{"id":8642,"date":"2011-08-12T16:38:07","date_gmt":"2011-08-12T16:38:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8642"},"modified":"2011-08-12T16:38:07","modified_gmt":"2011-08-12T16:38:07","slug":"entre-o-desenvolvimento-local-e-o-desastre-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/08\/america-latina\/entre-o-desenvolvimento-local-e-o-desastre-social\/","title":{"rendered":"Entre o desenvolvimento local e o desastre social"},"content":{"rendered":"<p>Fortaleza, Brasil, 12\/08\/2011 &ndash; O biocombust\u00edvel \u00e9 a \u00fanica fonte de energia alternativa que promove o desenvolvimento local, gerando emprego, conhecimento e tecnologia, mas, tamb\u00e9m pode causar danos sociais.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_8642\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/39.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8642\" class=\"size-medium wp-image-8642\" title=\"Maquete de uma unidade, da Tecbio, produtora de biodiesel em pequena escala. - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/39.jpg\" alt=\"Maquete de uma unidade, da Tecbio, produtora de biodiesel em pequena escala. - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8642\" class=\"wp-caption-text\">Maquete de uma unidade, da Tecbio, produtora de biodiesel em pequena escala. - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  Esse \u00e9 o medo diante da explora\u00e7\u00e3o em escala industrial do baba\u00e7u, uma palmeira abundante no centro e norte do Brasil.<\/p>\n<p>Cerca de 400 mil mulheres e suas fam\u00edlias dependem do baba\u00e7u (Orbignya phalerata martins) para sobreviverem na faixa oriental da Amaz\u00f4nia e proximidades. Coletam os cocos desta palmeira para extrair am\u00eandoas e produzem \u00f3leo, farinha, carv\u00e3o e material para artesanato em pequenas quantidades, usando apenas as m\u00e3os e m\u00e1quinas simples.<\/p>\n<p>O Movimento Interestadual das Quebradoras de Coco Baba\u00e7u (MIQCB), que as re\u00fane, alerta para um amea\u00e7a. Trata-se das ind\u00fastrias de ferro-gusa (primeira fundi\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio) e de cer\u00e2mica que usam o fruto da palmeira como carv\u00e3o, em uma competi\u00e7\u00e3o desigual que emprega simples catadores e catadoras mal remunerados, alertou Luciene Figueiredo.<\/p>\n<p>O fazem de forma inadequada, queimando o coco inteiro e desperdi\u00e7ando sua am\u00eandoa e sua polpa, j\u00e1 que contaminam o ar, criticou Luciene, assessora do MIQCB. O governo do Estado do Tocantins proibiu seu uso nas caldeiras, mas n\u00e3o nos outros tr\u00eas distritos onde o MIQCB atua, lamentou. A queima da am\u00eandoa oleaginosa gera acrole\u00edna, uma subst\u00e2ncia muito t\u00f3xica. Por isso impede-se o uso de qualquer \u00f3leo vegetal como combust\u00edvel para automotores antes de convert\u00ea-lo em biodiesel, embora seja operacional, explicou Marcelo Rodrigues, engenheiro qu\u00edmico da Tecbio, empresa de tecnologia para produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Tecbio \u00e9 fonte de outras amea\u00e7as \u00e0 economia extrativista do baba\u00e7u. Esta empresa com sede em Fortaleza, capital do Cear\u00e1, pr\u00f3xima \u00e0 regi\u00e3o de baba\u00e7uais, desenvolveu e procura vender um sistema de processamento industrial completo que substitui as tarefas das quebradoras de coco. Estas mulheres operam manualmente, batendo no coco \u2013 cuja casca \u00e9 muito dura \u2013 com um peda\u00e7o de pau ou algo que sirva de martelo, contra um machado. Para tornar a opera\u00e7\u00e3o menos perigosa j\u00e1 foram criadas maquininhas, mas nenhuma foi aprovada pelas quebradoras.<\/p>\n<p>O objetivo dessa tarefa \u00e9 retirar as am\u00eandoas, de tr\u00eas a cinco por coco, das quais se extrai o \u00f3leo, que serve para cozinhar e fazer sab\u00e3o e cosm\u00e9ticos, deixando o farelo que \u00e9 usado na alimenta\u00e7\u00e3o animal. A polpa \u00e9 rica em amido, por isso \u00e9 consumido como farinha.<\/p>\n<p>A proposta da Tecbio, fundada pelo inventor do biodiesel no Brasil, Expedito Parente, \u00e9 produzir etanol da polpa e para isso tamb\u00e9m desenvolveu uma f\u00e1brica que, segundo sua publicidade, produz 80 litros de etanol para cada tonelada de coco baba\u00e7u. Outra m\u00e1quina da empresa faz briquetas (blocos s\u00f3lidos) da casca, cuja compacta\u00e7\u00e3o e formato aumentando poder calor\u00edfico, segundo Rodrigues. H\u00e1 uma grande empresa interessada nesse substituto do carv\u00e3o, acrescentou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de \u00f3leo, pode-se fazer biodiesel e bioquerosene para avi\u00f5es, pela vantagem que tem de suportar o ar com pouco oxig\u00eanio nas alturas, acrescentou o engenheiro, ao participar da feira sobre energias renov\u00e1veis que aconteceu em julho em Fortaleza.<\/p>\n<p>As quebradoras de coco foram reconhecidas como uma das chamadas \u201cpopula\u00e7\u00f5es tradicionais\u201d, protegidas por uma s\u00e9rie de legisla\u00e7\u00f5es ambientais, juntamente com os seringueiros e pescadores. O governo brasileiro lhes assegura um pre\u00e7o m\u00ednimo para as am\u00eandoas. Organizadas h\u00e1 16 anos no MIQCB, que compreende associa\u00e7\u00f5es cooperativas e grupos de trabalho, elas se dedicam basicamente a recolher cocos no campo e separar suas v\u00e1rias mat\u00e9rias-primas. Algumas centenas trabalham em 26 unidades onde s\u00e3o elaborados os produtos finais, como \u00f3leo e sab\u00e3o.<\/p>\n<p>Este movimento luta pela preserva\u00e7\u00e3o dos baba\u00e7uais amea\u00e7ados. A monocultura da soja j\u00e1 chegou ao sul do Estado do Maranh\u00e3o e continua avan\u00e7ando. Tamb\u00e9m est\u00e3o em expans\u00e3o planta\u00e7\u00f5es de eucalipto para produ\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o vegetal e celulose, que eliminam florestas nativas. O Maranh\u00e3o tem uma legisla\u00e7\u00e3o que pro\u00edbe cortar a palmeira, mas cont\u00e9m tantas exce\u00e7\u00f5es que acabou estimulando e n\u00e3o inibindo o desmatamento, afirmam ambientalistas. Outra luta permanente das quebradoras de coco \u00e9 recuperar o acesso livre dos baba\u00e7uais localizados em terras privadas e mant\u00ea-lo nas terras p\u00fablicas desocupadas.<\/p>\n<p>A atividade tradicional destas mulheres se desenvolveu com liberdade no Maranh\u00e3o at\u00e9 1969, quando foi aprovada uma legisla\u00e7\u00e3o que formalizou as propriedades rurais e fomentou a apropria\u00e7\u00e3o privada de \u00e1reas desocupadas, inclusive de forma irregular, com cercas que restringiram a circula\u00e7\u00e3o de pessoas. Desde ent\u00e3o, o MIQCB conseguiu a promulga\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias leis municipais que liberaram o acesso \u00e0s quebradoras, inclusive em \u00e1reas particulares. Alguns Estados autorizaram legalmente o ingresso somente em terras p\u00fablicas, deixando as privadas sujeitas \u00e0 autoriza\u00e7\u00e3o de seus propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p>A meta \u00e9 contar com uma lei nacional de livre acesso. Um projeto a esse respeito est\u00e1 em tramita\u00e7\u00e3o desde 2007 na C\u00e2mara dos Deputados, ainda sem perspectiva de vota\u00e7\u00e3o, pelo menos no curto prazo. Mas agora o boom da bionergia pode mudar o quadro, com novos e poderosos atores disputando o baba\u00e7u.<\/p>\n<p>A demanda por biomassa energ\u00e9tica cresce aceleradamente, disse La\u00e9rcio Couto, professor aposentado de uma universidade estatal e agora consultor de grandes empresas. Europa e Jap\u00e3o est\u00e3o assinando contratos de longo prazo para importar milh\u00f5es de toneladas de biomassa compactada em pelotas para substituir combust\u00edveis f\u00f3sseis, ressaltou.<\/p>\n<p>Uma grande empresa de celulose brasileira, por exemplo, est\u00e1 plantando eucaliptos no Maranh\u00e3o para atender essas demandas, aproveitando sua experi\u00eancia nessa monocultura para ampliar seus neg\u00f3cios ao campo energ\u00e9tico, disse Couto. Este acad\u00eamico desenvolveu uma tecnologia para cultivo intensivo de eucalipto para atender esse crescente mercado de bioenergia. Diante da demanda por biomassa, uma empresa de melhoramento gen\u00e9tico da cana-de-a\u00e7\u00facar, em S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m procura desenvolver esp\u00e9cies que produzam mais fibras e menos sacarose, invertendo o esfor\u00e7o investigativo anterior.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil fugir dessa febre energ\u00e9tica. O baba\u00e7u \u00e9 abundante em 185 mil quil\u00f4metros quadrados de quatro Estados, uma \u00e1rea equivalente a meio Jap\u00e3o, com maior concentra\u00e7\u00e3o no sul do Maranh\u00e3o, na transi\u00e7\u00e3o entre o nordeste semi\u00e1rido brasileiro e a Amaz\u00f4nia. Prolifera e se faz dominante em \u00e1reas desmatadas, porque se reproduz e cresce mais rapidamente onde n\u00e3o h\u00e1 nada para lhe fazer sombra. Dessa forma seu aproveitamento extrativo se aproxima ao da agricultura, distinguindo-se de outros que dependem de vegeta\u00e7\u00e3o ou recursos dispersos, como a borracha natural na Amaz\u00f4nia. O desafio \u00e9 incorporar as quebradoras de coco em uma explora\u00e7\u00e3o mecanizada e em escala crescente do baba\u00e7u, beneficiando-as com um salto de produtividade e ganhos. A l\u00f3gica do neg\u00f3cio energ\u00e9tico, entretanto, costuma ser diferente. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fortaleza, Brasil, 12\/08\/2011 &ndash; O biocombust\u00edvel \u00e9 a \u00fanica fonte de energia alternativa que promove o desenvolvimento local, gerando emprego, conhecimento e tecnologia, mas, tamb\u00e9m pode causar danos sociais. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/08\/america-latina\/entre-o-desenvolvimento-local-e-o-desastre-social\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,5,11],"tags":[27,21,24],"class_list":["post-8642","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-economia","category-politica","tag-brasil","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8642"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8642\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}