{"id":8881,"date":"2011-10-03T17:04:34","date_gmt":"2011-10-03T17:04:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8881"},"modified":"2011-10-03T17:04:34","modified_gmt":"2011-10-03T17:04:34","slug":"brasil-feijao-transgenico-gera-polemica-alimentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/10\/america-latina\/brasil-feijao-transgenico-gera-polemica-alimentar\/","title":{"rendered":"BRASIL: Feij\u00e3o transg\u00eanico gera pol\u00eamica alimentar"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 03\/10\/2011 &ndash; O desenvolvimento no Brasil de um feij\u00e3o geneticamente modificado, resistente a uma das pragas mais temidas, gera esperan\u00e7a no setor agr\u00edcola e, tamb\u00e9m, cr\u00edticas dos que consideram que o projeto foi aprovado sem o suficiente debate para garantir que n\u00e3o afete a sa\u00fade humana nem o meio ambiente <!--more--> O chamado Feij\u00e3o 5.1 foi desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa) para enfrentar o mosaico dourado, uma doen\u00e7a que deixa as folhas da planta do feij\u00e3o amarelada, deforma as vagens e os gr\u00e3os, al\u00e9m de abortar o nascimento de suas flores, causando perda de 40% a 100% dos gr\u00e3os.<\/p>\n<p>Segundo a Embrapa, o v\u00edrus transmitido pela mosca branca (Bemisia tabaci) produz perdas anuais entre 90 mil e 280 mil toneladas de gr\u00e3os, quantidade suficiente para alimentar entre seis milh\u00f5es e 20 milh\u00f5es de brasileiros adultos. Este alimento transg\u00eanico, que estaria na mesa dos brasileiros dentro de tr\u00eas anos, promete beneficiar por igual todos os tipos de agricultura, e aumentar a seguran\u00e7a da colheita, explicou \u00e0 IPS Francisco Arag\u00e3o, um dos respons\u00e1veis por seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Enquanto os agricultores com recursos aplicam inseticida at\u00e9 uma vez por semana para controlar a mosca branca, aos produtores de pequena escala \u201cresta apenas rezar\u201d para n\u00e3o terem perdas significativas, disse Arag\u00e3o. Ele destacou que, com o desenvolvimento desta semente transg\u00eanica, n\u00e3o ser\u00e1 preciso aplicar inseticidas nesse tipo de cultivo. Isto, por sua vez, reduziria os custos de produ\u00e7\u00e3o e, consequentemente, o pre\u00e7o para o consumidor de um alimento b\u00e1sico na dieta di\u00e1ria dos 192 milh\u00f5es de brasileiros, acrescentou. Segundo Arag\u00e3o, o mosaico dourado exige que se use cada vez mais agrot\u00f3xicos, pois est\u00e1 criando resist\u00eancias.<\/p>\n<p>A comercializa\u00e7\u00e3o do Feij\u00e3o 5.1, o primeiro organismo geneticamente modificado produzido por uma entidade nacional, foi liberada em meados de setembro pela Comiss\u00e3o T\u00e9cnica Nacional de Seguran\u00e7a (CTNBio), por 15 votos, duas absten\u00e7\u00f5es e cinco contra que pediram mais an\u00e1lises. A Embrapa argumenta, para justificar a venda do produto, que as avalia\u00e7\u00f5es de biosseguran\u00e7a realizadas entre 2004 e 2010 seguiram as recomenda\u00e7\u00f5es da CTNBio.<\/p>\n<p>\u201cA caracteriza\u00e7\u00e3o agron\u00f4mica do Feij\u00e3o 5.1 n\u00e3o mostrou nenhuma altera\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica comparada com a do feij\u00e3o parental, n\u00e3o geneticamente modificado\u201d, segundo os t\u00e9cnicos da empresa. \u201cConsideramos que \u00e9 totalmente seguro para consumo humano e para semear\u201d, disse Arag\u00e3o, que tamb\u00e9m qualifica de \u201ctotalmente absurdas\u201d as cr\u00edticas dos que consideram o feij\u00e3o transg\u00eanico menos nutritivo. \u00c9 t\u00e3o nutritivo como qualquer outro feij\u00e3o no Brasil\u201d, afirmou. A diferen\u00e7a, inclusive nas variedades tradicionais, se d\u00e1 por regi\u00e3o, explicou.<\/p>\n<p>Ele adiantou \u00e0 IPS que a Embrapa mant\u00e9m conversa\u00e7\u00f5es com a Universidade de Honduras para realizar provas in situ nesse pa\u00eds centro-americano, em planta\u00e7\u00f5es controladas, inoculando o v\u00edrus local. Arag\u00e3o est\u00e1 certo de que a tecnologia desenvolvida para o feij\u00e3o transg\u00eanico no Brasil \u201cfuncionaria\u201d tamb\u00e9m na Argentina e na Bol\u00edvia, mas n\u00e3o sabem o que aconteceria no M\u00e9xico e na Am\u00e9rica Central.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que dentro das fronteiras brasileiras n\u00e3o h\u00e1 consenso sobre a aprova\u00e7\u00e3o do Feij\u00e3o 5.1Respondendo a perguntas da IPS, Renato Maluf, presidente do Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea), questiona sua r\u00e1pida libera\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao \u201cprinc\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o\u201d. Destacou que apenas dois dos 22 testes feitos n\u00e3o falharam, e que n\u00e3o foram contemplados todos os biomas brasileiros.<\/p>\n<p>\u201cAcreditamos que \u00e9 uma temeridade a pressa para liberar um produto que ser\u00e1 consumido por toda a popula\u00e7\u00e3o e sobre o qual n\u00e3o temos certeza quanto \u00e0 seguran\u00e7a alimentar e nutricional\u201d, lamentou Maluf. \u201cEntendemos que a Embrapa, como empresa p\u00fablica de grande prest\u00edgio, deveria adotar um comportamento exemplar a prop\u00f3sito desse princ\u00edpio\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Por sua vez, Ana Carolina Brolo, assessora jur\u00eddica da organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria Terra de Direitos, concorda com Maluf ao afirmar que \u201cfoi uma aprova\u00e7\u00e3o comercial que teve como caracter\u00edstica a falta de respeito \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o nacional e internacional sobre biosseguran\u00e7a\u201d. Ela entende que houve muito segredo sobre informa\u00e7\u00f5es que deveriam estar dispon\u00edveis para que a comunidade cient\u00edfica e a sociedade avaliem os riscos que o projeto apresenta.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as cr\u00edticas v\u00e3o al\u00e9m dos campos cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico. A pergunta \u00e9 se em um pa\u00eds como o Brasil, que \u00e9 o maior produtor mundial de feij\u00f5es, com 3,5 milh\u00f5es de toneladas anuais, \u00e9 necess\u00e1rio um feij\u00e3o transg\u00eanico. Para Maluf, a produ\u00e7\u00e3o atual de feij\u00e3o \u00e9 suficiente para atender o consumo interno, e tamb\u00e9m considerou \u201cinconsistente\u201d o argumento da redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o por pessoa como desculpa para criar um gr\u00e3o transg\u00eanico.<\/p>\n<p>O presidente do Consea afirmou que \u00e9 uma \u201cfalsidade\u201d a afirma\u00e7\u00e3o de que \u00e9 preciso aumentar a produ\u00e7\u00e3o de feij\u00e3o, como de outros alimentos, \u201cpara aplacar a fome\u201d. E recordou que \u201ca hist\u00f3ria j\u00e1 demonstrou que isso n\u00e3o \u00e9 verdade. O Brasil \u00e9 um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo e, no entanto, conviveu at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo com indicadores injustific\u00e1veis de fome\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da seguran\u00e7a alimentar, Maluf disse que h\u00e1 v\u00e1rios riscos, \u201ccome\u00e7ando pelos conhecidos impactos ambientais, que comprometer\u00e3o a pr\u00e1tica comum entre agricultores familiares em rela\u00e7\u00e3o ao uso e troca de sementes, e tamb\u00e9m pela rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o que cria para com os fornecedores de semente\u201d. Ainda n\u00e3o se definiu se a Embrapa cobrar\u00e1 royalty pela semente. O cultivo de feij\u00e3o \u00e9 caracter\u00edstico da agricultura familiar, que no Brasil produz 70% dos alimentos consumidos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O advogado Leonardo Ribas, pesquisador do Centro de Refer\u00eancia de Direitos Humanos e Alimenta\u00e7\u00e3o, do Centro Universit\u00e1rio Uniabeu, pergunta \u201cquem pagar\u00e1 a conta do feij\u00e3o transg\u00eanico\u201d. Ribas, que \u00e9 conselheiro de seguran\u00e7a alimentar do Estado do Rio de Janeiro, disse que \u201cfalamos da aprova\u00e7\u00e3o da modifica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de um organismo vivo, cuja patente ser\u00e1 colocada \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de empresas que, pagando royalty, poder\u00e3o vender este produto ao potencial mercado de consumo brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>Considerando que o Feij\u00e3o 5.1 se converta em \u201cuma mercadoria de alta produ\u00e7\u00e3o e consumo pelas \u2018vantagens\u2019 associadas, finalmente os que pagar\u00e3o por este produto ser\u00e3o os pr\u00f3prios agricultores familiares e, por conseguinte, a maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira\u201d, acrescentou Ribas. Para ele, \u201ca solu\u00e7\u00e3o para a inseguran\u00e7a alimentar no Brasil n\u00e3o passa pela vontade de Deus, como se chegou a justificar no passado, nem por solu\u00e7\u00f5es fragmentadas das ci\u00eancias\u201d, mas por decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil n\u00e3o precisa de feij\u00e3o transg\u00eanico, mas de pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam a seguran\u00e7a alimentar e nutricional da popula\u00e7\u00e3o por meio de medidas que respeitem a qualidade biol\u00f3gica, sanit\u00e1ria, nutricional e tecnol\u00f3gica dos produtos. \u00c9 preciso respeitar e incentivar medidas socialmente justas e ecologicamente sustent\u00e1veis\u201d, afirmou o advogado. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 03\/10\/2011 &ndash; O desenvolvimento no Brasil de um feij\u00e3o geneticamente modificado, resistente a uma das pragas mais temidas, gera esperan\u00e7a no setor agr\u00edcola e, tamb\u00e9m, cr\u00edticas dos que consideram que o projeto foi aprovado sem o suficiente debate para garantir que n\u00e3o afete a sa\u00fade humana nem o meio ambiente <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/10\/america-latina\/brasil-feijao-transgenico-gera-polemica-alimentar\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5,11,7],"tags":[27],"class_list":["post-8881","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-politica","category-saude","tag-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8881"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8881\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}