{"id":8947,"date":"2011-10-18T15:27:35","date_gmt":"2011-10-18T15:27:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8947"},"modified":"2011-10-18T15:27:35","modified_gmt":"2011-10-18T15:27:35","slug":"portugal-crise-joga-mulheres-na-prostituicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/10\/direitos-humanos\/portugal-crise-joga-mulheres-na-prostituicao\/","title":{"rendered":"PORTUGAL: Crise joga mulheres na prostitui\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, Portugal, 18\/10\/2011 &ndash; A problem\u00e1tica econ\u00f4mica e financeira que afeta Portugal leva muitas mulheres ao desespero, obrigando-as a um \u00faltimo e extremo recurso para sustentar suas fam\u00edlias, como \u00e9 o caso da prostitui\u00e7\u00e3o.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_8947\" style=\"width: 148px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/411.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8947\" class=\"size-medium wp-image-8947\" title=\"Xana, uma datil\u00f3grafa que a crise lan\u00e7ou na prostitui\u00e7\u00e3o - Mario Queiroz\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/411.jpg\" alt=\"Xana, uma datil\u00f3grafa que a crise lan\u00e7ou na prostitui\u00e7\u00e3o - Mario Queiroz\/IPS\" width=\"138\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8947\" class=\"wp-caption-text\">Xana, uma datil\u00f3grafa que a crise lan\u00e7ou na prostitui\u00e7\u00e3o - Mario Queiroz\/IPS<\/p><\/div>  Optar por vender o corpo n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o que possa ser tomada com esp\u00edrito leve. Contudo, para muitas m\u00e3es, a alternativa \u00e9 condenar seus filhos \u00e0 fome, e por isso \u201ch\u00e1 cada vez mais mulheres com idade entre 30 e 40 anos, v\u00edtimas da crise, que recorrem \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o\u201d, afirma In\u00eas Fontinha, diretora da Associa\u00e7\u00e3o O Ninho.<\/p>\n<p>Fontinha, que dedicou os \u00faltimos 40 anos de sua vida a apoiar as prostitutas, afirmou que nunca antes houve uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave no pa\u00eds. Acrescentou que a este drama se une o do medo, natural em pessoas inexperientes nessa atividade, muitas delas divorciadas ou mesmo casadas, que praticam a atividade escondidas do marido. \u201cH\u00e1 alguns dias, uma delas me disse: quando batem na porta do meu apartamento, tremo em pensar que pode ser algu\u00e9m que conhe\u00e7o e, nesse caso, o que posso fazer?\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, entre estas inexperientes mulheres existe o temor di\u00e1rio de serem v\u00edtimas das redes de tr\u00e1fico de mulheres, muitas vezes controladas pelas \u201cm\u00e1fias do Leste\u201d, que, em compara\u00e7\u00e3o com eles, os \u201cchulos\u201d (proxenetas) locais s\u00e3o quase inofensivos. Na Europa em geral, estas redes s\u00e3o principalmente de kosovares, albaneses, russos, ucranianos e romenos, que para combater \u201ca competi\u00e7\u00e3o\u201d utilizam m\u00e9todos brutais, tais como marcar as mulheres com navalha e at\u00e9 assassinar ostensivamente seus \u201cprotetores\u201d para dar uma clara mensagem e marcar o terreno.<\/p>\n<p>At\u00e9 2010, segundo organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais portuguesas, havia em todo o pa\u00eds 28 mil prostitutas. Metade delas portuguesas e metade dividida principalmente entre brasileiras, romenas, b\u00falgaras e nigerianas, normalmente v\u00edtimas das m\u00e1fias de tr\u00e1fico humano. Em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 r\u00e1dio TSF de Lisboa e ao canal de televis\u00e3o privado SIC, Fontinha afirmou que, \u201cem uma ang\u00fastia permanente, a crise est\u00e1 levando cada vez mais mulheres, e tamb\u00e9m homens, \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. Por exemplo, em Coimbra, 190 quil\u00f4metros ao norte de Lisboa e capital da Regi\u00e3o Centro de Portugal, contam-se 400 novos casos este ano\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 a pesquisadora Alexandra Oliveira, que no dia 13 lan\u00e7ou o livro \u201cCaminhar na Vida: a Prostitui\u00e7\u00e3o de Rua e a Rea\u00e7\u00e3o Social\u201d, afirma em seu trabalho que essa atividade \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o que geralmente surge ap\u00f3s um acontecimento traum\u00e1tico. Pesquisadora da Faculdade de Psicologia e Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Porto, Oliveira dedicou sua tese de doutorado ao estudo do mundo da prostitui\u00e7\u00e3o nessa cidade, a segunda do pa\u00eds, que fica 330 quil\u00f4metros ao norte de Lisboa e \u00e9 capital da Regi\u00e3o Norte.<\/p>\n<p>\u201cA prostitui\u00e7\u00e3o deveria ser legal para ser socialmente aceita\u201d, afirma a pesquisadora, que qualifica esta pr\u00e1tica como \u201cuma atividade ainda muito estigmatizada\u201d. Para seu doutorado, Oliveira estudou a prostitui\u00e7\u00e3o nas ruas do Porto por seis anos, recorrendo ao m\u00e9todo etnogr\u00e1fico, no qual o pr\u00f3prio pesquisador se torna o principal instrumento de trabalho. Seus estudos indicam que a maioria das prostitutas, sobretudo as das ruas, prov\u00eam de n\u00edveis socioecon\u00f4micos baixos, com pouca escolaridade, escassa forma\u00e7\u00e3o profissional e de meios pobres ou empobrecidos.<\/p>\n<p>O v\u00edcio tamb\u00e9m s\u00e3o uma presen\u00e7a frequente, com cerca de 30% de prostituas cujo prop\u00f3sito central \u00e9 conseguir dinheiro para comprar droga. Uma realidade que, aparentemente, registrou uma clara mudan\u00e7a desde 2009, quando os efeitos da crise global nascida nos Estados Unidos come\u00e7aram a invadir Portugal. Para combater a crise foram feitos dr\u00e1sticos cortes nos investimentos p\u00fablicos e nos subs\u00eddios sociais, em um cen\u00e1rio econ\u00f4mico que se mostra pouco promissor em uma economia an\u00eamica.<\/p>\n<p>O plano de consolida\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento fiscal inclui a maior redu\u00e7\u00e3o de gasto p\u00fablico dos \u00faltimos 50 anos, cujo custo social \u00e9 o aumento do desemprego e o regresso da pobreza, uma situa\u00e7\u00e3o desterrada ap\u00f3s a queda da ditadura corporativista (1926-1974) do chamado O Estado Novo. O que leva uma mulher a exercer a prostitui\u00e7\u00e3o?, foi a pergunta feita pela IPS a duas mulheres que a crise obrigou a estrear nesta atividade. Pamela e Xana (nomes de trabalho) concordam que o fazem apenas por dinheiro, mas destacam que \u201cn\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil desempenhar essa atividade\u201d, como destaca Pamela.<\/p>\n<p>\u201cMuita gente, de forma errada, diz que as mulheres que praticam a prostitui\u00e7\u00e3o s\u00e3o perversas, o fazem por prazer sexual, sem terem ideia do motivo para realizarmos essa atividade\u201d, disse Xana, uma lisboeta divorciada de 29 anos, \u201ccom dois filhos, que preciso alimentar, vestir e educar\u201d. Pamela tamb\u00e9m se separou do companheiro, com o qual nunca foi legalmente casada.<\/p>\n<p>\u201cDe um dia para outro, desapareceu de casa e, quando uma mulher fica s\u00f3 com dois filhos e os gastos aumentando a cada dia, a vida cobra\u201d, disse a mulher, que at\u00e9 o ano passada trabalhava na ind\u00fastria t\u00eaxtil. Ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas em busca de trabalho, Pamela confessa que \u201cnada conseguiu\u201d, em um pa\u00eds onde o desemprego afeta 13% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa, segundo dados oficiais, e entre 17% e 18%, segundo os sindicatos. \u201cPor isso, acabei por recorrer \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Tanto os familiares de Xana quanto os de Pamela ignoram suas atividades. A maioria leva vida dupla ignorada pela fam\u00edlia. A IPS perguntou se conheciam casos de rea\u00e7\u00e3o de familiares de prostitutas ao saberem o que faziam. \u201cPelo que sei, as rea\u00e7\u00f5es variam\u201d, disse Xana, ex-empregada de um escrit\u00f3rio em Lisboa. Xana contou que uma \u201ccontou aos pais o que fazia e eles ficaram furiosos e disseram que nunca aceitariam isso, mas, em outros casos, que conhe\u00e7o, os familiares aceitaram a ideia, porque eles tamb\u00e9m t\u00eam algum interesse e acabam se aproveitando e conseguindo algum dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>Sobre a pr\u00e1tica sexual, ambas asseguram que s\u00e3o elas que ditam as regras, definindo claramente o que aceitam e o que n\u00e3o aceitam. \u201cNossas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o sempre com preservativos. O cliente n\u00e3o consegue nada oferecendo mais dinheiro para n\u00e3o us\u00e1-lo\u201d, assegura Pamela. \u00c9 poss\u00edvel ser feliz com esta vida?, perguntou a IPS ao fim da conversa. Xana respondeu por ambas, com Pamela sempre concordando. \u201cPara quem leva uma vida sempre julgada e rejeitada, \u00e9 natural que uma pessoa n\u00e3o se sinta bem. Se a nossa fosse uma atividade profissional vista como todas as demais, penso que nos sentir\u00edamos melhor com o que fazemos\u201d, acrescentou. Envolverde\/IPS (IPS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, Portugal, 18\/10\/2011 &ndash; A problem\u00e1tica econ\u00f4mica e financeira que afeta Portugal leva muitas mulheres ao desespero, obrigando-as a um \u00faltimo e extremo recurso para sustentar suas fam\u00edlias, como \u00e9 o caso da prostitui\u00e7\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/10\/direitos-humanos\/portugal-crise-joga-mulheres-na-prostituicao\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":919,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[18,21,24],"class_list":["post-8947","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","tag-europa","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8947","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/919"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8947"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8947\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8947"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}