{"id":9103,"date":"2011-11-18T13:53:39","date_gmt":"2011-11-18T13:53:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9103"},"modified":"2011-11-18T13:53:39","modified_gmt":"2011-11-18T13:53:39","slug":"desenvolvimento-os-brics-colocarao-a-mao-no-bolso-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/11\/mundo\/desenvolvimento-os-brics-colocarao-a-mao-no-bolso-parte-2\/","title":{"rendered":"DESENVOLVIMENTO: Os Brics colocar\u00e3o a m\u00e3o no bolso? \u2013 parte 2"},"content":{"rendered":"<p>Washington, Estados Unidos, 18\/11\/2011 &ndash; Muitos especialistas esperam que as economias emergentes fa\u00e7am uma grande aposta no desenvolvimento internacional durante o 4\u00ba F\u00f3rum de Alto N\u00edvel sobre Efic\u00e1cia da Ajuda. <!--more--> Contudo, alguns duvidam que essas na\u00e7\u00f5es tenham as credenciais necess\u00e1rias. O f\u00f3rum acontecer\u00e1 em Busan, na Coreia do Sul, entre 29 deste m\u00eas e 1\u00ba de dezembro, e com presen\u00e7a de cerca de dois mil delegados governamentais e especialistas.<\/p>\n<p>Em todo o mundo, erguem-se vozes para que as economias emergentes, como Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul (que formam o grupo chamado Brics), assumam o desenvolvimento global. Entretanto, analistas apresentam d\u00favidas sobre suas capacidades. Apontam, como exemplo, que, enquanto os pa\u00edses do Brics prometeram US$ 26 bilh\u00f5es em empr\u00e9stimos a na\u00e7\u00f5es de baixa renda na \u00faltima d\u00e9cada, os doadores tradicionais da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) comprometeram US$ 269 bilh\u00f5es no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, muitos observadores temem que as crescentes sociedades Sul-Sul sejam simplesmente uma r\u00e9plica um tanto distorcida das antigas rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses industrializados e o mundo em desenvolvimento. Grupos como o Brics \u201cn\u00e3o mudam muito os padr\u00f5es de com\u00e9rcio e investimentos, sendo que mais os refletem. Vemos o surgimento de corpora\u00e7\u00f5es multilaterais do Sul, que afirmam as tend\u00eancias universais do capital, mais do que produzir uma grande mudan\u00e7a em sua dire\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou a economista Jayati Ghosh, especializada em desenvolvimento internacional.<\/p>\n<p>\u201cPor outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que, enquanto o capital \u00e9 cada vez mais m\u00f3vel e transnacional em sua orienta\u00e7\u00e3o, ainda depende grandemente do apoio estatal. E, portanto, os Estados, incluindo os do Sul, continuam fazendo esfor\u00e7os em nome do capital que se origina em seus pr\u00f3prios pa\u00edses\u201d, disse Ghosh \u00e0 IPS. \u201cIronicamente, apesar de sua interdepend\u00eancia, os Estados est\u00e3o cada vez mais submetidos ao capital, e n\u00e3o o contr\u00e1rio\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Isto desperta s\u00e9rias d\u00favidas sobre a capacidade e o verdadeiro interesse dos pa\u00edses do Brics de transformar significativamente a assist\u00eancia ao desenvolvimento ou o com\u00e9rcio em formas que beneficiem o Sul global.<\/p>\n<p>Um novo documento de trabalho apresentado por Nkunde Mwase, economista do Departamento de Estrat\u00e9gia, Pol\u00edtica e Revis\u00e3o, do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), que examina o crescente fluxo de financiamento do Brics para os pa\u00edses de baixa renda, concluiu que o grupo n\u00e3o est\u00e1 fomentando a boa governan\u00e7a nem o fortalecimento institucional com seus empr\u00e9stimos. \u201cOs pa\u00edses de baixa renda sem acesso ao mar e com escassos recursos naturais receberam significativamente menos financiamento do que outros, ricos em recursos\u201d, afirma o estudo.<\/p>\n<p>A maioria dos empr\u00e9stimos para o desenvolvimento nos \u00faltimos foi impulsionada pela China, disse Mwase \u00e0 IPS. \u201cN\u00e3o encontramos nenhuma evid\u00eancia sugerindo que os pa\u00edses de baixa renda com boa governan\u00e7a foram recompensados com mais financiamento\u201d, afirmou Mwase. \u201cOs crescentes la\u00e7os entre o Brics e as na\u00e7\u00f5es de baixa renda aumentam os riscos e revelam a necessidade de garantir que o financiamento n\u00e3o prejudique os esfor\u00e7os para melhorar a governan\u00e7a\u201d nos pa\u00edses benefici\u00e1rios, ressaltou.<\/p>\n<p>\u201cEstes empr\u00e9stimos podem levar os pa\u00edses a armadilhas de d\u00edvidas se os riscos n\u00e3o s\u00e3o plenamente considerados\u201d, alertou Mwase. \u201cAs na\u00e7\u00f5es de baixa renda precisam garantir que o financiamento seja destinado a projetos com altos retornos e que n\u00e3o os levem a caminhos de d\u00edvidas insustent\u00e1veis\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A esta tend\u00eancia soma-se uma acentuada falta de transpar\u00eancia nas transa\u00e7\u00f5es, seja de ajuda humanit\u00e1ria, assist\u00eancia ao desenvolvimento, empr\u00e9stimos ou mesmo contratos corporativos, entre o Brics e os pa\u00edses mais pobres. \u201cNa\u00e7\u00f5es como China e \u00cdndia ainda n\u00e3o publicam nenhuma informa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica sobre os empr\u00e9stimos a cada pa\u00eds\u201d, afirma um documento do Centro para Estudos Chineses, da Universidade de Stellenbosch, na \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>\u201cIsto dificulta para os parlamentares e atores da sociedade civil de pa\u00edses s\u00f3cios a avalia\u00e7\u00e3o do impacto que tem o dinheiro em seu desenvolvimento. \u00c9 necess\u00e1ria maior transpar\u00eancia, se queremos uma avalia\u00e7\u00e3o geral sobre os efeitos dos pacotes de desenvolvimento\u201d do Brics, acrescenta o documento. Susan Thomson, bolsista de p\u00f3s-doutorado em pol\u00edtica contempor\u00e2nea no Col\u00e9gio Hampshire, integra o grupo de analistas preocupados com os impactos negativos da ajuda ao desenvolvimento proporcionada pelo Brics.<\/p>\n<p>\u201cComo doador, o Brics apresenta a d\u00favida sobre quais condi\u00e7\u00f5es deveriam impor aos pa\u00edses benefici\u00e1rios, se \u00e9 que alguma \u00e9 exigida\u201d, disse Thomson \u00e0 IPS. \u201cEstados Unidos, Canad\u00e1 e Uni\u00e3o Europeia tradicionalmente estabelecem em seus pacotes de ajuda requisitos relacionados com direitos humanos e seguran\u00e7a humana, mas \u00e9 improv\u00e1vel que o Bric fa\u00e7a o mesmo\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cA China apresenta um especialmente pernicioso exemplo de ajuda direta, particularmente \u00e0 \u00c1frica, sem nenhum requisito, e por isto vemos abusos sistem\u00e1ticos dos direitos humanos em todo o continente\u201d, denunciou a bolsista. Al\u00e9m disso, citou o exemplo de Z\u00e2mbia, onde projetos chineses de desenvolvimento deixam os trabalhadores locais sem dias de descanso e nos quais se mostra escasso respeito pelos direitos trabalhistas, humanos e sociais.<\/p>\n<p>\u201cO fato de governos africanos buscarem ativamente canais adicionais de ajuda levar\u00e1 a uma crescente brecha econ\u00f4mica, na qual os ganhadores ser\u00e3o os pa\u00edses Brics e os perdedores ser\u00e3o os agricultores de subsist\u00eancia, as mulheres, pessoas com HIV\/aids e todos os tradicionais afetados por este sistema\u201d, alertou Thomson.<\/p>\n<p>Um estudo elaborado este ano pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Grain e pela Funda\u00e7\u00e3o de Pesquisa Econ\u00f4mica revela que cada vez mais corpora\u00e7\u00f5es indianas compravam vastas \u00e1reas de terras na \u00c1frica, fundamentalmente para exteriorizar (outsource) sua produ\u00e7\u00e3o alimentar em pa\u00edses de baixa renda de todo esse continente. Em 2010, \u201cmais de 80 empresas indianas investiram cerca de US$ 2,4 bilh\u00f5es em compra ou arrendamento de grandes planta\u00e7\u00f5es em pa\u00edses como Eti\u00f3pia, Qu\u00eania, Madagascar, Senegal e Mo\u00e7ambique, que ser\u00e3o usadas para produzir alimentos e outros cultivos comerciais destinados ao mercado indiano\u201d.<\/p>\n<p>Esta pr\u00e1tica, que muitos no movimento pela justi\u00e7a agr\u00edcola e alimentar qualificam de \u201cmonopolizar terras\u201d, tem sido at\u00e9 agora acusada de ferramenta neocolonial do Ocidente para exercer um controle corporativo sobre o Sul. Portanto, esta aventura indiana denota as limita\u00e7\u00f5es da coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul como solu\u00e7\u00e3o para a desigualdade sistem\u00e1tica e a explora\u00e7\u00e3o de muitos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Segundo Ghosh, \u201cas sociedades Sul-Sul t\u00eam potencial para mudar a atual ordem econ\u00f4mica global, exploradora e ineficiente, mas somente se tiverem por base premissas muito diferentes de coopera\u00e7\u00e3o\u201d. As rela\u00e7\u00f5es Sul-Sul \u201ctamb\u00e9m s\u00e3o impulsionadas pelas necessidades corporativas, e operam de forma muito semelhante dentro de um sistema guiado pelo mercado que privilegia os interesses de grandes empresas acima dos interesses dos cidad\u00e3os\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cO surpreendente \u00e9 que neste momento de crise global n\u00e3o existam tentativas s\u00e9rias de nenhum dos grupos econ\u00f4micos globais (incluindo o Brics) de considerar alternativas que levem a solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis\u201d, afirmou Ghosh. \u201cPor exemplo, passar do crescimento guiado pelos cr\u00e9ditos e pelas exporta\u00e7\u00f5es para formas mais sustent\u00e1veis de expans\u00e3o, baseadas no aumento dos sal\u00e1rios e do emprego, \u00e9 uma ideia que simplesmente n\u00e3o \u00e9 levada a s\u00e9rio\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cO mais significativo de tudo \u00e9 que a necessidade de identificar formas alternativas de produ\u00e7\u00e3o e consumo, com um enfoque mais sustent\u00e1vel e menos daninho \u00e0 natureza, ainda n\u00e3o est\u00e1 no topo das agendas pol\u00edticas nacionais ou internacionais\u201d, destacou Ghosh. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Este \u00e9 o segundo de dois artigos sobre o grupo Brics e como suas agendas pol\u00edticas e de desenvolvimento podem incidir no futuro da assist\u00eancia ao mundo pobre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, Estados Unidos, 18\/11\/2011 &ndash; Muitos especialistas esperam que as economias emergentes fa\u00e7am uma grande aposta no desenvolvimento internacional durante o 4\u00ba F\u00f3rum de Alto N\u00edvel sobre Efic\u00e1cia da Ajuda. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/11\/mundo\/desenvolvimento-os-brics-colocarao-a-mao-no-bolso-parte-2\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":110,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,5,4,11],"tags":[30,25],"class_list":["post-9103","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-economia","category-mundo","category-politica","tag-analise","tag-ibsa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9103","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/110"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9103"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9103\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9103"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9103"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9103"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}