{"id":904,"date":"2005-08-16T00:00:00","date_gmt":"2005-08-16T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=904"},"modified":"2005-08-16T00:00:00","modified_gmt":"2005-08-16T00:00:00","slug":"drogas-a-coca-incentiva-conflitos-internos-no-peru","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/mundo\/drogas-a-coca-incentiva-conflitos-internos-no-peru\/","title":{"rendered":"Drogas: A coca incentiva conflitos internos no Peru"},"content":{"rendered":"<p>Lima, 16\/08\/2005 &ndash; A folha de coca, de uso ancestral na regi&atilde;o da Cordilheira dos Andes, al&eacute;m de ser motivo de cont&iacute;nuos conflitos externos, agora fomenta fortes disputas pol&iacute;ticas no Peru, particularmente devido &agrave;s determina&ccedil;&otilde;es emitidas por quatro governos regionais. A guerra de nervos come&ccedil;ou quando o governo da regi&atilde;o do Cusco declarou a coca &quot;Patrim&ocirc;nio Regional Natural-Biol&oacute;gico-Cultural-Hist&oacute;rico&quot; do local, onde existem pelo menos tr&ecirc;s vales nos quais &eacute; cultivada a planta, conhecida ali como folha sagrada dos Incas. S&atilde;o &quot;zonas de produ&ccedil;&atilde;o tradicional, de car&aacute;ter legal, da planta da folha de coca os vales de La Convenci&oacute;n e Yanatile, na prov&iacute;ncia de Calca; e o de Qos&ntilde;ipata, na prov&iacute;ncia de Paucartambo&quot;, diz o decreto 031-2005, com data de 12 de junho. Nesses lugares atua o narcotr&aacute;fico, segundo o governo do presidente Alejandro Toledo.<br \/> <!--more--> <br \/> Em Cusco, uma das 26 regi&otilde;es em que o Peru est&aacute; administrativamente dividido, s&atilde;o produzidas cerca de 18 mil toneladas de folha de coca e somente a metade seria legal, disse &agrave; IPS Fernando Hurtado, gerente-geral da Comiss&atilde;o Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas (Devida), &oacute;rg&atilde;o governamental antidrogas. Por&eacute;m, Hugo Cabieses, economista e co-autor do livro &quot;Amaz&ocirc;nia, coca e narcotr&aacute;fico no Peru. Escritos urgentes&quot;, duvida do n&uacute;mero apresentado por Hurtado e afirma que o decreto do governo de Cusco n&atilde;o &eacute; necessariamente um perigo, mas atende a c&aacute;lculos pol&iacute;ticos tanto nacionais quanto regionais. &quot;O racional seria aproveitar a legalidade que esses decretos proclamam para fazer um recenseamento dos plantadores de coca e estabelecer uma pol&iacute;tica entre o Estado e as regi&otilde;es. Ningu&eacute;m est&aacute; falando de coca ilegal&quot;, explicou Cabieses &agrave; IPS.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, isto n&atilde;o ocorreu e, pelo contr&aacute;rio, aprofundou o que o governo de Toledo chamou de &quot;mau exemplo&quot; da regi&atilde;o de Cusco. No dia 13 de julho foi a vez da vizinha Puno, mais ao sul do pa&iacute;s, cujo governo expediu decreto semelhante, que tamb&eacute;m reconhece como &quot;zonas de produ&ccedil;&atilde;o tradicional legal&quot; as duas bacias produtoras. A regi&atilde;o de Hu&aacute;nuco, localizada entre os Andes e a selva central, fez o mesmo sete dias depois, referendando um decreto que assinado um ano antes, no qual se declarava a folha de coca como &quot;patrim&ocirc;nio cultural e de seguran&ccedil;a alimentar&quot;. Desse modo, tr&ecirc;s regi&otilde;es seguiram o mesmo caminho que, na realidade, foi aberto em 9 de junho em Ayacucho, na serra central, cuja disposi&ccedil;&atilde;o, a princ&iacute;pio, passou despercebida, e reconhece, como as demais, como &quot;zona de produ&ccedil;&atilde;o tradicional da folha de coca&quot; os dois vales de tradi&ccedil;&atilde;o nesse tipo de cultivo.<\/p>\n<p> Com estes quatro decretos em vigor, o governo nacional imp&ocirc;s, no dia 23 de julho, uma demanda de inconstitucionalidade atrav&eacute;s da Procuradoria P&uacute;blica, inicialmente contra o decreto de Cusco, por ter &quot;ferido o contexto jur&iacute;dico nacional ao legalizar determinadas zonas do pa&iacute;s para o livre cultivo da folha de coca&quot;. O processo j&aacute; se encontra no Tribunal Constitucional, a inst&acirc;ncia final que resolve estes casos, mas isso n&atilde;o baixou os decib&eacute;is da discuss&atilde;o, que est&aacute; extremamente ligada &agrave; antiguidade da legisla&ccedil;&atilde;o sobre o cultivo da coca no Peru. A rigor, a norma que atualmente rege a produ&ccedil;&atilde;o de folha de coca &eacute; o decreto-lei 22095 de Repress&atilde;o ao Tr&aacute;fico Il&iacute;cito de Drogas, que data de 1978, quando o pa&iacute;s estava sob a ditadura do general Francisco Morales Berm&uacute;dez.<\/p>\n<p> O pr&oacute;prio nome da norma evidencia, segundo os analistas consultados pela IPS, um ponto de vista muito estreito. Um de seus artigos, diz, ainda, que &quot;fica terminantemente proibido o cultivo de coca em novas &aacute;reas do territ&oacute;rio nacional&quot;, algo que, como diz Cabieses, &quot;de maneira alguma ocorreu&quot;. Essa norma tamb&eacute;m dava &agrave; estatal Empresa Nacional da Coca (Enaco) o monop&oacute;lio para compra e venda da folha no Peru, faculdade que hoje &eacute; proibida pela Constitui&ccedil;&atilde;o de 1993. Ricardo Sober&oacute;n, outro autor do livro &quot;Amaz&ocirc;nia, coca e narcotr&aacute;fico no Peru&#8230;&quot; disse &agrave; IPS que esta lei &eacute; obsoleta e absurda, porque d&aacute; &ecirc;nfase &agrave; repress&atilde;o e &quot;n&atilde;o trata o assunto como um problema tamb&eacute;m agr&aacute;rio e econ&ocirc;mico&quot;, considerando-se que se trata de um cultivo ancestral.<\/p>\n<p> Os n&uacute;meros da produ&ccedil;&atilde;o de coca no Peru s&atilde;o contradit&oacute;rios, de acordo com quem os maneja. Hurtado disse que h&aacute; no Peru mais de 50 mil hectares de cultivo de coca, que produziram, em 2004, 110 mil toneladas de folhas. Apenas nove mil dessas toneladas s&atilde;o legais, afirmou. Entretanto, a Enaco s&oacute; consegue comprar tr&ecirc;s mil toneladas, que depois vende nos mercados locais. As outras seis mil toneladas circulam informalmente em mercados menores, onde s&atilde;o compradas para o &quot;chaccheo&quot; (mastiga&ccedil;&atilde;o tradicional da folha) dos camponeses. O restante da produ&ccedil;&atilde;o ilegal peruana de folha de coca se destina &agrave; macera&ccedil;&atilde;o para elaborar a pasta de coca&iacute;na, pr&aacute;tica que faz disparar os pre&ccedil;os. Assim, de cada tr&ecirc;s ou quatro d&oacute;lares de folha de coca se passa a US$ 800 por quilo de clorhidrato de coca&iacute;na.<\/p>\n<p> Sober&oacute;n concorda com estes pre&ccedil;os, mas afirma que a quantidade de produ&ccedil;&atilde;o pode estar &quot;inflacionada&quot; e que o mais prov&aacute;vel &eacute; que n&atilde;o passe das 50 mil toneladas por ano. O narcotr&aacute;fico, segundo Sober&oacute;n, &eacute; uma atividade que hoje movimenta US$ 320 bilh&otilde;es por ano no mundo e a regi&atilde;o andina &eacute; um dos principais centros de produ&ccedil;&atilde;o com, pelo menos, 250 mil hectares de planta&ccedil;&otilde;es de coca, a maioria ilegal. No centro do debate fica a suposta depend&ecirc;ncia do Peru da ajuda contida na pol&iacute;tica externa antidrogas dos Estados Unidos, centrada na &quot;redu&ccedil;&atilde;o da oferta&quot; de coca e nos &quot;programas de desenvolvimento alternativo&quot;. Para o especialista, essa pol&iacute;tica demonstrou sua inefic&aacute;cia, e tamb&eacute;m traz de contrabando o dom&iacute;nio geopol&iacute;tico. &quot;H&aacute; v&aacute;rios anos, a guerra contra as drogas &eacute; utilizada como uma maneira de dominar determinadas regi&otilde;es&quot;, afirmou Sober&oacute;n. <\/p>\n<p> Hurtado rejeita essa suposi&ccedil;&atilde;o, explicando que a Devida tamb&eacute;m trabalha com a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia. As fontes &agrave;s quais a IPS teve acesso confirmam que apenas 3% do or&ccedil;amento da Devida prov&eacute;m dos cofres do Estado peruano e que o restante &eacute; formado por contribui&ccedil;&otilde;es dos Estados Unidos e de outros pa&iacute;ses. O desenvolvimento de cultivos alternativos tampouco tem &ecirc;xito. O ministro Hurtado reconheceu que, se o quilo da folha de coca &eacute; cotado a US$ 3 ou US$ 4, e o do caf&eacute; chega a apenas US$ 1,20 ou US$ 1,50, fica dif&iacute;cil avan&ccedil;ar. &quot;O Estado deveria reprimir o narcotr&aacute;fico e n&atilde;o o produtor&quot;, afirmou Sober&oacute;n. Com isso concorda Elsa Malpartida, dirigente dos plantadores de coca do vale do Alto Huallaga (Huanuco), em conversa com a IPS. &quot;Concordamos com a fiscaliza&ccedil;&atilde;o, com a legalidade, n&atilde;o somos narcotraficantes&quot;, afirmou. Enquanto se espera pelo final do processo apresentado contra o decreto de Cusco, o Estado n&atilde;o parece caminhar para outra pol&iacute;tica antidrogas que, pelo menos, distinga os elos deste enorme problema. (IPS\/Envolverde) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima, 16\/08\/2005 &ndash; A folha de coca, de uso ancestral na regi&atilde;o da Cordilheira dos Andes, al&eacute;m de ser motivo de cont&iacute;nuos conflitos externos, agora fomenta fortes disputas pol&iacute;ticas no Peru, particularmente devido &agrave;s determina&ccedil;&otilde;es emitidas por quatro governos regionais. A guerra de nervos come&ccedil;ou quando o governo da regi&atilde;o do Cusco declarou a coca &quot;Patrim&ocirc;nio Regional Natural-Biol&oacute;gico-Cultural-Hist&oacute;rico&quot; do local, onde existem pelo menos tr&ecirc;s vales nos quais &eacute; cultivada a planta, conhecida ali como folha sagrada dos Incas. S&atilde;o &quot;zonas de produ&ccedil;&atilde;o tradicional, de car&aacute;ter legal, da planta da folha de coca os vales de La Convenci&oacute;n e Yanatile, na prov&iacute;ncia de Calca; e o de Qos&ntilde;ipata, na prov&iacute;ncia de Paucartambo&quot;, diz o decreto 031-2005, com data de 12 de junho. 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