{"id":9345,"date":"2012-01-09T15:05:56","date_gmt":"2012-01-09T15:05:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9345"},"modified":"2012-01-09T15:05:56","modified_gmt":"2012-01-09T15:05:56","slug":"uganda-maes-solteiras-e-avos-abandonadas-em-pantano-alagado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/africa\/uganda-maes-solteiras-e-avos-abandonadas-em-pantano-alagado\/","title":{"rendered":"UGANDA: M\u00e3es solteiras e av\u00f3s abandonadas em p\u00e2ntano alagado"},"content":{"rendered":"<p>KAMPALA, 09\/01\/2012 &ndash; A vida em Bwaise \u2013 um bairro de lata nos arredores da capital do Uganda \u2013 nunca foi f\u00e1cil. <!--more--> Mas as chuvas cada vez mais irregulares dos \u00faltimos tr\u00eas anos t\u00eam trazido cheias constantes neste antigo p\u00e2ntano. Os residentes com mais posses est\u00e3o a abandonar a \u00e1rea, deixando os mais pobres \u2013 frequentemente m\u00e3es solteiras e av\u00f3s \u2013 abandonados.              Os jardins em redor da casa de Regina Bayiyana em Bwakise continuam a desaparecer, O marido e os cinco filhos morreram depois de uma doen\u00e7a prolongada, deixando-a sozinha a criar 15 netos numa casa de um quarto. As colheitas que produzia no quintal \u2013 banana, batata doce e inhame \u2013 eram a principal fonte de alimento e rendimento.<\/p>\n<p>Agora, ela e a fam\u00edlia come\u00e7aram a comer uma \u00fanica refei\u00e7\u00e3o por dia e j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 dinheiro para as propinas escolares.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 dez anos este era um bom s\u00edtio para se viver,\u201d disse Bayiyana. \u201cAgora n\u00e3o podemos plantar\u2026 A \u00e1gua entra nas nossas casas logo que chove. A minha casa desapareceu devido \u00e0s chuvas.\u201d<\/p>\n<p>Na zona montanhosa de Kampala, Bwaise \u00e9 uma zona de baixa altitude povoada no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80, de acordo com Florence Masuliya, funcion\u00e1ria respons\u00e1vel por programas junro do Grupo Tusitukirewamu \u2013 uma organiza\u00e7\u00e3o localizada neste bairro de lata que trabalha em prol da autonomiza\u00e7\u00e3o das mulheres. Muitas pessoas que chegaram a este local eram refugiados provenientes de \u00e1reas assoladas pela viol\u00eancia em v\u00e1rias partes do pa\u00eds.  Apesar de nunca ter sido uma comunidade invejada, as pessoas podiam montar uma loja e cultivar alimentos suficientes para sobreviver, explicou Msualiya. Pelo menos, at\u00e9 que o regime de chuvas na capital come\u00e7ou a mudar.<\/p>\n<p>\u201cO que acontecia era que Novembro e Dezembro era a \u00e9poca das chuvas,\u201d contou. \u201cMas agora, desde Janeiro, temos tido chuva e mais chuva. Penso que se chegou a este ponto devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.\u201d <\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio de 2008 da Oxfam, preparado com o apoio de funcion\u00e1rios distritais no Uganda, indica que muitas das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas do pa\u00eds \u2013 incluindo as chuvas \u201cpesadas e violentas\u201d \u2013 eram consistentes com os efeitos do aquecimento global.<\/p>\n<p>Embora os padr\u00f5es meteorol\u00f3gicos no Uganda sempre tenham sido imprevis\u00edveis, os autores indicam que as recentes chuvas inconsistentes e a cont\u00ednua desfloresta\u00e7\u00e3o podiam aumentar o risco de cheias, visto que o solo n\u00e3o conseguia absorver tanta \u00e1gua. O relat\u00f3rio previa que toda a regi\u00e3o se podia tornar ainda mais chuvosa no futuro. <\/p>\n<p>A \u00e1gua das comunidades circundantes que escorre para Bwaise refor\u00e7a os resultados do relat\u00f3rio. Devido ao facto de haver pouco planeamento oficial para o desenvolvimento da comunidade, os sistemas de drenagem existentes s\u00e3o poucos e muito rudimentares para lidar com o volume de \u00e1gua despejada no bairro. Em vez disso, a \u00e1gua atravessa casas e lojas.<\/p>\n<p>Muitos pr\u00e9dios est\u00e3o a come\u00e7ar a apodrecer ou a desmoronar-se. As chuvas \u00e0 noite s\u00e3o particularmente perigosas, j\u00e1 que as cheias apanham as fam\u00edlias desprevenidas, causando afogamentos das crian\u00e7as mais pequenas. E a \u00e1gua que sobra fica estagnada nas estradas e jardins, transformando-se em terreno f\u00e9rtil para doen\u00e7as como a c\u00f3lera e tif\u00f3ide.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o estar preparada para as cheias quando come\u00e7aram a chegar, Bayiyana aprendeu agora a preparar-se para a chuva. Quando ouve chuva \u00e0 noite, coloca os tr\u00eas colch\u00f5es da fam\u00edlia em cima uns dos outros e diz aos netos que subam para o topo para evitarem a \u00e1gua e as cobras que \u00e0s vezes s\u00e3o transportadas para dentro de casa pelas chuvas.<\/p>\n<p>Mas ainda n\u00e3o conseguiram evitar completamente a \u00e1gua contaminada. V\u00e1rios netos de Bayiyana recentemente tiveram uma alergia cut\u00e2nea e ela teve de lev\u00e1-los ao hospital para tratamento. <\/p>\n<p>Gostava de mudar de s\u00edtio, mas \u201cningu\u00e9m quer comprar este terreno. Se eu o vendesse receberia muito pouco dinheiro.\u201d<\/p>\n<p>Apesar das chuvas ocorrerem indiscriminadamente, o grupo que sofre mais s\u00e3o as m\u00e3es e av\u00f3s que vivem em Bwaise, explicou Florence Kasule, directora de programas da Rede das Mulheres Africanas para a Pol\u00edtica Econ\u00f3mica. A sua organiza\u00e7\u00e3o trabalha para sensibilizar as pessoas sobre os problemas da comunidade.<\/p>\n<p>Afirma que desde que as chuvas chegaram, os homens t\u00eam abandonado a comunidade para conseguirem um rendimento mais est\u00e1vel visto que as cheias tornam o trabalho obsoleto. A maior parte abandonou mulheres e filhos.<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres n\u00e3o se podem mudar facilmente devido aos filhos,\u201d explicou Kasule. \u201cNingu\u00e9m quer ficar com tr\u00eas ou quatro crian\u00e7as.\u201d Com os maridos ausentes, muitas mulheres t\u00eam de procurar qualquer tipo de trabalho, \u00e0s vezes vendendo alimentos \u00e0 noite \u00e0 entrada dos bares ou vendendo paixe seco \u00e0 beira da estrada.<\/p>\n<p>O marido de Susan Nakayiza deixou-a, obrigando-a a criar 12 crian\u00e7as sozinha. Ela disse que a fam\u00edlia n\u00e3o estava preparada para as chuvas. N\u00e3o tinha havido avisos oficiais e, como ela n\u00e3o sabia que as chuvas normais anteriores se podiam transformar em cheias, quando tudo come\u00e7ou em 2008, as chuvas quase destru\u00edram tudo o que ela possui.<\/p>\n<p>Para conseguir sobreviver, usa agora a casa como lavandaria, levando a que a casa esteja sempre cheia de roupa suja dos vizinhos.<\/p>\n<p>Os filhos ajudam-na no neg\u00f3cio, recebendo as encomendas e lavando as roupas no min\u00fasculo p\u00e1tio. Teve de tirar os filhos mais novos da escola porque lhe faltava o dinheiro. E o neg\u00f3cio est\u00e1 a ficar pior, porque muitas pessoas est\u00e3o a abandonar a \u00e1rea. <\/p>\n<p>Tal como Bayiyana, Nakayiza sonha em partir, \u201cmas n\u00e3o tenho dinheiro para pagar renda noutro s\u00edtio,\u201d explica.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o de Masuliya est\u00e1 \u00e0 procura de financiamento para apoiar as mulheres que ficam para tr\u00e1s. Recentemente organizou a obten\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito da Embaixada dos Estados Unidos, atrav\u00e9s do Plano Presidencial de Emerg\u00eancia para o Combate \u00e0 SIDA, que oferece financiamento para as mulheres cultivarem cogumelos, que depois podem comer ou vender.<\/p>\n<p>Bayiyana \u00e9 uma das participantes. Devido ao facto dos seus jardins estarem cheios de \u00e1gua, Masuliya deixa a av\u00f3 cultivar um terreno atr\u00e1s dos escrit\u00f3rios do Grupo Tusitukirewamu.<\/p>\n<p>Masuliya tamb\u00e9m trabalha afincadamente com funcion\u00e1rios locais, encorajando-os a desenvolverem um sistema de drenagem mais eficiente em Bwaise, com vista a remover a \u00e1gua das casas dos moradores. Foi-lhe prometido que no pr\u00f3ximo ano seria introduzido um novo sistema financiado pelo Banco Mundial.<\/p>\n<p>Os funcion\u00e1rios locais tamb\u00e9m se envolveram no caso. A Autoridade da Cidade de Kampala (KCCA) tem organizado semin\u00e1rios que visam encorajar as pessoas a eliminarem o seu lixo, para que n\u00e3o seja levado pelas cheias, segundo Janet Massazi, funcion\u00e1ria respons\u00e1vel pelo desenvolvimento comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se t\u00eam realizado semin\u00e1rios oficiais nos \u00faltimos tr\u00eas anos sobre a prepara\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria em caso de cat\u00e1strofes em Bwaise e nas comunidades circundantes. N\u00e3o \u00e9 um novo sistema de drenagem mas constitui um esfor\u00e7o para sensibilizar e preparar as pessoas para as cheias. <\/p>\n<p>Bayiyana afirma que est\u00e1 grata pelos esfor\u00e7os envidados por outras pessoas para ajudar a popula\u00e7\u00e3o que ainda vive em Bwaise, mas n\u00e3o conta que as coisas realmente mudem at\u00e9 ao fim da sua vida.<\/p>\n<p>\u201cA minha mensagem para o governo \u00e9: \u201cApoiem estas pessoas,\u201d apelou. \u201cSou vi\u00fava. N\u00e3o posso fazer nada. Tenho de obter apoio de algum lado.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>KAMPALA, 09\/01\/2012 &ndash; A vida em Bwaise \u2013 um bairro de lata nos arredores da capital do Uganda \u2013 nunca foi f\u00e1cil. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/africa\/uganda-maes-solteiras-e-avos-abandonadas-em-pantano-alagado\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":999,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-9345","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/999"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9345"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9345\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}