{"id":878,"date":"2005-08-09T00:00:00","date_gmt":"2005-08-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=878"},"modified":"2005-08-09T00:00:00","modified_gmt":"2005-08-09T00:00:00","slug":"mercosul-a-guerrilha-colombiana-no-larga-as-armas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/mundo\/mercosul-a-guerrilha-colombiana-no-larga-as-armas\/","title":{"rendered":"Mercosul: A guerrilha colombiana n&atilde;o larga as armas"},"content":{"rendered":"<p>Bogot&aacute;, 09\/08\/2005 &ndash; Com o anunciado desaparecimento do Ex&eacute;rcito Republicano Irland&ecirc;s (IRA), constitu&iacute;do como for&ccedil;a armada para conseguir seus objetivos pol&iacute;ticos (a unifica&ccedil;&atilde;o da Irlanda), os olhares se voltaram para a sobreviv&ecirc;ncia da ETA. Nas Am&eacute;ricas, um continente em end&ecirc;mica convuls&atilde;o e clima cheio de viol&ecirc;ncia, tanto privada quanto estatal, a aten&ccedil;&atilde;o se dirige ao &uacute;nico caso de exist&ecirc;ncia conhecida do que em outros tempos se chamou de &quot;guerrilha&quot; ou &quot;movimentos subversivos&quot; e que atualmente recebeu a ins&oacute;lita denomina&ccedil;&atilde;o de &quot;narcoterrorismo&quot;. A Col&ocirc;mbia, uma peculiar sociedade que apresenta uma das taxas mais altas de ind&iacute;cios de identidade nacional do subcontinente latino-americano, &eacute; cen&aacute;rio dos &uacute;nicos movimentos &quot;guerrilheiros&quot; que subsistem no novo s&eacute;culo.<br \/> <!--more--> <br \/> T&atilde;o s&oacute;lida &eacute; sua consci&ecirc;ncia que o pr&oacute;prio Estado colombiano havia reservado at&eacute; muito recentemente, ou tolerado de m&aacute; vontade, amplas &aacute;reas do territ&oacute;rio nacional nas quais as guerrilhas, consideradas por muitos governos e organiza&ccedil;&otilde;es internacionais como &quot;terroristas&quot;, montam acampamento e onde a presen&ccedil;a oficial &eacute; nula. Os argumentos destes grupos s&atilde;o t&atilde;o aparentemente justific&aacute;veis, que em numerosos lugares a popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem outra sa&iacute;da a n&atilde;o ser apoiar suas a&ccedil;&otilde;es e colaborar pol&iacute;tica e economicamente com os &quot;guerrilheiros&quot; terroristas.<\/p>\n<p> Enquanto isso, os sucessivos governos colombianos est&atilde;o permanentemente obrigados ou dispostos ao interc&acirc;mbio de prisioneiros, a dialogar abertamente e autorizar intermedia&ccedil;&otilde;es de destacadas figuras estrangeiras (como Felipe Gonz&aacute;lez). Bogot&aacute; acerta sua desmobiliza&ccedil;&atilde;o mediante f&oacute;rmulas entre engenhosas (leis de anistia disfar&ccedil;adas de reinser&ccedil;&atilde;o, rotuladas como apoio &agrave; impunidade do narcotr&aacute;fico, da extors&atilde;o, do seq&uuml;estro e do puro assassinato), quando n&atilde;o surpreendentes (compra de colheitas de coca, em lugar de sua fumiga&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p> A especificidade do contexto da guerrilha na Col&ocirc;mbia a converte em duvidosa candidata para seguir o caminho aberto pelo IRA, e apenas se possa fazer um paralelo com o perfil da ETA, com a qual numerosos observadores apressados pretendem descobrir similaridades. O certo &eacute; que s&atilde;o m&uacute;ltiplos os detalhes da estrutura do movimento paraestatal colombiano que o afastam, no momento, de ser suscet&iacute;vel de seguir o exemplo do &quot;adeus &agrave;s armas&quot; dos irlandeses. As For&ccedil;as Armadas Revolucion&aacute;rias da Col&ocirc;mbia (Farc), o Ex&eacute;rcito de Liberta&ccedil;&atilde;o da Col&ocirc;mbia (ELN) e sua contraparte direitista Audodefesas Unidas da Col&ocirc;mbia (AUC) desafiam em triangular compet&ecirc;ncia a soberania estatal em uma madeixa socioecon&ocirc;mica que somente resulta novidade na Am&eacute;rica Latina, embora possa ser um caso &uacute;nico nesta confusa desordem mundial, da qual, talvez, seja um subproduto genu&iacute;no.<\/p>\n<p> Em primeiro lugar, por mais que o governo de &Aacute;lvaro Uribe negue, como seus antecessores, a end&ecirc;mica presen&ccedil;a destes grupos armados que aterrorizam e manipulam a popula&ccedil;&atilde;o &eacute; parcialmente devida ao fato de a Col&ocirc;mbia ser, de certa maneira, um exemplo de &quot;Estado que entrou em colapso&quot;. &Eacute; incapaz de exercer sua soberania, reclamar o monop&oacute;lio legal da for&ccedil;a e cumprir suas fun&ccedil;&otilde;es essenciais em amplas zonas do territ&oacute;rio nacional. Protegido por uma geografia dif&iacute;cil, o Estado est&aacute; longe e se percebe como in&uacute;til. Al&eacute;m disso, a Col&ocirc;mbia est&aacute; inserida em um cen&aacute;rio internacional por si s&oacute; conflitivo, em meio a um tri&acirc;ngulo formado por Cuba, Venezuela e o resto dos pa&iacute;ses andinos, cada um com seus pr&oacute;prios problemas. Em um plano mais amplo, apesar das evidentes atividades criminosas de todos os grupos, o certo &eacute; que as Farc e o ELN ainda se beneficiam de um certo ressabio de romantismo latino-americano que sente nostalgia da &eacute;poca guevarista e da m&iacute;stica sandinista. O populismo renasceu com renovada for&ccedil;a.<\/p>\n<p> O cansa&ccedil;o pelos erros do neoliberalismo e as limita&ccedil;&otilde;es do desenvolvimento baseado no puro livre com&eacute;rcio golpearam as maiorias discriminadas de tal maneira que um certo fatalismo substitui a esperan&ccedil;a pela utopia. Em seu lugar, o pragmatismo e a hipocrisia se convertem em justificativa para substituir o fuzil de antes pela pistola com a qual se executa o seq&uuml;estro. Paradoxalmente, a solu&ccedil;&atilde;o patrocinada pelos Estados Unidos depois da Guerra Fria, centrada na liberdade de mercado e na competitividade, &eacute; interpretada pelo abra&ccedil;o de t&eacute;cnicas de mercadotecnia e procedimentos capitalistas antes impens&aacute;veis para os &quot;muchachos&quot; que continuavam lendo Marx, Mao e Che.<\/p>\n<p> A coca, mat&eacute;ria-prima da regi&atilde;o, se converteu em fonte de toda a economia (formal e subterr&acirc;nea), n&atilde;o somente nas zonas de influ&ecirc;ncia, como de todo o territ&oacute;rio nacional. Os guerrilheiros (tanto das Farc e do ELN, quanto das AUC) se converteram em eficientes &quot;homens de empresa&quot;, que parecem reciclados mediante &quot;masters&quot; cursados a dist&acirc;ncia a partir da selva. Somado ao produto da extors&atilde;o e do seq&uuml;estro (que afetam indiscriminadamente todos os setores sociais), o impressionante tecido de lavagem de fundos chega a curiosos setores da economia, como a ind&uacute;stria da banana, hot&eacute;is e restaurantes e, inclusive, sistemas bem-sucedidos de loterias e apostas, n&atilde;o necessariamente legais.<\/p>\n<p> Os incentivos para que os grupos violentos sigam o exemplo do IRA podem ter resultados (de fato, mais de 14 mil membros das AUC aceitaram a reinser&ccedil;&atilde;o), mas ser&atilde;o caros, afetando a Fazenda Nacional, sempre em d&eacute;ficit em uma sociedade enterrada na fraude fiscal. O resultado &eacute; que o abandono por esgotamento ou por convic&ccedil;&atilde;o, segundo o exemplo irland&ecirc;s, ou o posterior da ETA, devem ser pagos e os cheques escasseiam. E n&atilde;o se pensa que tanto Washington quanto Bruxelas estejam muito dispostos a apoiar uma opera&ccedil;&atilde;o que, no momento, e com todas as boas inten&ccedil;&otilde;es e olhares a longo prazo, &eacute; vista como um certificado &agrave; impunidade do assassinato, do seq&uuml;estro e da chantagem. (IPS\/Envolverde) <\/p>\n<p> (*) Joaqu&iacute;n Roy &eacute; catedr&aacute;tico Jean Monnet e diretor do Centro da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bogot&aacute;, 09\/08\/2005 &ndash; Com o anunciado desaparecimento do Ex&eacute;rcito Republicano Irland&ecirc;s (IRA), constitu&iacute;do como for&ccedil;a armada para conseguir seus objetivos pol&iacute;ticos (a unifica&ccedil;&atilde;o da Irlanda), os olhares se voltaram para a sobreviv&ecirc;ncia da ETA. Nas Am&eacute;ricas, um continente em end&ecirc;mica convuls&atilde;o e clima cheio de viol&ecirc;ncia, tanto privada quanto estatal, a aten&ccedil;&atilde;o se dirige ao &uacute;nico caso de exist&ecirc;ncia conhecida do que em outros tempos se chamou de &quot;guerrilha&quot; ou &quot;movimentos subversivos&quot; e que atualmente recebeu a ins&oacute;lita denomina&ccedil;&atilde;o de &quot;narcoterrorismo&quot;. A Col&ocirc;mbia, uma peculiar sociedade que apresenta uma das taxas mais altas de ind&iacute;cios de identidade nacional do subcontinente latino-americano, &eacute; cen&aacute;rio dos &uacute;nicos movimentos &quot;guerrilheiros&quot; que subsistem no novo s&eacute;culo.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/mundo\/mercosul-a-guerrilha-colombiana-no-larga-as-armas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-878","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/878","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=878"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/878\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}