{"id":8817,"date":"2011-09-20T15:51:52","date_gmt":"2011-09-20T15:51:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8817"},"modified":"2011-09-20T15:51:52","modified_gmt":"2011-09-20T15:51:52","slug":"reportagem-cada-gota-de-chuva-conta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/09\/america-latina\/reportagem-cada-gota-de-chuva-conta\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Cada gota de chuva conta"},"content":{"rendered":"<p>OURICURI, Brasil, 20\/09\/2011 &ndash; (Terram\u00e9rica).- As t\u00e9cnicas para aproveitar as poucas chuvas do Nordeste do Brasil objetivam o abandono da ideia de luta contra a seca e a ado\u00e7\u00e3o da conviv\u00eancia com este bioma.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_8817\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/544_web-030---Antonio-da-Costa-y-sus-papayas-gigantes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8817\" class=\"size-medium wp-image-8817\" title=\"Ant\u00f4nio da Costa junto aos seus bwpapaias gigantes, cultivados gra\u00e7as \u00e0 represa subterr\u00e2nea - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/544_web-030---Antonio-da-Costa-y-sus-papayas-gigantes.jpg\" alt=\"Ant\u00f4nio da Costa junto aos seus bwpapaias gigantes, cultivados gra\u00e7as \u00e0 represa subterr\u00e2nea - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8817\" class=\"wp-caption-text\">Ant\u00f4nio da Costa junto aos seus bwpapaias gigantes, cultivados gra\u00e7as \u00e0 represa subterr\u00e2nea - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  O Brasil se considera um pa\u00eds rico em \u00e1gua, pela abund\u00e2ncia de aqu\u00edferos e caudalosos rios. Contudo, o reconhecimento de que a riqueza fundamental \u00e9 a chuva come\u00e7a onde esta \u00e9 mais escassa: o interior do semi\u00e1rido do Nordeste. \u201cMeu pai dormia pouco, carregava \u00e1gua \u00e0 noite, e de dia trabalhava na lavoura. Ainda assim, viveu 84 anos\u201d, recorda Francinete Gomes Viana. A \u00e1gua mais pr\u00f3xima ficava a tr\u00eas quil\u00f4metros, em um a\u00e7ude que tamb\u00e9m secava, o que o obrigava a ir \u201cbusc\u00e1-la mais longe, a 13 quil\u00f4metros\u201d, disse ao Terram\u00e9rica.<\/p>\n<p>Desde menina, \u201csa\u00eda \u00e0s quatro da manh\u00e3 para lavar roupa, e voltava sob o Sol forte\u201d. Deixou esse trabalho por alguns anos para estudar em Ouricuri, cidade de 33 mil habitantes a 52 quil\u00f4metros de sua cidade, Laginha, no Oeste de Pernambuco, um dos nove Estados do Nordeste brasileiro. H\u00e1 nove anos, Francinete conseguiu a cisterna que armazena 16 mil litros de \u00e1gua da chuva para beber e cozinhar, e se livrou da \u201c\u00e1gua ruim, contaminada\u201d e das represas distantes. Tamb\u00e9m melhorou a sa\u00fade de todos, afirma.<\/p>\n<p>\u201cAs crian\u00e7as j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam diarreia, os idosos ficam menos doentes\u201d, acrescenta sua vizinha Francisca da Silva, que viveu 49 anos em Laginha e tamb\u00e9m se beneficiou do Programa Um Milh\u00e3o de Cisternas (P1MC), impulsionado desde 2001 pela Articula\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido Brasileiro (ASA), uma rede de mais de 700 organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais do Nordeste. Francinete, de 37 anos, secret\u00e1ria da Associa\u00e7\u00e3o de Pequenos Agricultores local e m\u00e3e de tr\u00eas filhos, j\u00e1 n\u00e3o sofre os \u201cproblemas de est\u00f4mago\u201d que a levavam \u201cao hospital a cada 15 dias\u201d.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a ela atribui \u00e0s verduras e frutas que cultiva gra\u00e7as \u00e0 cisterna-cal\u00e7ad\u00e3o, outra tecnologia social promovida pela ASA, neste caso para a produ\u00e7\u00e3o de horta familiar. O cal\u00e7ad\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rea inclinada de 200 metros quadrados, feita de concreto sobre o solo, que faz a \u00e1gua da chuva escorrer para uma cisterna com capacidade para 52 mil litros.<\/p>\n<p>A ASA defende o acesso a \u00e1gua como um direito humano b\u00e1sico e, por fim, a dissemina\u00e7\u00e3o de pequenas infraestruturas para capta\u00e7\u00e3o e armazenagem de \u00e1gua da chuva para consumo humano e atividades produtivas. Sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o, o bioma semi\u00e1rido do Nordeste brasileiro, soma 970 mil quil\u00f4metros quadrados, mais do que Alemanha e Fran\u00e7a juntas, e perto de 21 milh\u00f5es de habitantes, 11% da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a regi\u00e3o semi\u00e1rida que recebe mais chuva no mundo, uma m\u00e9dia de 750 mil\u00edmetros ao ano. Embora as secas mais graves reduzam este \u00edndice a 200 mil\u00edmetros em algumas partes, e as chuvas se concentrem em poucos meses, \u00e9 poss\u00edvel viver e produzir alimentos aqui, afirma a Asa. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 armazenar a \u00e1gua para os quase oito meses de estiagem, dando-lhe o melhor uso poss\u00edvel e evitando a evapora\u00e7\u00e3o, com t\u00e9cnicas j\u00e1 desenvolvidas, agroecologia e boa gest\u00e3o h\u00eddrica.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 conviver com o clima semi\u00e1rido, o que implica opor-se \u00e0s grandes obras de \u201ccombate \u00e0 seca\u201d, a pol\u00edtica oficial de constru\u00e7\u00e3o de represas que chegou ao extremo com a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco para abastecer 30 represas e fortalecer bacias da parte norte do semi\u00e1rido, a centenas de quil\u00f4metros do curso original. O megaprojeto, composto por dois canais em constru\u00e7\u00e3o desde 2007, custar\u00e1 R$ 6,85 bilh\u00f5es (US$ 4 bilh\u00f5es) e beneficiar\u00e1 12 milh\u00f5es de habitantes em cidades grandes, m\u00e9dias e pequenas, segundo o de Integra\u00e7\u00e3o Nacional, que prev\u00ea para 2015 o fim das obras.<\/p>\n<p>Com menos de um ter\u00e7o dessa quantia seria poss\u00edvel atingir a meta de um milh\u00e3o de cisternas, que a ASA fixara para 2008. O apoio do governo a esta iniciativa n\u00e3o foi suficiente, embora represente a maior parte da ajuda financeira para construir as 315.140 cisternas e os 8.799 sistemas de coleta de \u00e1gua pluvial para a produ\u00e7\u00e3o, conseguidos at\u00e9 o m\u00eas de julho. Al\u00e9m disso, as cisternas se destinam a uma popula\u00e7\u00e3o rural \u201cdifusa\u201d, que compreende as fam\u00edlias mais pobres e vulner\u00e1veis \u00e0 falta de \u00e1gua, n\u00e3o alcan\u00e7adas pelas \u201cobras contra a seca\u201d que ampliam as desigualdades de acesso h\u00eddrico, segundo a Asa.<\/p>\n<p>No entanto, com o novo governo de Dilma Rousseff abre-se uma fase \u201cinteressante\u201d, destacou Jean Carlos Medeiros, coordenador do P1MC. A presidente, que pretende erradicar a mis\u00e9ria no Brasil, adotou as tecnologias da ASA em seu programa \u00c1gua para Todos. Sua meta \u00e9 implantar 750 mil cisternas para consumo humano e 150 mil para produ\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de outros 23 mil sistemas de coleta de \u00e1gua pluvial para irriga\u00e7\u00e3o no semi\u00e1rido.<\/p>\n<p>Um objetivo \u00e9 \u201cuniversalizar\u201d a primeira cisterna entre a popula\u00e7\u00e3o rural necessitada de \u00e1gua para beber, \u201centre 1,2 e 1,4 milh\u00e3o de fam\u00edlias\u201d, estimou Jean Carlos. A ASA prop\u00f4s, por outro lado, instalar \u201c210 mil cisternas em dois anos\u201d, revelou ao Terram\u00e9rica. O ritmo muito mais lento se baseia em reconhecer os entraves burocr\u00e1ticos do governo e a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o e princ\u00edpios da Asa. \u201cA meta n\u00e3o deve atropelar nossa metodologia\u201d, disse Alba Cavalcanti, coordenadora-adjunta do programa Uma Terra e Duas \u00c1guas, que destina o recurso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Uma comiss\u00e3o municipal, com representantes de diferentes setores, seleciona os beneficiados, que devem, por sua vez, apresentar uma contrapartida em trabalho e se capacitar na gest\u00e3o da \u00e1gua. Para a ASA, as cisternas tamb\u00e9m s\u00e3o \u201cum catalisador\u201d de organiza\u00e7\u00f5es e participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, de conscientiza\u00e7\u00e3o de direitos e forma\u00e7\u00e3o, destacou Jean Carlos. A \u201csegunda \u00e1gua\u201d para produ\u00e7\u00e3o compreende v\u00e1rios sistemas, al\u00e9m da \u201ccisterna cal\u00e7ad\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Uma represa subterr\u00e2nea permite a Antonio da Costa, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Laginha, onde vivem 40 fam\u00edlias, cultivar manga, goiaba, mandioca, feij\u00e3o, milho e especialmente mam\u00e3o papaia, cujos p\u00e9s ficam carregados de frutas em quantidade e tamanho incr\u00edveis em uma terra que se sup\u00f5e pouco f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>Um peda\u00e7o comprido de pl\u00e1stico enterrado sob o curso de riachos ou depress\u00f5es que se formam na temporada de chuva, e uma barreira de tijolos ret\u00eam a \u00e1gua pluvial para empapar um bom peda\u00e7o de terra e encher po\u00e7os pr\u00f3ximos, assegurando um solo \u00famido por v\u00e1rios meses, explica o campon\u00eas de 56 anos, pai de quatro filhas, duas delas professoras, e um rapaz. \u201cMelhorei da minha gastrite, porque como o que produzo, sem agrot\u00f3xicos\u201d, diz, mostrando a mistura de esterco e vegetais com que aduba seus cultivos.<\/p>\n<p>Os tanques de pedra aproveitam o afundamento em pisos rochosos que captam naturalmente \u00e1gua da chuva, \u00e0s quais acrescenta-se muros para acumular mais \u00e1gua. Esta \u00e9 usada para dar de beber aos animais, irriga\u00e7\u00e3o e lavagem de roupa. \u00c9 de uso coletivo, como a bomba de \u00e1gua popular, um po\u00e7o tubular com um equipamento manual para retirar \u00e1gua.<\/p>\n<p>Os camponeses se fazem donos dessas tecnologias, diz Edesio Medeiros, coordenador de \u201csegunda \u00e1gua\u201d no Centro de Habilita\u00e7\u00e3o e Apoio ao Pequeno Agricultor do Araripe, que ajuda as fam\u00edlias de Laginha e atua em todo o oeste de Pernambuco. \u201cE promovemos o interc\u00e2mbio, levando-os a outras comunidades\u201d para compartilharem conhecimentos.<\/p>\n<p>* O autor \u00e9 correspondente da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OURICURI, Brasil, 20\/09\/2011 &ndash; (Terram\u00e9rica).- As t\u00e9cnicas para aproveitar as poucas chuvas do Nordeste do Brasil objetivam o abandono da ideia de luta contra a seca e a ado\u00e7\u00e3o da conviv\u00eancia com este bioma. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/09\/america-latina\/reportagem-cada-gota-de-chuva-conta\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5],"tags":[21],"class_list":["post-8817","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8817","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8817"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8817\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8817"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8817"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8817"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}