{"id":8955,"date":"2011-10-20T14:52:32","date_gmt":"2011-10-20T14:52:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=8955"},"modified":"2011-10-20T14:52:32","modified_gmt":"2011-10-20T14:52:32","slug":"brasil-aguas-caras-para-o-nordeste-pobre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/10\/america-latina\/brasil-aguas-caras-para-o-nordeste-pobre\/","title":{"rendered":"BRASIL: \u00c1guas caras para o Nordeste pobre"},"content":{"rendered":"<p>Salgueiro, Brasil, 20\/10\/2011 &ndash; O impacto visual \u00e9 agressivo. Cerros cortados, vales aterrados e as terraplenagens que se estendem por muitos quil\u00f4metros.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_8955\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/1189.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8955\" class=\"size-medium wp-image-8955\" title=\"Constru\u00e7\u00e3o de canal no eixo norte da transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/1189.jpg\" alt=\"Constru\u00e7\u00e3o de canal no eixo norte da transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8955\" class=\"wp-caption-text\">Constru\u00e7\u00e3o de canal no eixo norte da transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  A interven\u00e7\u00e3o humana na natureza do Nordeste do Brasil recorda outras grandes constru\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m preocupa por sua enorme dimens\u00e3o. S\u00e3o 713 quil\u00f4metros de canais, aquedutos, represas, t\u00faneis e sistemas de bombeamento para puxar \u00e1gua do Rio S\u00e3o Francisco, que cruza boa parte do Centro-Oeste do pa\u00eds at\u00e9 os altiplanos e desemboca no Oceano Atl\u00e2ntico, para abastecer bacias que secam durante a longa estiagem no extremo Nordeste, parte do chamado Pol\u00edgono das Secas.<\/p>\n<p>A transposi\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa porque os canais t\u00eam de ter um declive preciso, de apenas dez cent\u00edmetros para cada quil\u00f4metro, cruzando terras de superf\u00edcie ondulada, para a \u00e1gua escorrer lentamente. Domar a topografia adversa exige 42 aquedutos sobre baixadas e cinco t\u00faneis em montanhas, al\u00e9m de imensas terraplenagens. Para elevar a \u00e1gua a 300 metros no eixo leste do projeto e 170 metros no eixo norte ser\u00e3o constru\u00eddas nove esta\u00e7\u00f5es de bombeamento, que consumir\u00e3o muita energia em sua opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por tudo isto, o custo do projeto j\u00e1 chega a R$ 6,85 bilh\u00f5es, admitiu, em agosto o Minist\u00e9rio de Integra\u00e7\u00e3o Nacional (MI), respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o das obras. O investimento total ser\u00e1 maior do que o previsto, j\u00e1 que h\u00e1 trechos paralisados, contratos a revisar e servi\u00e7os adicionais para contratar. Al\u00e9m disso, a obra registra grande atraso. Iniciada em 2007 para ser inaugurada pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2011), dificilmente ser\u00e1 conclu\u00edda no mandato de Dilma Rousseff, que terminar\u00e1 em 2014.<\/p>\n<p>Contudo, \u201cn\u00e3o h\u00e1 motivo para temores\u201d quanto ao pre\u00e7o que ser\u00e1 cobrado dos consumidores pela \u00e1gua, pois ser\u00e1 \u201cadequado \u00e0 realidade local\u201d, assegurou Jos\u00e9 Luiz de Souza, coordenador de Projetos de Apoio ao Desenvolvimento, do MI. \u00c9 que a popula\u00e7\u00e3o beneficiada est\u00e1 entre as mais pobres do Brasil. O pre\u00e7o considerar\u00e1 custos de opera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o, garantindo a \u201csustentabilidade financeira\u201d do projeto, explicou Souza. N\u00e3o se fala em recuperar os investimentos.<\/p>\n<p>Oficialmente chamada de Projeto de Integra\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco com Bacias Hidrogr\u00e1ficas do Nordeste Setentrional, a transposi\u00e7\u00e3o dessas \u00e1guas assegurar\u00e1 oferta de \u00e1gua de boa qualidade para 12 milh\u00f5es de habitantes de 390 munic\u00edpios, segundo o governo. Inclui os Estados de Cear\u00e1, Rio Grande do Norte, Para\u00edba e Pernambuco. O megaprojeto \u00e9 caro, mas se justifica em uma regi\u00e3o de grave d\u00e9ficit h\u00eddrico, diz a economista Tania Bacelar, professora da Universidade Federal de Pernambuco e especialista em desenvolvimento do Nordeste.<\/p>\n<p>A m\u00e9dia de \u00e1gua dispon\u00edvel no Nordeste setentrional \u00e9 de 450 metros c\u00fabicos anuais por habitante, um ter\u00e7o do m\u00ednimo recomendado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), segundo o MI. A integra\u00e7\u00e3o de bacias gera sinergia, isto \u00e9, benef\u00edcio com juros, j\u00e1 que a \u00e1gua adicional favorece uma melhor gest\u00e3o h\u00eddrica. O fornecimento assegurado em meses secos permite reter menos \u00e1gua nas represas, usando-a no desenvolvimento econ\u00f4mico e reduzindo perdas por evapora\u00e7\u00e3o, afirmam as autoridades.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as obras n\u00e3o conseguem consenso, apesar dos muitos argumentos favor\u00e1veis, incluindo chamados \u00e0 solidariedade com o Nordeste, que tem 28% dos 192 milh\u00f5es de brasileiros e bacias com apenas 3% da \u00e1gua doce dispon\u00edvel no pa\u00eds. Veementes opositores questionam a validade e a viabilidade do megaprojeto. Um deles, o agr\u00f4nomo Jo\u00e3o Suassuna, afirmou que a transposi\u00e7\u00e3o \u201cser\u00e1 um elefante branco\u201d.<\/p>\n<p>O S\u00e3o Francisco vem perdendo capacidade h\u00eddrica devido \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o e sedimenta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do desmatamento de suas costas, tornando insustent\u00e1vel o novo destino de suas \u00e1guas j\u00e1 submetidas a m\u00faltiplos usos indevidos, alertou Suassuna. As represas localizadas neste rio geram 95% da eletricidade do Nordeste e suas \u00e1guas abastecem projetos de irriga\u00e7\u00e3o em expans\u00e3o, acrescentou. A seca de 2001 reduziu severamente o volume de seu caudal, limitando sua fun\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, recordou.<\/p>\n<p>Por isso, a prioridade deveria ser a revitaliza\u00e7\u00e3o da bacia, executada at\u00e9 agora de maneira deficiente, lamentou Suassuna, pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco, vinculada ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e com sede no Recife, Estado de Pernambuco. Estas cr\u00edticas s\u00e3o respondidas pelo governo federal com a afirma\u00e7\u00e3o de que somente ser\u00e1 desviado 1,4% do curso do S\u00e3o Francisco, equivalente a 26 metros c\u00fabicos por segundo. Um volume maior apenas ser\u00e1 transpassado quando houver excedente de \u00e1gua nas represas, assegura.<\/p>\n<p>Historicamente, s\u00f3 sobrou \u00e1gua, contadas vezes, em Sobradinho, a maior represa do Rio, disse o ativista, recordando que o S\u00e3o Francisco tem 60% de sua extens\u00e3o no interior semi\u00e1rido do pr\u00f3prio Nordeste, onde seus afluentes s\u00e3o intermitentes, o que limita sua alimenta\u00e7\u00e3o. \u201cH\u00e1 16 anos alerto sobre os riscos da transposi\u00e7\u00e3o, mas agora falo das consequ\u00eancias\u201d, disse Suassuna, autor de dezenas de artigos, muitos deles reunidos em um livro, com suas cr\u00edticas ao megaprojeto.<\/p>\n<p>As obras, que suprimem vegeta\u00e7\u00e3o, agravam a desertifica\u00e7\u00e3o de Cabrob\u00f3, munic\u00edpio onde come\u00e7a o eixo norte do projeto. Al\u00e9m disso, os canais interromper\u00e3o as migra\u00e7\u00f5es de animais, \u201cimpedindo sua reprodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o consangu\u00ednea\u201d, e levar\u00e3o a desequil\u00edbrios biol\u00f3gicos em bacias receptoras com entrada de peixes predadores procedentes do S\u00e3o Francisco, alertou Suassuna. Para ele, h\u00e1 alternativas mais baratas e eficazes.<\/p>\n<p>Um estudo da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas, entidade estatal reguladora do setor, sugere melhor aproveitamento dos recursos h\u00eddricos existentes no semi\u00e1rido, como 70 mil a\u00e7udes e \u00e1guas subterr\u00e2neas. Outra a\u00e7\u00e3o, que alcan\u00e7a a popula\u00e7\u00e3o rural, a mais vulner\u00e1vel \u00e0s secas, \u00e9 a capta\u00e7\u00e3o e o armazenamento de \u00e1gua da chuva, tanto em cisternas para consumo humano como em sistemas familiares e comunit\u00e1rias para irriga\u00e7\u00e3o da pequena agricultura.<\/p>\n<p>A Articula\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido (ASA), que re\u00fane cerca de mil organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais da regi\u00e3o, j\u00e1 instalou mais de 350 mil cisternas e nove mil dep\u00f3sitos para produ\u00e7\u00e3o. A irriga\u00e7\u00e3o em grande escala, que se pretenderia promover com a transposi\u00e7\u00e3o, \u201cn\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel porque saliniza o solo, devido \u00e0 forte evapotranspira\u00e7\u00e3o\u201d, segundo Jean Carlos Medeiros, coordenador do programa de cisternas, cuja meta \u00e9 atingir um milh\u00e3o de unidades. Essa saliniza\u00e7\u00e3o j\u00e1 afetou a produ\u00e7\u00e3o de mel\u00f5es no Rio Grande do Norte, recordou.<\/p>\n<p>As iniciativas da ASA n\u00e3o substituem o objetivo da transposi\u00e7\u00e3o, que se destina principalmente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o urbana, mas disputam investimentos governamentais e a prioridade nas pol\u00edticas p\u00fablicas. Dirimir a controv\u00e9rsia sobre a transposi\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do S\u00e3o Francisco provavelmente s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel quanto j\u00e1 estiver em opera\u00e7\u00e3o, permitindo avaliar os resultados e compar\u00e1-los com os da \u201cmicrossolu\u00e7\u00e3o\u201d das cisternas. Entretanto, isto exigir\u00e1 muitos anos, j\u00e1 que a constru\u00e7\u00e3o do megaprojeto avan\u00e7a lentamente e h\u00e1 quem suspeite de que nunca terminar\u00e1.<\/p>\n<p>Lula e o bispo<\/p>\n<p>Outrora conhecido como \u201crio da unidade nacional\u201d, por ser uma hidrovia entre o centro e o Nordeste do Brasil, o Rio S\u00e3o Francisco se converteu em motivo de disc\u00f3rdia depois de secas tr\u00e1gicas, especialmente a de 1993, que reavivaram a proposta de transpor suas \u00e1guas como alternativa para solucionar a escassez h\u00eddrica no interior semi\u00e1rido do Nordeste. A ideia, nascida h\u00e1 dois s\u00e9culos, foi inspirada em v\u00e1rios projetos nunca executados.<\/p>\n<p>Finalmente foi implementado o que est\u00e1 em desenvolvimento por decis\u00e3o de Lula, origin\u00e1rio do Nordeste e filho de uma fam\u00edlia que emigrou para S\u00e3o Paulo, fugindo da pobreza derivada em grande parte das secas. A rea\u00e7\u00e3o de maior repercuss\u00e3o foi de Luiz Cappio, bispo cat\u00f3lico de uma pequena cidade ribeirinha da bacia do S\u00e3o Francisco, que em 2005 e 2007 realizou seguidas greves de fome em defesa da suspens\u00e3o do megaprojeto. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salgueiro, Brasil, 20\/10\/2011 &ndash; O impacto visual \u00e9 agressivo. 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