{"id":921,"date":"2005-08-22T00:00:00","date_gmt":"2005-08-22T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=921"},"modified":"2005-08-22T00:00:00","modified_gmt":"2005-08-22T00:00:00","slug":"estados-unidos-retorno-do-realismo-poltica-externa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/america-latina\/estados-unidos-retorno-do-realismo-poltica-externa\/","title":{"rendered":"Estados Unidos: Retorno do realismo &agrave; pol&iacute;tica externa"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 22\/08\/2005 &ndash; Ao que parece, o grupo &quot;realista&quot; volta a conduzir a pol&iacute;tica externa dos Estados Unidos gra&ccedil;as ao &quot;colapso da doutrina Bush&quot;, segundo muitos especialistas em rela&ccedil;&otilde;es internacionais. Um dos que chegou a essa conclus&atilde;o &eacute; Gideon Rose, editor da revista especializada em pol&iacute;tica externa mais influente do pa&iacute;s, a Foreign Affairs, em uma coluna publicada pelo jornal The New York Times. Uma assinatura assim costuma rubricar a oficializa&ccedil;&atilde;o de uma tend&ecirc;ncia. &quot;Sete meses depois do in&iacute;cio do segundo mandato de Bush &eacute; claro que, apesar das promessas feitas em sua posse, a pol&iacute;tica externa norte-americana tomou um giro decididamente pragm&aacute;tico&quot;, escreve Gideon. <br \/> <!--more--> <br \/> As mudan&ccedil;as de pessoal no governo, a ressurrei&ccedil;&atilde;o do Departamento de Estado como jogador dominante e a sa&iacute;da de destacados neoconservadores do Pent&aacute;gono, como Paul Wolfowitz &#8211; assumiu a presid&ecirc;ncia do Banco Mundial &#8211; e Douglas Feith, ajudam a explicar a mudan&ccedil;a. Mas &quot;a verdadeira hist&oacute;ria real &eacute; ainda mais simples?, segundo Rose. &quot;A doutrina Bush entrou em colapso e a administra&ccedil;&atilde;o precisou, em conseq&uuml;&ecirc;ncia, abra&ccedil;ar o realismo, a perene cura da pol&iacute;tica externa norte-americana&quot; quando sofre a &quot;ressaca&quot; do &quot;idealismo entusiasta&quot;. Rose considera que se trata do &uacute;ltimo giro no ciclo hist&oacute;rico depois da Segunda Guerra Mundial, em que os per&iacute;odos de &quot;aventureirismo idealista&quot; se alternam com outros de realismo cauteloso.<\/p>\n<p> O segundo governo de Bush n&atilde;o abandonar&aacute;, ao que parece, as metas gerais do primeiro, mas procurar&aacute; estabelecer &quot;um rumo mais calmo e medido&quot; para esses objetivos. Os funcion&aacute;rios de Washington &quot;ainda acreditam no poder norte-americano e na propaga&ccedil;&atilde;o global do capitalismo liberal e democr&aacute;tico&quot;, afirmou. &quot;Mas buscam uma autoridade leg&iacute;tima mais do que um simples dom&iacute;nio material, est&atilde;o a favor da an&aacute;lise custo-benef&iacute;cio, mais do que nas provas ideol&oacute;gicas definitivas, e privilegiam os bons resultados acima das boas inten&ccedil;&otilde;es?, concluiu.<\/p>\n<p> Os realistas, grupo que dominou no &uacute;ltimo meio s&eacute;culo na pol&iacute;tica externa dos Estados Unidos, mas que foi relegado pelos neoconservadores no primeiro mandato de Bush, preferem a a&ccedil;&atilde;o multilateral e priorizam o fortalecimento das alian&ccedil;as tradicionais de Washington, especialmente a Organiza&ccedil;&atilde;o do Tratado do Atl&acirc;ntico Norte (Otan). Por outro lado, os neoconservadores s&atilde;o hostis, em particular, aos processos multilaterais em geral e &agrave; Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Seus postulados sobre pol&iacute;tica externa recha&ccedil;am o pragmatismo e formulam os conflitos em termos morais. A maioria &eacute; de judeus de direita, muito ligados ao conservador partido Likud, no poder em Israel. S&atilde;o pol&iacute;ticos, analistas e acad&ecirc;micos belicistas, e defendem que a pol&iacute;tica antiterror de Washington aponte contra todos os grupos e pa&iacute;ses que consideram amea&ccedil;as aos interesses israelenses. A corrente foi criada nos anos 60 por democratas de esquerda e trotskistas descontentes com a fraca aproxima&ccedil;&atilde;o de Washington com os pa&iacute;ses &aacute;rabes.<\/p>\n<p> Os realistas e seus companheiros de viagem europeus haviam previsto em reiteradas oportunidades nos anos 90 o fim das for&ccedil;as unilateralistas e neoconservadores at&eacute; os atentados que causaram tr&ecirc;s mil mortos em Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001. Mas muitos observadores acreditam que agora o equil&iacute;brio de poder dentro do governo norte-americano come&ccedil;ou a favorecer, decisivamente, o grupo realista. &quot;Creio que Gideon est&aacute; essencialmente certo&quot;, disse Sherle Schwenninger, analista de pol&iacute;tica externa do centro acad&ecirc;mico World Policy Institute (WPI). &quot;Os per&iacute;odos de hiper-realismo &#8211; neste caso, de neo-imperialismo &#8211; s&atilde;o seguidos por per&iacute;odos de maior sobriedade em sentido comum&quot;.<\/p>\n<p> Schwenninger tamb&eacute;m concorda que, embora as mudan&ccedil;as de pessoal no governo tenham reduzido a capacidade de manobra dos elementos mais ideologistas, boa parte da mudan&ccedil;a &quot;&eacute; puramente ditada pela realidade de que os Estados Unidos exageraram no Iraque e n&atilde;o t&ecirc;m boas op&ccedil;&otilde;es nem no Ir&atilde; nem na Cor&eacute;ia do Norte. T&ecirc;m muitas inten&ccedil;&otilde;es, tanto financeiras quanto militares&quot;, afirmou. Tamb&eacute;m chegou a essa conclus&atilde;o Anatol Lieven, da New American Foundation, que exp&ocirc;s em um ciclo semelhante o que Gideon escreveu em seu livro &quot;Am&eacute;rica Right or Wrong: An anatomy of american nationalism&quot; (Estados Unidos no acerto ou no erro: uma anatomia do nacionalismo norte-americano).<\/p>\n<p> &quot;O sistema norte-americano, depois de tudo, n&atilde;o &eacute; insano, e isso &eacute; certo inclusive na administra&ccedil;&atilde;o Bush&quot;, disse Lieven &agrave; IPS. &quot;Se o pre&ccedil;o da guerra &eacute; restaurar o recrutamento obrigat&oacute;rio &#8211; cuja conseq&uuml;&ecirc;ncia segura &eacute; a perda das elei&ccedil;&otilde;es &#8211; ser&atilde;o cautelosos. N&atilde;o t&ecirc;m soldados nem dinheiro&quot;, disse o especialista. Enquanto isso, a ret&oacute;rica pr&oacute;-democr&aacute;tica, em particular no tocante ao Iraque e Oriente M&eacute;dio, continua dominando o discurso oficial, em particular o de Bush e o da secret&aacute;ria de Estado, Condoleeza Rice. Mas o dom&iacute;nio realista &eacute; muito claro, em particular se forem analisados os &uacute;ltimos movimentos em torno dos dois membros destacados do &quot;eixo do mal&quot;.<\/p>\n<p> O apoio norte-americano, embora reticente, das gest&otilde;es da Alemanha, Fran&ccedil;a e Gr&atilde;-Bretanha para chegar a um acordo com o Ir&atilde; sobre o programa de desenvolvimento nuclear marcou uma mudan&ccedil;a nesse sentido. Tamb&eacute;m o fez o tipo de postura de Washington no di&aacute;logo com a Cor&eacute;ia do Norte, um processo que encontrou resist&ecirc;ncia no vice-presidente Dick Cheney. Do mesmo modo, o governo tentou aplacar o sentimento antichin&ecirc;s no Congresso e fechar as feridas dos dois pa&iacute;ses europeus contr&aacute;rios &agrave; guerra no Iraque, como Alemanha e Fran&ccedil;a, aos quais o secret&aacute;rio da Defesa, Donald Rumsfeld, chamou depreciativamente de &quot;velha Europa&quot;. Assim ficou claro que Washington n&atilde;o &eacute; imune ao tradicional equil&iacute;brio de poder pol&iacute;tico e deve considerar os interesses de outras na&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Esta percep&ccedil;&atilde;o no Departamento de Estado &eacute; promovida pelo subsecret&aacute;rio Roberto Zoellick, pelo subsecret&aacute;rio para a pol&iacute;tica, Nicholas Burns, e o conselheiro Philip Zelikow, todos eles realistas. Tampouco se pode subestimar a influ&ecirc;ncia da nova chefe de diplomacia p&uacute;blica do Departamento de Estado e confidente de Bush, Karen Hughes. Por outro lado, Rumsfeld, apesar de sua irresist&iacute;vel tend&ecirc;ncia a fazer soar as botas quando se trata do Ir&atilde;, aproximou-se do campo realista, talvez apenas para impedir um motim de generais escandalizados com o pesadelo iraquiano, que lhes faz lembrar o Vietn&atilde;. Uma mostra disso foi seu apoio &agrave;s iniciativas militares de mudar a denomina&ccedil;&atilde;o da &quot;guerra mundial contra o terror&quot; pela mais moderada &quot;guerra mundial contra o extremismo violento&quot;.<\/p>\n<p> &quot;Se est&aacute;s encarregado das for&ccedil;as armadas dos Estados Unidos, h&aacute; certas realidades que deves considerar&quot;, escreveu Lieven, se referindo ao humor dos chefes militares. Mas embora Rose pinte o ressurgimento realista como um processo inevit&aacute;vel e natural, outros especialistas n&atilde;o est&atilde;o dispostos a minimizar o atual poder dos falc&otilde;es, que poderiam abrir as asas com um novo ataque terrorista contra os Estados Unidos ou um colapso nas negocia&ccedil;&otilde;es com a Cor&eacute;ia do Norte ou o Ir&atilde;. Este &uacute;ltimo continua sendo considerado o inimigo p&uacute;blico n&uacute;mero um pelos neoconservadores e pelos nacionalistas agressivos liderados por Cheney.<\/p>\n<p> &quot;O vice-presidente Cheney n&atilde;o necessariamente perdeu no Ir&atilde;&quot;, advertiu Schwenninger. &quot;P&ocirc;de calcular que, na medida em que os Estados Unidos colaborarem, Alemanha, Fran&ccedil;a e Gr&atilde;-Bretanha fracassar&atilde;o nas negocia&ccedil;&otilde;es e demonstraremos, assim, aos europeus que um enfoque brando n&atilde;o funciona&quot;. Por este ponto de vista, Cheney e os falc&otilde;es teriam acertado uma retirada t&aacute;tica para garantir maior apoio na imposi&ccedil;&atilde;o de san&ccedil;&otilde;es que desestabilizariam o governo iraniano ou na justificativa de um ataque militar norte-americano ou israelense, no final de 2006 ou em 2007. &quot;Quando algo justificar suas atitudes intervencionistas&quot;, disse Lieven, &quot;estar&atilde;o preparados para aproveitar a situa&ccedil;&atilde;o, como fizeram depois do 11 de setembro&quot;. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 22\/08\/2005 &ndash; Ao que parece, o grupo &quot;realista&quot; volta a conduzir a pol&iacute;tica externa dos Estados Unidos gra&ccedil;as ao &quot;colapso da doutrina Bush&quot;, segundo muitos especialistas em rela&ccedil;&otilde;es internacionais. Um dos que chegou a essa conclus&atilde;o &eacute; Gideon Rose, editor da revista especializada em pol&iacute;tica externa mais influente do pa&iacute;s, a Foreign Affairs, em uma coluna publicada pelo jornal The New York Times. Uma assinatura assim costuma rubricar a oficializa&ccedil;&atilde;o de uma tend&ecirc;ncia. &quot;Sete meses depois do in&iacute;cio do segundo mandato de Bush &eacute; claro que, apesar das promessas feitas em sua posse, a pol&iacute;tica externa norte-americana tomou um giro decididamente pragm&aacute;tico&quot;, escreve Gideon. <br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/america-latina\/estados-unidos-retorno-do-realismo-poltica-externa\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":104,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-921","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/921","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=921"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/921\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=921"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=921"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=921"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}