{"id":9054,"date":"2011-11-09T16:24:18","date_gmt":"2011-11-09T16:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9054"},"modified":"2011-11-09T16:24:18","modified_gmt":"2011-11-09T16:24:18","slug":"eta-a-origem-do-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/11\/politica\/eta-a-origem-do-fim\/","title":{"rendered":"ETA: a origem do fim"},"content":{"rendered":"<p>Miami, Estados Unidos, 09\/11\/2011 &ndash; A declara\u00e7\u00e3o da ETA anunciando o fim permanente de suas atividades criminosas representa, pelo menos, o come\u00e7o do que pode ser a etapa definitiva do desaparecimento do solo da Uni\u00e3o Europeia do \u00faltimo rastro de terrorismo aut\u00f3ctone. <!--more--> A origem do grupo criminoso deve ser rastreada \u00e0 sublima\u00e7\u00e3o de uma nacionalismo que reclamou estar baseado em alguns argumentos \u00e9tnicos. Da defesa dos f\u00f3runs no S\u00e9culo 19 se desenvolveu um movimento de alcance limitado, depois concretizado em forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, como o Partido Nacionalista Basco (PNV).<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia se dividiu depois em dois ramos diferenciados. Um reclamava o fato diferencial basco, a exist\u00eancia de uma cultura e uma l\u00edngua constat\u00e1veis e desejos de plasmar um Estado independente por procedimentos democr\u00e1ticos. Outra n\u00e3o estava disposta a esperar por esse caminho visto como ut\u00f3pico e inating\u00edvel. Enquanto a primeira sobreviveu entre duas \u00e1guas e conseguiu gozar de um apoio majorit\u00e1rio, dominando o governo auton\u00f4mico, a outra optou pela linha da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A linha violenta esteve em sua origem ajudada pelo pr\u00f3prio regime franquista, que em suas etapas finais n\u00e3o fez mais do que se opor, n\u00e3o somente aos argumentos da ETA, mas a qualquer movimento, tend\u00eancia ou reclama\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que questionasse a imobilidade do Estado espanhol. Este imobilismo deu for\u00e7a ao grupo, que conseguiu alguns \u00eaxitos de repercuss\u00e3o, como o assassinato do vice-presidente franquista, almirante Carrero Blanco, em 1973, e a amea\u00e7a seria \u00e0 sucess\u00e3o do regime.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, com a reconstru\u00e7\u00e3o da democracia, em 1976, a ETA tentou, de maneira figurada, tirar o capuz com que se cobre ao dar declara\u00e7\u00f5es. Apresentou-se como um movimento supostamente \u201csocialista\u201d que tinha por objetivo n\u00e3o apenas a independ\u00eancia, mas a reconvers\u00e3o do regime democr\u00e1tico em um totalit\u00e1rio.<\/p>\n<p>A ETA j\u00e1 havia ensaiado sua estrat\u00e9gia nos estertores do franquismo. Baseava-se em provocar uma resposta repressora das for\u00e7as de seguran\u00e7a, e, sobretudo, em uma miss\u00e3o final, do pr\u00f3prio ex\u00e9rcito. Essa a\u00e7\u00e3o err\u00f4nea receberia a resposta de uma popula\u00e7\u00e3o generalizada que interpretaria o Estado como inimigo n\u00e3o apenas dos setores independentistas radicais, mas tamb\u00e9m de toda a \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d basca, entidade de diferente interpreta\u00e7\u00e3o segundo os setores sociais, inclina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou mesmo localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. O povo, ent\u00e3o, se rebelaria contra o chamado \u201cEstado espanhol\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, aconteceu que a viol\u00eancia foi rejeitada majoritariamente pela sociedade e reduziu o setor votante dos interesses da ETA a representa\u00e7\u00f5es testemunhais. Por\u00e9m, os n\u00facleos nacionalistas de diferentes graus cresceram na medida em que as legisla\u00e7\u00f5es estatais n\u00e3o conseguiam fazer desaparecer completamente o t\u00eanue apoio eleitoral. A ilegalidade de partidos pol\u00edticos (Herri Batasuna) considerados bra\u00e7os da organiza\u00e7\u00e3o, embora tenha enfraquecido a ETA, foi replicada com a transmigra\u00e7\u00e3o da ideologia (n\u00e3o necessariamente terrorista) para outras forma\u00e7\u00f5es, existentes ou inventadas (Sortu, Bildu).<\/p>\n<p>No exterior, de certo modo, o grupo criminoso, como era a defini\u00e7\u00e3o legal do Estado espanhol, apesar de rotulado como \u201cterrorista\u201d pela Uni\u00e3o Europeia e pelos Estados Unidos, via-se beneficiado por um mal-entendido rom\u00e2ntico. Era exercido por certa imprensa internacional, predominantemente anglo-norte-americana, que se referia \u00e0 ETA com termos t\u00e3o suaves quanto \u201cgrupos independentistas\u201d, \u201crebeldes\u201d ou apenas \u201cnacionalistas\u201d.<\/p>\n<p>Por sua origem em tempos de ditadura, construiu-se uma carapa\u00e7a de justificativa hist\u00f3rica, com potencial no futuro. Mas o desaparecimento do Ex\u00e9rcito Republicano Irland\u00eas (IRA) p\u00f4s em evid\u00eancia a ETA e a apontou como \u00faltimo vest\u00edgio de terrorismo rigidamente europeu. A globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o gerou alian\u00e7as com grupos afins no resto do mundo. Os pr\u00f3prios terroristas bascos recha\u00e7avam, por raz\u00f5es que iam do racismo at\u00e9 o modelo nacional final, a simbiose com o fundamentalismo isl\u00e2mico violento. Estes grupos sempre demonstraram desd\u00e9m pelo que consideravam provinciano e afastado de uma meta universal.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio recrudescimento do terrorismo da Al Qaeda, exemplificado em a\u00e7\u00f5es de tal magnitude, crueldade e covardia, como os ataques de 11 de setembro, em Londres e, sobretudo, na pr\u00f3pria Madri, despojaram a ETA da pouca cobertura que lhe restava para obter um apoio popular al\u00e9m do testemunhal. A s\u00f3lida colabora\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a na luta antiterrorista acabou enfraquecendo a ETA ao m\u00e1ximo. Os setores que deram apoio moral e econ\u00f4mico consideraram que a aposta mais rent\u00e1vel era infiltrar o sistema democr\u00e1tico de novo. Seu maior \u00eaxito \u00e9 a colheita de votos de Bildu nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es municipais, vencendo em v\u00e1rias municipalidades nas tr\u00eas prov\u00edncias bascas e ganhando a prefeitura da emblem\u00e1tica capital de Guip\u00fazcoa, a tamb\u00e9m emblem\u00e1tica San Sebasti\u00e1n.<\/p>\n<p>No entanto, deve-se ressaltar que a declara\u00e7\u00e3o da ETA ainda \u00e9 arrogante, pois somente reconhece a dor de seus agentes eliminados ou na pris\u00e3o, e n\u00e3o recorda as mais de 800 v\u00edtimas inocentes de suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. Reduz o conflito a um tema meramente pol\u00edtico, exigindo um \u201cdi\u00e1logo\u201d direto com o governo. Ter\u00e1 de esperar, sobretudo quando se constituir o novo governo espanhol que surgir das elei\u00e7\u00f5es de novembro, para ver que tipo de negocia\u00e7\u00e3o, se houver, ser\u00e1 estabelecido. Os dois temas pendentes importantes s\u00e3o a admiss\u00e3o de perd\u00e3o pelas v\u00edtimas e o tratamento dos presos. N\u00e3o ser\u00e1 nada f\u00e1cil enquanto a ETA n\u00e3o se dissolver e entregar as armas. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Joaqu\u00edn Roy \u00e9 catedr\u00e1tico Jean Monnet e diretor do Centro da Uni\u00e3o Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miami, Estados Unidos, 09\/11\/2011 &ndash; A declara\u00e7\u00e3o da ETA anunciando o fim permanente de suas atividades criminosas representa, pelo menos, o come\u00e7o do que pode ser a etapa definitiva do desaparecimento do solo da Uni\u00e3o Europeia do \u00faltimo rastro de terrorismo aut\u00f3ctone. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/11\/politica\/eta-a-origem-do-fim\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":368,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,11],"tags":[18],"class_list":["post-9054","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-politica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9054","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/368"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9054"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9054\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}