidos, que at&eacute; ent&atilde;o parecia invulner&aacute;vel.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/america-latina\/urbanismo-reflexes-sobre-o-terrorismo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-860","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/860\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}