{"id":9116,"date":"2011-11-22T12:27:49","date_gmt":"2011-11-22T12:27:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9116"},"modified":"2011-11-22T12:27:49","modified_gmt":"2011-11-22T12:27:49","slug":"reportagem-belo-monte-e-depredadores-ameacam-tartarugas-amazonicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2011\/11\/america-latina\/reportagem-belo-monte-e-depredadores-ameacam-tartarugas-amazonicas\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Belo Monte e depredadores amea\u00e7am tartarugas amaz\u00f4nicas"},"content":{"rendered":"<p>BAIXO XINGU, Brasil, 22\/11\/2011 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- Algumas autoridades, ex-pescadores e ambientalistas asseguram a reprodu\u00e7\u00e3o das tartarugas amaz\u00f4nicas no Baixo Xingu. Mas agora enfrentam o problema da hidrel\u00e9trica de Belo Monte, que represar\u00e1 o rio 40 quil\u00f4metros acima.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_9116\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/553_tortugas_playa_Juncal_Tabuleirodo_Embaubal_MarioOsavaIPS.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9116\" class=\"size-medium wp-image-9116\" title=\"Na praia de Junca, no Rio Xingu, as tartarugas p\u00f5em cerca de 90 ovos por ninho - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/553_tortugas_playa_Juncal_Tabuleirodo_Embaubal_MarioOsavaIPS.jpg\" alt=\"Na praia de Junca, no Rio Xingu, as tartarugas p\u00f5em cerca de 90 ovos por ninho - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9116\" class=\"wp-caption-text\">Na praia de Junca, no Rio Xingu, as tartarugas p\u00f5em cerca de 90 ovos por ninho - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  Luiz Cardoso da Costa se horrorizou ao ver o peixe-boi amaz\u00f4nico, grande e d\u00f3cil, sangrando por causa da facada, mas engolindo capim avidamente, com se comer evitasse a morte. N\u00e3o era esperada uma agonia t\u00e3o dram\u00e1tica. E, por causa dela, renunciou definitivamente \u00e0 ca\u00e7a desta esp\u00e9cie (Trichechus inunguis).<\/p>\n<p>Luiz escolhera a faca buscando o cora\u00e7\u00e3o, pois lhe parecia muito cruel o m\u00e9todo usual, de enfiar varetas nas narinas para asfixiar este mam\u00edfero aqu\u00e1tico que chega a pesar meia tonelada de carne, gordura e couro, muito valorizados no mercado ilegal. Contudo, ele deixou de ser \u201co grande predador\u201d que admite ter sido quando assistiu o embarque de \u201caproximadamente 800 tartarugas\u201d com destino a Manaus, metr\u00f3pole da Amaz\u00f4nia e capital do Estado do Amazonas.<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, h\u00e1 13 anos, vendeu \u201capenas umas 20\u201d, mas aquela quantidade concentrada de quel\u00f4nios mortos o abalou. Sua convers\u00e3o foi radical. Hoje ele \u00e9 a alma da prote\u00e7\u00e3o ambiental do Tabuleiro do Embaubal, um conjunto de mais de cem ilhas no trecho final do Rio Xingu, na Amaz\u00f4nia oriental, cujas praias s\u00e3o a principal \u00e1rea remanescente para a reprodu\u00e7\u00e3o das tartarugas amaz\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Milhares de f\u00eameas se juntam aqui em setembro e outubro, especialmente na praia de Juncal, para cavar na areia, jogando-a para o ar, p\u00f4r seus ovos, tapar o ninho e voltar para o rio. O espet\u00e1culo da desova, com areias que saltam e multid\u00f5es de grandes quel\u00f4nios, algum dia atrair\u00e1 muitos turistas, espera Saloma Mendes de Oliveira, secret\u00e1ria de Meio Ambiente do munic\u00edpio Senador Jos\u00e9 Porf\u00edrio, em cujo territ\u00f3rio fica o Tabuleiro. Ser\u00e1 uma fonte de recursos e de ades\u00e3o popular \u00e0 defesa da natureza local, afirma.<\/p>\n<p>Atualmente, a aglomera\u00e7\u00e3o de tartarugas as torna vulner\u00e1veis aos ca\u00e7adores, que insistem em aproveitar os bons pre\u00e7os da sua carne e dos seus ovos, embora retir\u00e1-los da natureza seja um crime ambiental punido com pesadas multas e, em alguns casos, at\u00e9 com pris\u00e3o. Por isso, no \u201cver\u00e3o\u201d, como os amaz\u00f4nicos chamam o per\u00edodo de estiagem entre junho e novembro, procura-se intensificar o controle das praias. Desde setembro, Luiz conta com 20 colegas para vigi\u00e1-las.<\/p>\n<p>S\u00e3o pessoas contratadas pela empresa ambiental Biota, resultado de um acordo entre a prefeitura de Jos\u00e9 Porf\u00edrio e o Cons\u00f3rcio Norte Energia, empresa que ganhou a concess\u00e3o da hidrel\u00e9trica de Belo Monte e tem a responsabilidade de vigiar e mitigar os impactos que causarem as duas represas que vai construir. S\u00e3o controvertidos os efeitos que ter\u00e1 o maior projeto energ\u00e9tico da Amaz\u00f4nia, cuja pot\u00eancia total de 11.233 megawatts se limitar\u00e1 a 40% de gera\u00e7\u00e3o efetiva, em m\u00e9dia, devido \u00e0 forte varia\u00e7\u00e3o do caudal do Rio Xingu.<\/p>\n<p>A Norte Energia \u201cn\u00e3o nos explicou nada\u201d, disse Luiz. Seu medo \u00e9 que baixe o n\u00edvel das \u00e1guas, fazendo com que as ilhas do Embaubal tenham \u201cinvernos mais secos\u201d, o que deixaria \u201csem \u00e1gua os igap\u00f3s\u201d (\u00e1reas de floresta inund\u00e1veis durante a cheia), onde os quel\u00f4nios se alimentam de frutas. Como consequ\u00eancia, haver\u00e1 animais \u201cmais fracos e menos ovos\u201d.<\/p>\n<p>Esta hip\u00f3tese \u00e9 pouco prov\u00e1vel, afirmou Juarez Pezzuti, bi\u00f3logo da Universidade Federal do Par\u00e1, que coordena estudos sobre r\u00e9pteis no Xingu. O caudal do Baixo Xingu, trecho de 220 quil\u00f4metros entre Belo Monte, onde termina o forte declive do rio, e a desembocadura \u00e9 determinado pelo Rio Amazonas, que recebe suas \u00e1guas e as de toda sua bacia de mais de mil rios, acrescentou.<\/p>\n<p>O Amazonas, imensamente mais caudaloso do que seu afluente, funciona como uma barreira ao des\u00e1gue. Por isso, as \u00e1guas do Xingu somente baixar\u00e3o mais que o normal se o mesmo ocorrer no Rio Amazonas. Al\u00e9m disso, os dois cursos sofrem a influ\u00eancia das mar\u00e9s do Oceano Atl\u00e2ntico, apesar da dist\u00e2ncia em que se encontram, superior a 400 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Exatamente isto \u00e9 o que preocupa Saloma Oliveira, que as \u00e1guas menos velozes do Baixo Xingu \u201cse tornem mais \u00e1cidas\u201d pelo ac\u00famulo maior de mat\u00e9ria org\u00e2nica apodrecida, \u201cafetando esp\u00e9cies mais sens\u00edveis e reduzindo a biodiversidade local\u201d. A Norte Energia nega tal impacto, mas parte de bases pouco s\u00e9rias, segundo a secret\u00e1ria. A empresa reconhece somente uma \u201cinflu\u00eancia indireta\u201d de Belo Monte em \u00e1reas que n\u00e3o ser\u00e3o inundadas, mas sofrer\u00e3o graves danos, como a Volta Grande, trecho fluvial rochoso de cem quil\u00f4metros que ter\u00e1 parte de seu fluxo desviada para alimentar \u00e0 represa de Belo Monte, explica a companhia.<\/p>\n<p>A represa reter\u00e1 sedimentos que s\u00e3o importantes para manter as praias do Embaubal, cuja altura \u00e9 indispens\u00e1vel para o sucesso reprodutivo das tartarugas e de outros quel\u00f4nios, alertou Juarez. As maiores perdas de ovos se devem a cheias do rio antes dos nascimentos, em raz\u00e3o de chuvas fortes e antecipadas na bacia, os \u201crepiquetes\u201d. Por\u00e9m, esses s\u00e3o inimigos incertos e incontrol\u00e1veis para guardi\u00f5es como Luiz, cuja responsabilidade \u00e9 evitar a depreda\u00e7\u00e3o humana e natural da fauna do Tabuleiro do Embaubal.<\/p>\n<p>O campon\u00eas Manoel Nader viu pela primeira vez a desova das tartarugas no Tabuleiro ao integrar-se ao grupo de guardi\u00f5es. \u201cFoi uma grande emo\u00e7\u00e3o, nunca tive essa oportunidade\u201d, apesar de ter vivido quase todos os meus 48 anos no munic\u00edpio, contou. Nader confessa, como v\u00e1rios colegas, ter \u201cpescado\u201d algumas para consumo pr\u00f3prio, apesar da proibi\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 o costume de todos\u201d, justifica, mas agora assume a miss\u00e3o de proteg\u00ea-las. Al\u00e9m disso, \u201cprefiro carne de vaca\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>O grande problema n\u00e3o s\u00e3o os pescadores locais, conhecidos e desarmados, que consomem poucos animais e s\u00e3o suscet\u00edveis ao di\u00e1logo, afirma Luiz. A amea\u00e7a s\u00e3o os comerciantes \u201cde fora\u201d, que abastecem grandes cidades, como Manaus e Bel\u00e9m (PA). Para reprimi-los falta for\u00e7a policial, ressalta. Os guardi\u00f5es do Embaubal s\u00e3o civis, empregados da Biota ou da prefeitura, como ele, sem status de policiais. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), que tem essa autoridade, transferiu suas fun\u00e7\u00f5es no arquip\u00e9lago para uma funda\u00e7\u00e3o privada que abandonou a tarefa h\u00e1 dois anos e meio.<\/p>\n<p>Luiz foi, ent\u00e3o, um defensor solit\u00e1rio do Embaubal, muitas vezes sem combust\u00edvel nem barcos para percorrer as ilhas, e outras vezes testemunha impotente da captura de grande quantidade de tartarugas. Dez de seus 47 anos dedicou \u00e0 miss\u00e3o. Vive na \u201cbase\u201d, uma grande casa de madeira com um posto de observa\u00e7\u00e3o que permite vigiar \u00e0 luz do dia a praia de Juncal, que fica a 600 metros. Visita pouco sua fam\u00edlia, mulher e seis filhos que vivem na cidade. Ganha pouco e j\u00e1 recebeu v\u00e1rias amea\u00e7as de morte, mas sente-se gratificado.<\/p>\n<p>* O autor \u00e9 correspondente da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BAIXO XINGU, Brasil, 22\/11\/2011 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- Algumas autoridades, ex-pescadores e ambientalistas asseguram a reprodu\u00e7\u00e3o das tartarugas amaz\u00f4nicas no Baixo Xingu. 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