{"id":9314,"date":"2012-01-03T11:24:03","date_gmt":"2012-01-03T11:24:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9314"},"modified":"2012-01-03T11:24:03","modified_gmt":"2012-01-03T11:24:03","slug":"a-insustentavel-deficiencia-politica-do-ambientalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/america-latina\/a-insustentavel-deficiencia-politica-do-ambientalismo\/","title":{"rendered":"A insustent\u00e1vel defici\u00eancia pol\u00edtica do ambientalismo"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 03\/01\/2012 &ndash; O movimento ambientalista ganhou a batalha ideol\u00f3gica com a amplia\u00e7\u00e3o do conhecimento sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. <!--more--> Seus ativistas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os \u201clouquinhos\u201d ou \u201cincomodados\u201d do passado: o isolamento agora cabe aos c\u00e9ticos ou aos que negam o aquecimento global pela a\u00e7\u00e3o humana. Os eventos extremos, cada vez mais frequentes, e o aumento do n\u00edvel das \u00e1guas dos oceanos contribu\u00edram para considerar seriamente as advert\u00eancias, que no passado recente eram respondidas de modo ir\u00f4nico ou simplesmente subestimadas.<\/p>\n<p>A sustentabilidade se incorporou inclusive ao vocabul\u00e1rio empresarial, e as campanhas e os consumidores induzem certos setores produtivos a assinarem acordos de boa conduta ambiental e social, como compromissos para rejeitar madeira ou carne produzidas \u00e0 custa do desmatamento da Amaz\u00f4nia. Entretanto, essa legitimidade cient\u00edfica das propostas ambientalistas n\u00e3o se transforma em for\u00e7a pol\u00edtica na hora das grandes decis\u00f5es, por exemplo, nas confer\u00eancias que tentam estabelecer um tratado mundial para conter o aquecimento da Terra.<\/p>\n<p>O consenso, j\u00e1 praticamente alcan\u00e7ado, de que nosso planeta caminha para um catastr\u00f3fico destino se n\u00e3o forem tomadas medidas urgentes, n\u00e3o conta com o correspondente poder pol\u00edtico para impulsionar a\u00e7\u00f5es consideradas indispens\u00e1veis para reduzir as emiss\u00f5es dos gases que provocam o chamado efeito estufa. O empurr\u00e3o obtido na d\u00e9cada de 1990 com a Conven\u00e7\u00e3o Marco das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica, aprovada na C\u00fapula do Rio de 1992, e o Protocolo de Kyoto, assinado cinco anos depois nessa cidade japonesa, parece perdido, embora se tenha acumulado e difundido mais conhecimentos sobre a amea\u00e7a de hecatombe humana.<\/p>\n<p>A crise ambiental \u00e9 um dos desafios que colocam em xeque a sobreviv\u00eancia da democracia neste s\u00e9culo, segundo um grupo de intelectuais que o instituto Internacional de Pesquisa Pol\u00edtica de Civiliza\u00e7\u00e3o (IIRPC) re\u00fane periodicamente em Poitiers, na Fran\u00e7a, para discutir grandes temas da humanidade. Os regimes democr\u00e1ticos n\u00e3o parecem capazes de enfrentar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, porque o car\u00e1ter tempor\u00e1rio da din\u00e2mica pol\u00edtica \u00e9 de curto prazo, enquanto a ambiental se conta em d\u00e9cadas, resumiu Elimar Pinheiro do Nascimento, diretor do Centro de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da Universidade de Bras\u00edlia e participante dos semin\u00e1rios em Poitiers.<\/p>\n<p>Uma cuida da liberdade e a outra da sobreviv\u00eancia, por isso um \u201ccrescente n\u00famero de intelectuais\u201d acredita que a humanidade vai preferir subsistir em lugar de lutar pela democracia, quando tiver de escolher entre essas duas op\u00e7\u00f5es excludentes, acrescentou Nascimento. Tamb\u00e9m est\u00e3o \u00e0 prova os mecanismos para ado\u00e7\u00e3o de acordos internacionais no sistema multilateral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). O Protocolo de Kyoto, que venceria inicialmente em 2012, deveria obrigar os 37 pa\u00edses industrializados a reduzirem suas emiss\u00f5es de gases-estufa em pelo menos 5,2% em rela\u00e7\u00e3o aos volumes registrados em 1990. Por\u00e9m, n\u00e3o conseguiu seu objetivo.<\/p>\n<p>Este acordo esteve limitado desde o in\u00edcio de sua vig\u00eancia, em 2005, por suas metas t\u00edmidas e pela recusa dos Estados Unidos, ent\u00e3o os maiores emissores mundiais de carbono. Sua prorroga\u00e7\u00e3o at\u00e9 a vig\u00eancia de um novo tratado global ocorre em condi\u00e7\u00f5es de maior debilidade ainda, com a retirada de Canad\u00e1, Jap\u00e3o e R\u00fassia. A aprova\u00e7\u00e3o de um conv\u00eanio nas confer\u00eancias da ONU \u00e9 dif\u00edcil porque exige consenso entre as partes e n\u00e3o assegura efic\u00e1cia, j\u00e1 que, em geral, n\u00e3o s\u00e3o previstas san\u00e7\u00f5es por descumprimentos e sua ado\u00e7\u00e3o depende da ratifica\u00e7\u00e3o dos parlamentos nacionais.<\/p>\n<p>\u00c9 no jogo parlamentar que costuma se manifestar a debilidade do ambientalismo, especialmente diante dos interesses econ\u00f4micos antag\u00f4nicos que travam a negocia\u00e7\u00e3o de tratados internacionais \u00e0 altura do desafio clim\u00e1tico ou que podem reduzir seus efeitos, com aconteceu com o Protocolo de Kyoto.<\/p>\n<p>Os partidos verdes s\u00e3o extremamente minorit\u00e1rios e pouco influem nas pol\u00edticas nacionais, salvo algumas exce\u00e7\u00f5es, como a da Alemanha. Al\u00e9m disso, muitos abandonaram seus princ\u00edpios originais ao se envolverem no jogo eleitoral, como no Brasil. Outros instrumentos de luta, como mobiliza\u00e7\u00f5es, protestos, campanhas de comunica\u00e7\u00e3o e outras variadas formas de press\u00e3o social tampouco parecem suficientes para promover as necess\u00e1rias mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Uma revis\u00e3o do C\u00f3digo Florestal brasileiro nega os esfor\u00e7os para reduzir os gases-estufa no pa\u00eds, reconhecido como campe\u00e3o da mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica pelo secret\u00e1rio-executivo do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica, Achim Steiner. A vota\u00e7\u00e3o do projeto, que flexibiliza exig\u00eancias ambientais e perdoa desmatamentos ilegais de latifundi\u00e1rios, demonstrou a impot\u00eancia dos ambientalistas, bem como dos cientistas que pediam para serem ouvidos no debate.<\/p>\n<p>Os defensores do C\u00f3digo Florestal que protege as florestas do Brasil desde 1965 sofreram uma derrota esmagadora em maio, de 410 a 63 votos na C\u00e2mara Federal, e no dia 6 de dezembro, de 59 a sete no Senado. A reforma espera aprova\u00e7\u00e3o definitiva nos pr\u00f3ximos meses, em uma nova vota\u00e7\u00e3o dos deputados, porque precisou voltar \u00e0 C\u00e2mara em raz\u00e3o de modifica\u00e7\u00f5es feitas no texto pelos senadores com meia san\u00e7\u00e3o. Os ambientalistas agora temem uma vers\u00e3o final mais negativa ainda para o meio ambiente, j\u00e1 que os deputados se revelaram mais inclinados pelos interesses dos propriet\u00e1rios dos grandes estabelecimentos rurais.<\/p>\n<p>A 17\u00aa Confer\u00eancia das Partes da Conven\u00e7\u00e3o Marco das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (COP 17), realizada entre 28 de novembro e 11 de dezembro de 2011, na cidade sul-africana de Durban, foi \u201cum retrocesso\u201d, ao aprovar apenas \u201cuma promessa\u201d de a\u00e7\u00f5es a partir de 2020, escreveu Marina Silva em um artigo publicado no dia 16 de dezembro no jornal Folha de S.Paulo. Faltam estadistas, \u201cl\u00edderes que se apresentem nas crises\u201d para promover as mudan\u00e7as necess\u00e1rias, acrescentou a ex-ministra do Meio Ambiente do governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 mais do que incerto o surgimento de suficientes dirigentes capazes de enfrentar interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos imediatos para sustentar a sobreviv\u00eancia da humanidade. Ser\u00e1, provavelmente, necess\u00e1rio descobrir novos mecanismos para aprovar e assegurar pol\u00edticas de muito longo prazo como exigem os problemas ambientais.<\/p>\n<p>O desequil\u00edbrio de poder a favor da economia \u00e9 desmedido. Os bancos centrais, por exemplo, disp\u00f5em hoje em muitos pa\u00edses de autonomia para adotar medidas monet\u00e1rias, \u00e0s vezes impopulares, evitando press\u00f5es at\u00e9 mesmo dos pr\u00f3prios governos nacionais. As crises financeiras, como a que afeta atualmente o mundo industrializado, levam \u00e0 chefia de governos economistas especializados no assunto. No entanto, ningu\u00e9m imagina um poder semelhante nas m\u00e3os de ambientalistas ou especialistas em clima.<\/p>\n<p>Marina Silva pretendia, ao assumir o Minist\u00e9rio em 2003, que as quest\u00f5es da \u00e1rea fossem \u201ctransversais\u201d, consideradas nas a\u00e7\u00f5es de todos os minist\u00e9rios do governo Lula. Entretanto, renunciou em maio de 2008, deslocada pelos poderes muito superiores atribu\u00eddos ao desenvolvimento econ\u00f4mico. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 03\/01\/2012 &ndash; O movimento ambientalista ganhou a batalha ideol\u00f3gica com a amplia\u00e7\u00e3o do conhecimento sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/america-latina\/a-insustentavel-deficiencia-politica-do-ambientalismo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,11],"tags":[27],"class_list":["post-9314","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-politica","tag-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9314\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}